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Campus Drivers: série transforma romance universitário em um retrato das contradições da juventude

Veja como a série do Prime Video desenvolve o romance entre Lane e Loïs, aborda o luto e transforma a adaptação dos livros de C.S. Quill.

Atenção: esta crítica contém spoilers da primeira temporada.

À primeira vista, Campus Drivers parece conhecer muito bem a fórmula que está seguindo: uma universidade, um rapaz popular que não costuma se envolver emocionalmente, uma garota que chega com a vida sentimental em frangalhos e uma convivência inesperada que, aos poucos, muda a relação entre os dois. A série não tenta esconder suas referências às romances universitárias, nem precisa reinventar os códigos da New Romance para encontrar seu espaço. O que me chamou a atenção, porém, foi perceber que, por trás dessa estrutura bastante familiar, existe uma história interessada em algo que vai além da formação de um casal: a dificuldade de amadurecer quando ainda não conseguimos resolver aquilo que carregamos do passado.

Criada por Thomas Boullé e baseada na saga literária de C.S. Quill, a produção francesa tem seis episódios e acompanha Loïs, interpretada por Carmen Kassovitz, e Lane, vivido por Baptiste Masseline. Ela chega à Universidade de Belrose ao lado de Max (Enzo Lorente), seu namorado de longa data, acreditando que aquela seria uma nova etapa da vida dos dois. Lane, por sua vez, é um dos estudantes mais conhecidos do campus, criador do aplicativo Campus Drivers e dono de uma reputação que mistura popularidade, charme e uma aparente facilidade para manter as relações na superfície.

Quando o relacionamento de Loïs termina e ela fica sem ter onde morar, acaba dividindo o apartamento com Lane. A premissa poderia servir apenas como um recurso conveniente para aproximar os protagonistas, mas a série encontra nessa convivência uma oportunidade de construir algo mais interessante: duas pessoas que, por motivos diferentes, precisam aprender a deixar alguém novo entrar em suas vidas.

Uma adaptação que entende que livro e televisão contam histórias de maneiras diferentes

Uma das primeiras escolhas que merecem atenção está na própria identidade da adaptação. Os livros de C.S. Quill se passam nos Estados Unidos, mas a série transporta a história para a Côte d’Azur, no sul da França.

A autora contou à TF1 Info que, quando escreveu o primeiro volume, em 2019, imaginou naturalmente uma ambientação norte-americana, influenciada pelo repertório de filmes e séries universitárias que acompanhou. A escolha da série de levar a história para a região de Nice e aos redores, onde a própria C.S. Quill estudou, cria uma combinação interessante; a produção preserva referências visuais e narrativas muito associadas ao universo universitário americano, mas apresenta tudo isso sob uma identidade francesa.

E, sinceramente, acho que a mudança funciona. Não faria muito sentido uma produção francesa simplesmente tentar reproduzir os Estados Unidos quando poderia incorporar elementos da própria região. A Côte d’Azur oferece uma paisagem muito particular, com luminosidade, arquitetura e atmosfera mediterrânea que ajudam a diferenciar a série de outras histórias do gênero. Belrose não precisa parecer uma universidade americana para que o público reconheça os códigos da narrativa.

Essa decisão também ajuda a entender uma fala bastante importante da autora na entrevista. C.S. Quill reconheceu que precisou abrir mão de diálogos que gostaria de manter exatamente como estavam nos livros porque, quando levados para a interpretação dos atores, não funcionavam da mesma maneira. Ela resumiu essa experiência dizendo que o livro é a história que queria escrever, enquanto a adaptação é a história que queria contar.

Lane e Loïs: por que a amizade é tão importante quanto o romance

O relacionamento dos protagonistas é o principal eixo emocional da temporada, mas o roteiro acerta ao não transformar a atração física na única justificativa para a aproximação. Antes de serem um casal, Lane e Loïs precisam aprender a conviver. E essa escolha faz diferença.

Loïs chega à universidade emocionalmente ligada a Max, enquanto Lane parece ter construído uma rotina na qual ninguém permanece por tempo suficiente para conhecer suas fragilidades. A chegada dela ao apartamento rompe essa organização. O espaço que antes era associado à privacidade e às lembranças de Lane passa a ser dividido com alguém que não conhece suas regras e tampouco parece disposta a aceitar tudo sem questionar.

É nessa convivência que a relação começa a ganhar consistência. Eles conversam, se provocam, compartilham momentos cotidianos e, aos poucos, passam a reconhecer aspectos um do outro que não aparecem nas primeiras impressões. O sofá, a rotina e até os pequenos conflitos domésticos deixam de ser apenas situações típicas de uma comédia romântica. Funcionam como oportunidades para que os personagens construam confiança.

Prime Vídeo

Por isso, não concordo muito com algumas críticas que vi, na qual falam que a série demora demais para desenvolver o casal. É claro que o público acompanha um romance e espera que os protagonistas reconheçam o que sentem, mas não acho que a quantidade de beijos ou cenas de aproximação física seja uma medida suficiente para avaliar a evolução de uma relação. Intimidade também está na disposição de ouvir, na liberdade de discordar, na confiança para dividir uma lembrança dolorosa e na possibilidade de estar perto de alguém sem precisar sustentar uma versão idealizada de si mesmo.

Em apenas 6 episódios, a produção ainda precisa apresentar o passado dos protagonistas, os amigos, os conflitos familiares e as relações paralelas. A aproximação gradual, nesse sentido, não é necessariamente um problema de ritmo. É parte da construção que permite ao espectador entender por que essas duas pessoas começam a fazer diferença uma na vida da outra.

A química entre Carmen Kassovitz e Baptiste Masseline ajuda bastante. Os atores conseguem transitar entre humor, tensão e vulnerabilidade sem transformar cada interação em uma cena calculada para provocar torcida pelo casal. Existe naturalidade nos momentos mais simples, e isso dá sustentação às situações emocionalmente mais intensas.

Loïs precisa descobrir quem é fora do relacionamento com Max

Um aspecto que considero importante na trajetória de Loïs é que sua história não começa com Lane. Antes de qualquer possibilidade romântica, ela precisa lidar com o fim de uma relação que ocupou boa parte de sua vida. Max não era apenas um namorado; era alguém com quem ela imaginava dividir a experiência universitária e, provavelmente, um futuro inteiro.

Por isso, sua dificuldade inicial em aceitar o término é compreensível. Em alguns momentos, confesso que a insistência em recuperar o relacionamento pode se tornar um pouco cansativa, principalmente quando parece impedir que ela enxergue as possibilidades que estão surgindo ao seu redor. Mas existe uma diferença entre reconhecer que a personagem pode ser frustrante em determinadas atitudes e reduzir sua trajetória a uma garota que não consegue superar o ex.

Loïs precisa entender que duas pessoas podem ter vivido uma história importante e, ainda assim, desejar futuros diferentes. Max pode ter sentimentos por ela, mas isso não significa que queira continuar construindo a mesma vida. A questão não é necessariamente quem está certo ou errado por querer experimentar outras coisas. É perceber que o relacionamento já não corresponde às expectativas dos dois.

O roteiro também evita, felizmente, transformar Lane em uma espécie de prêmio de consolação. Depois de anos com alguém, não existe obrigação de engatar imediatamente outro relacionamento. Loïs precisa recuperar a própria autonomia, descobrir o que deseja e deixar de organizar suas escolhas em função da disponibilidade emocional de um homem.

É por isso que gosto quando a série permite que ela questione Lane. Ele pode ser popular, bonito e desejado por boa parte do campus, mas Loïs não parece particularmente impressionada com essa reputação. Ela discorda, aponta seus comportamentos inconvenientes e não se coloca em uma posição de admiração permanente. Isso é importante porque impede que a protagonista exista apenas para validar o personagem masculino.

O passado de Lane: quando escrever se torna uma maneira de falar sobre o luto

Se Loïs precisa aprender a não se definir por um relacionamento, Lane precisa enfrentar uma questão mais profunda: a morte do irmão, Mike, e a culpa que carrega em relação ao que aconteceu.

Durante boa parte da temporada, o personagem parece confortável em manter distância emocional das pessoas. Sua postura pode ser interpretada inicialmente como arrogância ou desinteresse, mas o roteiro vai revelando que essa aparente segurança funciona também como uma proteção. Lane não é simplesmente alguém que não quer se envolver. É alguém que aprendeu a evitar situações nas quais precisaria mostrar aquilo que ainda não consegue elaborar.

A morte de Mike não é apenas uma informação triste sobre seu passado. Ela interfere na maneira como Lane se relaciona com a família, ocupa os espaços e permite que alguém se aproxime. O quarto do irmão, por exemplo, carrega um significado que vai além de um cenário; é a presença concreta de uma ausência que ele ainda não conseguiu acomodar na própria vida.

Uma das escolhas narrativas que mais gostei está na utilização da escrita como forma de expressar essa dor. Lane encontra no roteiro que escreve uma maneira de colocar para fora aquilo que não consegue dizer diretamente. E isso é muito mais interessante do que simplesmente resolver toda a história com uma conversa explicativa.

Pensemos na dificuldade do personagem: ele precisa falar sobre uma experiência que o atravessa, mas não encontra palavras para encará-la diante de outra pessoa. A escrita cria uma espécie de distância segura. Ao organizar os acontecimentos no papel, Lane consegue externalizar sentimentos que ainda não sabe como compartilhar em voz alta. É um recurso que permite a Loïs conhecer uma parte dele sem que o personagem precise, de repente, se transformar em alguém completamente aberto e articulado sobre sua dor.

Para o audiovisual, essa escolha também tem uma função importante. O roteiro escrito dentro da própria história não é apenas um objeto de cena ou uma informação sobre o protagonista. Ele se transforma em um dispositivo narrativo; aproxima o espectador do trauma, revela aspectos do personagem e faz a comunicação acontecer de uma maneira coerente com quem Lane é.

Mas existe algo que considero ainda mais importante: conseguir falar sobre o que aconteceu não significa estar curado. Lane dá um passo quando permite que Loïs conheça seu passado, mas isso não apaga a culpa, não resolve automaticamente os conflitos familiares e tampouco ensina o personagem a tomar decisões de maneira diferente. A série entende, em boa parte, que reconhecer uma ferida é apenas o começo de um processo.

Daphné e o conflito entre cuidado, culpa e controle

A relação com Daphné, mãe de Lane, interpretada por Nathalie Besançon, amplia essa discussão. Sua presença não serve apenas para criar um obstáculo ao romance. Ela representa uma parte do passado que o protagonista ainda não conseguiu enfrentar.

O conflito ganha força quando Daphné apresenta a possibilidade de um novo começo para o filho, incluindo a mudança para Los Angeles e a oportunidade de estudar cinema em uma universidade prestigiada. À primeira vista, poderia parecer uma chance profissional interessante. O problema está na maneira como essa decisão é conduzida; Lane não é convidado a pensar sobre o próprio futuro, mas pressionado a aceitar um caminho que já foi escolhido por outra pessoa.

A situação fica ainda mais delicada quando a bolsa de estudos de Loïs entra nessa equação. A mãe utiliza algo importante para a garota como instrumento de pressão sobre o filho. É uma forma de controle que se apresenta sob a aparência de cuidado.

E aqui existe uma questão que vai além de saber se Daphné está certa ou errada em querer o melhor para Lane. É possível desejar proteger alguém e, ainda assim, ultrapassar os limites dessa pessoa. É possível acreditar que uma decisão é a melhor e não perceber que, ao tomá-la pelo outro, você está retirando justamente a autonomia que deveria respeitar.

Lane é adulto, tem seus próprios desejos e construiu uma vida em Belrose, mas ainda parece reagir à mãe a partir de uma dinâmica familiar que não conseguiu superar. A morte de Mike deixou marcas que não atingem apenas o protagonista, mas toda a estrutura da família. Cada um parece lidar com a perda de uma maneira diferente, e nem sempre existe espaço para uma conversa verdadeira.

O final: Lane ama Loïs, mas ainda não sabe construir uma relação com ela

O encerramento da primeira temporada é, provavelmente, a escolha que mais vai dividir o público. Depois de acompanhar a aproximação dos protagonistas, a série finalmente permite que Lane e Loïs reconheçam o que sentem. Mas, quando parece que os dois poderiam começar a viver esse relacionamento, Lane vai embora sem explicar a situação diretamente a ela.

Entendo a frustração de quem esperava uma conclusão romântica mais convencional. A produção investe boa parte da temporada na construção do casal e, quando os personagens finalmente chegam a um ponto de aproximação emocional, interrompe essa possibilidade. Mas, particularmente, considero o desfecho mais interessante do que uma resolução em que os dois simplesmente terminassem juntos e todos os conflitos fossem deixados para trás.

O motivo é simples: a temporada já respondeu se Lane gosta de Loïs. O que ainda não respondeu é se ele está preparado para sustentar esse sentimento de maneira madura.

Existe uma contradição muito reveladora no comportamento do personagem. Durante a história, Lane aconselha Donovan a ir atrás daquilo que deseja, a não deixar que o medo ou as circunstâncias decidam por ele. Quando chega sua vez de enfrentar uma situação difícil, porém, não consegue fazer o mesmo. Em vez de conversar com Loïs, explicar o que está acontecendo com a bolsa de estudos e permitir que ela participe da decisão, escolhe resolver tudo sozinho.

Ele acredita estar protegendo a garota, mas acaba retirando dela o direito de escolher. E esse detalhe muda bastante a interpretação da cena. A atitude pode até nascer de uma intenção aparentemente generosa, mas reproduz justamente o comportamento que Lane precisa aprender a abandonar; a dificuldade de confiar em alguém a ponto de dividir o peso dos próprios problemas.

É aqui que o roteiro mostra uma contradição muito humana. Uma pessoa pode saber exatamente o que aconselhar a um amigo e, ainda assim, não conseguir aplicar aquilo à própria vida. Lane enxerga com clareza o que Donovan deveria fazer, mas, quando suas próprias inseguranças entram em jogo, volta a agir a partir do medo e do impulso de controlar a situação.

Por isso, não vejo o final simplesmente como uma tentativa de provocar o público com um gancho. Ele conversa com o desenvolvimento do protagonista. Lane conseguiu se abrir sobre o irmão, reconheceu seus sentimentos por Loïs e deu passos importantes, mas ainda não aprendeu que amar alguém também exige comunicação, confiança e responsabilidade.

Seria muito conveniente encerrar a temporada com o casal junto, a relação familiar resolvida e o passado finalmente superado. Só que a vida não funciona assim, e os personagens tampouco precisam chegar ao fim de uma temporada completamente transformados. Às vezes, o avanço está justamente em perceber o que ainda falta aprender.

A comparação com os livros também merece atenção. A série se permite tomar outro caminho em relação à obra literária, e essa liberdade faz parte do trabalho de adaptação. Não considero que uma mudança seja automaticamente melhor apenas por ser diferente, mas, neste caso, o desfecho televisivo conversa com os conflitos que a própria temporada desenvolveu. Em vez de oferecer uma recompensa romântica imediata, deixa uma questão em aberto sobre a maturidade necessária para que esse relacionamento realmente funcione.

Donovan, Lewis e os personagens que mereciam mais espaço

Embora Lane e Loïs sejam o centro da primeira temporada, o universo de Campus Drivers tem outros personagens que despertam curiosidade. Donovan (Madior Fall), Lewis (Esteban Vial) e Adam (Félix Nebel) ajudam a construir a dimensão coletiva da história, mas nem todos recebem o mesmo espaço para desenvolver suas próprias questões.

Donovan, em especial, ganha um gancho importante no episódio final, quando seu pai passa mal durante um treino de basquete. A série não entrega todas as respostas sobre o que aconteceu, mas o episódio abre a possibilidade de um conflito que pode mudar a trajetória do personagem. A relação com o pai, as expectativas em torno do esporte e as decisões sobre o futuro podem ganhar outra dimensão diante de uma situação familiar inesperada. Também existe espaço para desenvolver melhor sua relação com Carrie (Eloïse Rey). 

Lewis, por sua vez, deixa uma questão que gostaria de ter visto trabalhada com mais profundidade. Em sua trajetória afetiva, existe uma situação interessante envolvendo a possibilidade de alguém partir para realizar um sonho. É possível ficar feliz por uma pessoa estar conquistando algo importante e, ao mesmo tempo, sentir tristeza por ela estar indo embora. Uma emoção não anula a outra.

Às vezes, não pedir que alguém fique é justamente uma forma de demonstrar amor e respeito. A série poderia explorar melhor essa ambivalência, porque existe uma diferença entre não querer impedir alguém de seguir seu caminho e não conseguir demonstrar que sua ausência fará falta.

Esse é um dos pontos em que os seis episódios parecem limitar a produção. A prioridade dada ao casal principal é compreensível, mas o grupo de amigos também é parte importante da identidade da série. Há relações, ambições e conflitos que aparecem, despertam interesse e nem sempre recebem tempo suficiente para amadurecer.

As amizades de Loïs e a importância dos vínculos fora do romance

Outro detalhe de que gostei foi a relação de Loïs com duas mulheres mais velhas. É um núcleo pequeno, mas que acrescenta uma dimensão interessante à personagem.

Em histórias universitárias, é comum que praticamente toda a vida dos protagonistas esteja concentrada nos colegas de faculdade, nas festas e nos relacionamentos amorosos. Aqui, a conexão de Loïs com pessoas de outra geração amplia seu universo. Ela demonstra sensibilidade para construir vínculos que não dependem de popularidade, conveniência ou interesse romântico.

Essa relação também ajuda a mostrar que Loïs é uma pessoa com capacidade de acolher e se conectar com diferentes realidades. Ela não precisa estar envolvida em um conflito amoroso para que sua presença tenha importância. São momentos que dão mais humanidade à personagem e que poderiam, inclusive, ser explorados melhor em uma continuação.

O aplicativo Campus Drivers e a trilha sonora também ajudam a construir o universo da série

O aplicativo que dá nome à produção merece uma observação. A proposta é oferecer caronas para estudantes, inclusive para mulheres que precisam voltar para casa depois de festas e eventos. A ideia funciona como parte da dinâmica universitária e ajuda a explicar a popularidade do grupo.

Existe também uma dimensão prática interessante: em um contexto no qual voltar sozinha para casa pode ser desconfortável ou inseguro, um serviço de transporte pensado para atender estudantes pode representar uma forma de cuidado. A série não transforma isso em um grande debate, e os próprios rapazes também utilizam o aplicativo como oportunidade de conhecer mulheres e alimentar sua reputação. Mas essa ambiguidade faz parte do universo apresentado e deixa uma questão interessante sobre a diferença entre a função de um serviço e as intenções de quem o administra.

Outro elemento que merece atenção é a trilha sonora. Costumo observar bastante a escolha musical de uma produção porque música não deveria funcionar apenas como preenchimento de silêncio ou decoração de cena. Quando bem utilizada, ela participa da narrativa; pode antecipar uma emoção, intensificar uma aproximação, criar contraste com o que está acontecendo ou simplesmente dar ao espectador uma sensação que o diálogo não precisa explicar.

Em Campus Drivers, a seleção musical ajuda a acompanhar as diferentes atmosferas da história, das festas universitárias aos momentos mais intimistas entre os protagonistas. A playlist oficial reúne nomes como Olivia Dean, Tate McRae, Angèle, Justice, BABYMONSTER, sombr e Benson Boone, entre outros. É uma mistura que combina com o ambiente jovem da série, mas o que importa não é apenas reconhecer artistas conhecidos. É perceber quando uma música encontra a cena e contribui para que aquele momento tenha uma identidade própria.

A produção também conta com uma trilha original assinada por David Menke e Pegazi. Essa combinação entre canções licenciadas e composição original ajuda a construir uma identidade sonora para a temporada. É um aspecto que nem sempre recebe a atenção merecida nas avaliações de séries, mas faz diferença na experiência; a música também participa do ritmo, da atmosfera e da maneira como o público se conecta emocionalmente com os personagens.

Um elenco que sustenta a proposta

Carmen Kassovitz e Baptiste Masseline são fundamentais para que a relação central convença. Kassovitz constrói uma Loïs que começa bastante abalada pelo término, mas que gradualmente recupera a própria voz. A personagem tem inseguranças e momentos de insistência que podem irritar, mas a atriz consegue mostrar que existe alguém além da garota que foi deixada pelo namorado.

Masseline, por sua vez, trabalha as fissuras da imagem de Lane. O personagem poderia facilmente cair no estereótipo do rapaz popular, bonito e emocionalmente inacessível. Mas o ator encontra nuances na postura de alguém que parece controlar tudo ao redor justamente porque não consegue controlar o que sente.

Madior Fall, como Donovan, e Esteban Vial, como Lewis, ajudam a dar personalidade ao grupo, enquanto Félix Nebel, como Adam, Enzo Lorente, como Max, Paolo Luka-Noé, como Aaron, LounaBalavoine como Becca e Eloïse Rey, como Carrie, completam o núcleo de relações que movimenta o campus. Nathalie Besançon também merece destaque como Daphné, especialmente pela influência que exerce sobre as decisões de Lane.

Em entrevista à Fnac, Masseline comentou que Lane parece inicialmente um personagem cheio de sinais de alerta, mas que sua trajetória revela outras camadas. O ator também defendeu a ideia de que uma relação intensa não precisa ser necessariamente tóxica. Acho que essa leitura combina com uma das propostas mais interessantes da série; construir uma paixão com conflitos e vulnerabilidades sem depender o tempo inteiro de manipulação, desrespeito ou sofrimento para gerar tensão.

Carter faz falta, mas Lewis ocupa um espaço importante na vida de Lane

Uma ausência que também chamou a atenção de muitos leitores foi a de Carter, melhor amigo de Lane no primeiro livro. Na história literária, ele é alguém de fora do quarteto principal dos Campus Drivers, mas que mantém uma amizade antiga e próxima com o protagonista. Por isso, sua falta é compreensível. Carter representa uma relação importante na vida de Lane, que não está necessariamente ligada ao romance ou ao grupo de motoristas.

Ainda assim, achei interessante observar como Lewis acaba ocupando, na série, parte desse espaço afetivo. É ele quem aparece com frequência ao lado de Lane, vai à sua casa, oferece apoio e, em diferentes momentos, tenta tirá-lo da própria zona de conforto. Existe uma proximidade entre os dois que ajuda a mostrar um lado de Lane que nem sempre aparece nas cenas com Loïs. Lewis parece compreender melhor seus silêncios e suas dificuldades, mas também não deixa de provocá-lo quando percebe que o amigo está se fechando demais.

Isso não significa que a presença de Lewis justifique automaticamente a retirada de Carter. São personagens diferentes, e quem criou carinho pelo amigo de Lane nos livros tem todo o direito de sentir falta dele. Mas acredito que a adaptação tenha optado por concentrar essas relações no grupo que já apresenta ao público, dando mais espaço aos personagens que terão suas próprias histórias caso a série avance. Nesse sentido, Lewis acaba assumindo uma função de companheirismo que ajuda a preservar uma dimensão importante da personalidade de Lane.

Também achei interessante a forma como a série apresenta Lewis como um personagem bissexual. É uma característica que amplia sua representação e acrescenta outra camada à composição do grupo, sem precisar transformar sua orientação sexual no único aspecto que o define.

O que esperar de uma possível segunda temporada?

Se a série seguir a estrutura dos livros de C.S. Quill, Donovan deve assumir o protagonismo de uma possível segunda temporada. E não é uma hipótese que surge do nada, tá? Além de o personagem ganhar um acontecimento importante no episódio final, ele é o centro do segundo volume da saga, Book Boyfriend (publicado em inglês como Crash Course), ao lado de Carrie. A história dos dois permitiria que a produção mudasse o foco do romance de Lane e Loïs para outro casal, sem precisar abandonar os personagens que já conhecemos.

Essa dinâmica lembra bastante o que acontece em Off Campus, outra adaptação de sucesso do universo das romances universitárias. Cada livro acompanha um casal diferente, mas isso não significa que os personagens anteriores desapareçam. Pelo contrário; amizades, convivência e acontecimentos compartilhados mantêm a sensação de que todos fazem parte do mesmo universo. É justamente esse equilíbrio que pode funcionar muito bem em Campus Drivers, dar espaço para novas histórias sem perder a identidade do grupo.

A saga literária tem cinco volumes, e a ordem apresenta uma possibilidade bastante interessante para a televisão: o primeiro acompanha Lane e Loïs (Supermad); o segundo, Donovan e Carrie (Book Boyfriend); o terceiro, Lewis e Amy (Crash Test); o quarto apresenta Rafael e Juliet (Love Machine); e o quinto acompanha Luke e Tory (Good Luke). Os dois últimos volumes ampliam ainda mais o universo da história, com uma nova ambientação em Miami.

É claro que uma eventual adaptação não precisa seguir essa sequência à risca. A televisão permite reorganizar acontecimentos, antecipar personagens e desenvolver conflitos em outro momento, dependendo do que funciona melhor para a narrativa. Mas o encerramento da primeira temporada, especialmente o que acontece com Donovan e seu pai, parece preparar o terreno para que ele seja o próximo personagem a ganhar uma história própria.

Vale lembrar, porém, que uma segunda temporada ainda não foi anunciada oficialmente pelo Prime Video. Por enquanto, estamos falando de uma possibilidade sustentada pela estrutura dos livros e pelos caminhos que a própria série deixou abertos. E, se a produção conseguir preservar a participação dos demais personagens enquanto desenvolve um novo casal, terá a oportunidade de transformar Campus Drivers em um universo que cresce a cada temporada, sem ficar repetindo a mesma história romântica.

Um último olhar sobre o final

Para quem ficou frustrado com a decisão de Lane de ir embora, talvez valha a pena olhar novamente para o desfecho considerando não apenas o que gostaríamos que acontecesse, mas o que os personagens realmente demonstraram ao longo da temporada. Sei que, quando acompanhamos um romance, é natural criar expectativas pelo momento em que o casal finalmente fica junto. E, quando isso não acontece, a primeira reação pode ser de decepção. Mas será que Lane e Loïs estavam, de fato, preparados para começar uma relação naquele momento?

Na minha leitura, Loïs chega ao final mais consciente do que deseja. Ela passou boa parte da temporada tentando recuperar uma relação que já não correspondia às suas expectativas e, aos poucos, conseguiu olhar para a própria vida de outra maneira. Lane, por outro lado, ainda tem questões importantes para resolver. Ele não conseguiu se entender completamente com a família, continua carregando a culpa pela morte de Mike e, apesar de ter encontrado na escrita uma maneira bonita e inteligente de expressar seus sentimentos, ainda demonstra dificuldade para verbalizar tudo isso diretamente. Escrever sobre a própria dor é um passo importante, mas não significa necessariamente conseguir conversar sobre ela, dividir decisões ou confiar em alguém quando as coisas ficam difíceis.

E é justamente aí que vejo sentido na partida dele. Como começar uma relação quando uma das pessoas ainda não consegue compartilhar aquilo que está vivendo? Lane gosta de Loïs, mas, diante de um problema que envolve os dois, decide sozinho o que acredita ser melhor para ela. Isso mostra que ainda existe um caminho entre reconhecer o amor e saber construir uma relação saudável. Quando entramos em um relacionamento carregando questões que não conseguimos enfrentar, existe o risco de transferirmos para a outra pessoa inseguranças, medos e conflitos que precisam ser trabalhados individualmente. É claro que ninguém precisa estar completamente resolvido para amar alguém, mas existe uma diferença entre crescer ao lado de outra pessoa e esperar que ela resolva aquilo que não conseguimos enfrentar.

E acho que esse olhar também vale para a maneira como consumimos adaptações. Falo isso inclusive por mim, que costumo ter o livro como referência quando assisto a uma produção baseada em uma obra literária. É natural comparar, esperar determinadas cenas e imaginar que os personagens terão o mesmo destino que tiveram nas páginas. Mas, quando entramos em uma série já esperando que ela reproduza exatamente aquilo que conhecemos, corremos o risco de não perceber as escolhas que estão sendo feitas para contar aquela história de outra maneira.

Isso não significa que toda mudança deva ser defendida ou que todo final frustrante tenha uma justificativa convincente. Existem adaptações que realmente perdem força ao alterar elementos importantes. Mas acredito que Campus Drivers consegue construir uma versão própria, com decisões que conversam com o desenvolvimento dos personagens do começo ao fim. Para mim, é uma das adaptações que melhor souberam organizar seus conflitos e dar sentido às escolhas narrativas, mesmo sem acertar em absolutamente tudo.

No fim, cada espectador pode interpretar o desfecho de uma maneira, e não existe problema algum em preferir outro caminho para Lane e Loïs. Mas talvez a pergunta mais interessante não seja apenas por que eles não terminaram juntos, e sim se estavam preparados para começar uma relação naquele momento. Porque gostar de alguém pode ser o começo de uma história, mas não substitui o trabalho de amadurecer, confiar, aprender e dividir a própria vida.

Conclusão

O que mais me interessa em Campus Drivers é que a série não trata o amor como uma resposta para todos os problemas. Loïs precisa entender que não pode organizar o próprio futuro em torno de alguém que já não deseja a mesma vida. Lane precisa aprender que proteger uma pessoa não significa decidir por ela. Donovan e os demais personagens também estão diante de escolhas que podem mudar a maneira como enxergam a própria trajetória.

O romance funciona porque existe uma construção anterior ao relacionamento. Os protagonistas desenvolvem confiança, compartilham vulnerabilidades e começam a reconhecer sentimentos, mas continuam sendo duas pessoas com questões individuais. E isso torna o desfecho mais coerente do que uma conclusão em que tudo se resolveria com uma declaração de amor.

A temporada tem limitações. Alguns personagens secundários mereciam mais espaço, certas relações poderiam ser aprofundadas e o universo do campus ainda tem potencial para ir além do que foi apresentado. Mas a produção encontra uma identidade própria ao combinar os códigos da New Romance com uma ambientação francesa, um elenco que sustenta a relação central e conflitos que não se limitam à vida amorosa.

Para quem chega sem conhecer os livros, a série funciona como uma história que apresenta seus personagens, constrói um romance gradual e termina com uma decisão que provoca discussão. Para quem já acompanha a saga de C.S. Quill, as mudanças podem causar estranhamento, mas também oferecem uma nova interpretação desse universo.

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