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Crítica | Documentário COPAN transforma ícone da arquitetura brasileira em reflexão sobre poder e representação

Vencedor do Festival Internacional É Tudo Verdade, o longa-metragem documental COPAN utiliza uma das construções mais emblemáticas do Brasil para discutir algo muito maior do que sua arquitetura.

Enquanto o síndico do prédio luta para manter um cargo que ocupa há mais de 30 anos, o Brasil atravessa sua própria disputa por poder durante as eleições presidenciais de 2022. É a partir desse paralelo que a diretora, roteirista e fotógrafa Carine Wallauer constrói seu documentário.

Mais do que registrar a rotina do edifício projetado por Oscar Niemeyer, COPAN utiliza seus corredores como ponto de partida para discutir questões de liderança, representação e tensões políticas e sociais que atravessam o cotidiano brasileiro.

A eleição de condomínio que não é apenas uma eleição de condomínio

Embora a disputa pela administração do edifício funcione como o eixo narrativo do documentário, COPAN dedica sua atenção às discussões, alianças e tensões que emergem durante o processo eleitoral.

Ao longo do filme, moradores questionam lideranças, discutem representação e expressam visões diferentes sobre o futuro do prédio e do Brasil.

O contexto em que essas discussões acontecem torna tudo ainda mais interessante. Enquanto o país atravessa uma eleição marcada por discursos de renovação e alternância de poder, o documentário acompanha um síndico que ocupa o mesmo cargo há mais de três décadas. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas dividem o mesmo edifício sem necessariamente compartilhar as mesmas prioridades, valores ou visões de mundo. É desse atrito entre convivência e divergência que COPAN extrai parte de sua força.

A conexão entre as duas esferas não é explicada de maneira expositiva. Ela surge aos poucos, por meio das conversas, dos detalhes observados pela câmera, das reportagens jornalísticas que ouvimos junto aos personagens e das associações sugeridas pela montagem. 

Mas Wallauer não está preocupada em transformar o Copan em uma alegoria perfeita do Brasil. O que interessa à diretora é observar como pessoas com interesses, valores e expectativas diferentes aprendem a conviver, disputar espaço e negociar mudanças. Questões que atravessam tanto as reuniões de condomínio quanto o debate político nacional.

Observar em vez de conduzir

A abordagem contemplativa adotada por Wallauer é fundamental para que sua proposta funcione.

COPAN abre mão de alguns recursos mais tradicionais do gênero documental. Não há entrevistas ou uma narração em voz off orientando a leitura do espectador. Em vez disso, a diretora confia na observação.

A câmera acompanha o fluxo constante de pessoas pelos corredores, os trabalhadores que mantêm o edifício funcionando e os moradores em suas rotinas. Espalhadas pelos 1160 apartamentos, centenas de atividades acontecem simultaneamente dentro daquela estrutura gigantesca.

As decisões da diretora permitem que o espectador descubra relações, tensões e contrastes por conta própria. Aos poucos, o Copan deixa de parecer apenas um prédio. Com milhares de moradores compartilhando os mesmos corredores, elevadores e áreas comuns sem necessariamente compartilhar a mesma visão de mundo, o edifício passa a funcionar como uma pequena cidade vertical.

A fotografia conta sua própria história

Se existe um aspecto particularmente fascinante em COPAN, ele está na forma como narrativa e fotografia parecem caminhar lado a lado, mas interessadas em dimensões diferentes da mesma história.

Enquanto a narrativa se volta para as dinâmicas de convivência, as disputas por influência e os conflitos de opinião que tensionam aquela comunidade, a fotografia parece fascinada pelo próprio edifício. É por meio dela que Wallauer explora o Copan: desde a sequência de abertura, que atravessa São Paulo até encontrar suas curvas características, o filme estabelece o prédio como um de seus personagens.

divulgação

Em diversos momentos, a diretora interrompe o avanço da narrativa para dedicar atenção ao espaço. A câmera permanece por longos segundos em uma escadaria, percorre corredores ou acompanha discretamente a movimentação das áreas comuns. À primeira vista, pode parecer que nada acontece. Mas é justamente nesses momentos que a fotografia reforça aquilo que mais parece interessar a Wallauer: o prédio e a vida que acontece dentro dele.

Vale a pena assistir?

Depende do que você espera encontrar. Com produção de Viviane Mendonça, Camilo Cavalcanti, Nabil Bellahsene, Justin Pechberty e Damien Megherbi, se você procura um documentário tradicional sobre a história do Copan talvez saia da sessão frustrado. O documentário não está interessado em explicar a importância do edifício, revisitar seus moradores mais famosos ou funcionar como um guia sobre um dos cartões-postais mais emblemáticos de São Paulo.

COPAN não é um documentário para quem busca respostas prontas. Ele prefere sugerir em vez de concluir e se permite observar em vez de explicar.

Seu ritmo contemplativo certamente vai afastar alguns espectadores. Mas aqueles dispostos a acompanhar seu olhar paciente serão recompensados com um documentário extremamente rico, tanto nas discussões que propõe quanto nas imagens que constrói. COPAN já está disponível nos cinemas.

NOTA 7/10

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