A Netflix ainda nem começou a mostrar os primeiros detalhes da adaptação de Chestnut Springs, mas já existe um problema considerável para quem assumir a missão de levar os livros de Elsie Silver para a tela: os leitores já sabem exatamente o que querem ver – e algumas dessas cenas não foram escritas pensando em classificação indicativa.
A gigante do streaming adquiriu os direitos para desenvolver uma série baseada nos cinco romances da autora canadense, fenômeno do romance contemporâneo que já ultrapassou 10 milhões de cópias vendidas no mundo. A produção ficará ligada à 21 Laps Entertainment, de Shawn Levy, que assume a produção executiva, enquanto Hannah Schneider está responsável pela adaptação. Ainda não há elenco, data de estreia ou número de episódios anunciados.
Enquanto a Netflix começa a descobrir como transformar cowboys, ranchos, rodeios, famílias complicadas e uma quantidade generosa de cenas picantes em televisão, nós resolvemos fazer o caminho inverso: ler os livros antes de assistir à série.
E começamos pelos dois primeiros títulos publicados no Brasil pela Arqueiro: Sem Defeitos, equivalente a Flawless, e Sem Coração, Heartless no original. A série literária completa ainda passa por Powerless, Reckless e Hopeless, sempre acompanhando novos casais dentro do mesmo universo.
E existe uma surpresa aqui: apesar de Sem Defeitos ser a porta de entrada oficial para esse universo, é Sem Coração que nos fez entender por que Chestnut Springs virou um fenômeno tão fácil de transportar para o BookTok.
Sem Defeitos: a fórmula do cowboy problemático ainda funciona
O primeiro livro apresenta Rhett Eaton, astro do rodeio e integrante da poderosa família Eaton, que vê a própria carreira ameaçada depois de um problema de imagem. Para evitar que o comportamento impulsivo do peão coloque um grande contrato em risco, ele passa a ser acompanhado por Summer Hamilton, filha de seu agente.
É uma premissa que não exige muito esforço para ser reconhecida. Cowboy fechado. Mulher espirituosa. Convivência forçada. Atração que deveria ser evitada. Pequena cidade. Família enorme. E, claro, uma boa dose de tensão sexual.
A química entre os dois é construída aos poucos; nada de declaração em capítulo três. Rhett é arisco, Summer não se intimida, e a tensão entre eles cresce junto com a confiança, não no lugar dela. O ritmo é ágil na primeira metade, difícil largar o livro nos primeiros capítulos, e desacelera um pouco na segunda, quando o casal já resolveu a tensão e a trama passa a repetir batidas parecidas.
Também não faltam cenas quentes, bastante explícitas pro padrão do gênero, o que agrada quem procura esse tipo de leitura, mas pode pesar pra quem espera mais desenvolvimento de conflito e menos repetição. Elsie Silver não está tentando reinventar o romance de cowboy. E talvez seja justamente aí que esteja parte da eficiência de Sem Defeitos.
Ainda assim, é um primeiro livro eficiente. Não necessariamente porque seja imprevisível, mas porque entende que, em romance, uma fórmula conhecida pode continuar funcionando quando os personagens têm química suficiente para carregá-la.
Sem Coração: quando a continuação fica mais interessante que o começo
É no segundo livro, porém, que percebemos com mais clareza o potencial de Chestnut Springs como universo. Cade Eaton, irmão mais velho de Rhett, é praticamente o oposto do protagonista anterior. Workaholic, responsável e acostumado a colocar as obrigações antes de qualquer outra coisa, ele está criando o filho sozinho.
É aí que entra Willa Grant, melhor amiga de Summer, contratada para cuidar da criança durante o verão. A premissa poderia facilmente cair naquele território de romance contemporâneo extremamente previsível: pai solteiro + babá + convivência constante + diferença de idade. E, sim, tudo isso está aqui.
A diferença é que Silver consegue fazer a relação de Cade com o filho ocupar um espaço realmente importante na história. A diferença de idade entre os dois, 13 anos, é o gatilho da trama.
Willa, especialmente, ganha uma personalidade que impede que ela seja reduzida à “babá jovem que se apaixona pelo pai bonito”. Ela é engraçada, espontânea e um pouco caótica, enquanto Cade funciona justamente pela rigidez. A dinâmica dos dois é mais equilibrada do que poderia parecer pela premissa.
E aqui está a grande diferença em relação ao primeiro livro: o segundo romance parece saber melhor onde quer chegar. A narrativa alterna os pontos de vista dos protagonistas e mantém um ritmo mais regular. Há menos sensação de que o livro está tentando preencher espaço depois que o casal se aproxima.
Mas, obviamente, não poderíamos falar de Sem Coração sem falar da banheira.
A cena da banheira vai ser um problema para a Netflix
Existe uma cena de verdade ou desafio em uma banheira de hidromassagem que provavelmente vai virar uma das maiores curiosidades dos leitores quando a Netflix começar a divulgar a adaptação. E não apenas porque é uma das cenas mais quentes do livro.
Ela funciona como um verdadeiro ponto de virada para Cade e Willa, justamente porque coloca os dois em uma situação na qual fica cada vez mais difícil fingir que a atração não existe. Para quem leu, a pergunta inevitável não é se a Netflix vai adaptar. É como.
A produção terá que decidir até onde pretende preservar o teor mais adulto dos romances. E essa questão pode ser ainda mais importante do que escolher os atores certos. Porque Chestnut Springs não é apenas uma história de romance com cowboys. O desejo faz parte da estrutura narrativa desses livros. Cortar completamente esse aspecto significaria alterar uma parcela importante do que fez a série conquistar seus leitores.
O verdadeiro trunfo de Chestnut Springs não são os cowboys
Depois de dois livros, fica mais interessante falar de Chestnut Springs como uma série do que analisar apenas cada romance separadamente. Porque a grande aposta de Elsie Silver está na família Eaton.
Rhett e Cade são protagonistas diferentes, mas pertencem ao mesmo núcleo. Personagens que aparecem como coadjuvantes em uma história ganham importância na seguinte. Relações familiares continuam acontecendo enquanto novos romances começam. É uma estrutura particularmente conveniente para uma adaptação televisiva.
Os cinco livros principais – Flawless, Heartless, Powerless, Reckless e Hopeless, acompanham diferentes casais, mas permanecem conectados pelo mesmo universo. Isso permite que a história tenha novos protagonistas sem precisar abandonar completamente os personagens que o público já conhece.
E isso pode ser justamente o que fará a série funcionar melhor do que uma adaptação tradicional de romance. Em vez de contar uma única história de amor e encerrar tudo depois do felizes para sempre, Chestnut Springs tem material para construir uma comunidade.
A família cresce. Os relacionamentos mudam. Os personagens continuam existindo depois que deixam de ser protagonistas. Para a Netflix, isso significa que existe potencial para transformar os livros em uma produção com vida própria, caso a adaptação consiga entender que o rancho é tão importante quanto o casal da vez.
Vale ler antes da série da Netflix?
Os dois livros compartilham o que parece ser a receita de sucesso da autora: cidade pequena, família grande e disfuncional o suficiente pra render spin-offs, personagens que aparecem de relance num livro e ganham protagonismo no seguinte, e diálogos ágeis que carregam boa parte do humor da série.
Quem gosta do gênero vai reconhecer as fórmulas, cowboy durão, diferença de idade, proximidade forçada, mas a fluidez da escrita e a construção da família Eaton como núcleo compensam a previsibilidade pontual da trama.
Pra quem já está de olho na adaptação, vale a leitura adiantada: a Netflix tem um material com fã-base engajada, ambientação visualmente rica (rancho, rodeio, cidade pequena no Canadá) e personagens secundários suficientes pra sustentar mais de uma temporada sem esforço. Resta saber se a produção vai preservar o que faz os livros funcionarem, o ritmo dos diálogos e o tempo dedicado à confiança entre os casais, ou se vai acelerar tudo pra caber em oito episódios.
Mas, quem será capaz de interpretar Rhett e Summer sem decepcionar quem já criou os dois na própria cabeça Porque, antes mesmo de a Netflix anunciar o elenco, os leitores já têm suas versões dos personagens. E isso talvez seja um desafio ainda maior do que adaptar a cena da banheira.
