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Em sua 2ª temporada, Maxton Hall transforma o drama adolescente em reflexão sobre saúde mental

A segunda temporada de Maxton Hall mergulha na escuridão emocional de James Beaufort, explorando o luto, a culpa, redenção, a inclusão da terapia e uma adaptação mais intensa e emocional da história de Ruby e James.

A segunda temporada de Maxton Hall: The World Between Us chega mais densa, madura e visualmente carregada. Os três primeiros episódios deixam claro que o tom mudou: o romance leve e encantado da primeira temporada dá lugar a uma atmosfera sombria, marcada por culpa, arrependimento e reconstrução. É uma virada estética e emocional que reflete a dor de James Beaufort, agora afundado no luto e na autossabotagem após a morte da mãe.

Logo nas primeiras cenas, a fotografia chama atenção. A série adota um visual mais escuro e saturado, com predomínio de tons amarelados, que remetem à nostalgia e ao desgaste. As constantes cenas filmadas através de janelas não são acidentais, funcionam como metáfora do confinamento emocional de James e Ruby, que parecem sempre observados, presos entre o que sentem e o que o mundo espera deles. É uma escolha estética interessante, porque traduz o tema central da temporada: a dificuldade de se expor. No entanto, o excesso de luz filtrada e a repetição desse recurso em diversas cenas acabam, às vezes, tornando a experiência visual cansativa. A intensidade da luz, em alguns momentos, tira a naturalidade da imagem e parece “exposição demais”.

A traição de James – adaptação vs livro

A grande virada narrativa, e também o ponto mais controverso da temporada, é a traição de James com Elaine. Nos livros de Mona Kasten, o episódio já existe, mas a adaptação para a série o torna muito mais denso e doloroso. James surge vulnerável e completamente perdido após o trauma, e Elaine se aproveita dessa fragilidade durante essa festa. O que era um deslize íntimo no papel torna-se, na tela, um ato público, visualmente explícito e profundamente humilhante para Ruby – que presencia tudo.

Sob o olhar narrativo, essa escolha faz sentido dentro da linguagem audiovisual, que pede clímax rápido e impacto emocional imediato. Ainda assim, essa traição muda a forma como o público enxerga James. Na série, ele parece menos arrependido no primeiro momento e mais entregue à autodestruição – uma diferença que divide opiniões. Para uns, é o ponto em que o personagem perde a empatia; para outros, é um retrato honesto de alguém em colapso emocional, tentando lidar, sem sucesso, com o próprio luto.

Menos foco narrativo em Lydia

Percebe-se que o roteiro reduziu significativamente o olhar narrativo de Lydia. Nos livros, acompanhamos sua dor e o esgotamento emocional diante da morte da mãe e do colapso do irmão. É uma passagem profundamente introspectiva, em que Lydia tenta sustentar tudo ao redor – o luto, o pai ausente, a empresa e uma gravidez que ainda mantém em segredo. Essa perspectiva revela a vulnerabilidade escondida por trás da sua postura mais controlada, algo que a série acaba abordando de forma mais superficial.

“Mal consigo me levantar de tanta dor. É como se alguém me amarrasse e eu não conseguisse desatar os nós das cordas por dias. Como se meus pensamentos estivessem se movendo em um carrossel que não quer parar e do qual eu simplesmente não posso pular. Nada mais parece fazer sentido, e quanto mais luto contra o crescente desamparo dentro de mim, mais profundo ele se torna,” diz Lydia no livro

Na série, não temos esses sentimentos da Lydia tão visível, essa escolha narrativa faz sentido visualmente (a série precisa avançar), mas sacrifica a profundidade emocional da Lydia que o livro entrega tão bem. O foco recai muito mais sobre James e Ruby, deixando o ponto de vista da Lydia mais funcional (a “irmã racional” que tenta gerenciar as consequências).

Divulgação / Prime Video

O luto dela aparece de forma mais superficial, e o roteiro opta por mostrá-la voltada para o controle e a empresa, o que diminui o peso emocional dessa perda pessoal dela também.


Cyril e o “ciúme”/desconfiança da Ruby

Outro ponto que notamos nesses 3 episódios, é que no livro, Cyril já aparece desde o início como uma presença constante e observadora na vida de Lydia. Sua desaprovação silenciosa quando ela tenta ligar para Ruby é mais do que um detalhe: é um gesto que planta as sementes de um conflito futuro. A forma como ele franze a testa, o ceticismo no olhar e o julgamento contido revelam muito sobre sua personalidade – protetora, leal e, em certa medida, possessiva com James. Não é um ciúme romântico, mas um tipo de vigilância social e afetiva, típica de quem vê o grupo como um território a ser defendido. Essa nuance funciona como uma explicação coerente para sua antipatia posterior por Ruby.

Na série, porém, essa camada é quase totalmente suprimida. Cyril mal aparece nessa fase e sua postura crítica em relação à Ruby é apenas sugerida, nunca construída. Essa ausência narrativa faz com que sua resistência à garota, mostrada mais à frente, pareça repentina e sem base emocional. Ao eliminar esses pequenos gestos, o olhar reprovador, a preocupação disfarçada, o cuidado rígido, a adaptação acaba tirando um pouco da complexidade da dinâmica entre os Beauforts e seu círculo.

No trecho do livro em que Lydia tenta, desesperadamente, entrar em contato com Ruby, vemos esse contraste com clareza:

“Ligar para ela de novo?” Cy pergunta, olhando para o meu telefone com ceticismo. Quando eu aceno, ele franze a testa em desaprovação. Não estou surpresa com a reação dele. Cyril acha que Ruby nada mais é do que uma garimpeira em busca da herança de James. Sei que não é verdade, mas depois que Cyril se decide sobre alguém, é difícil convencê-lo do contrário. E por mais que isso me frustre, não posso culpá-lo. Porque isso nada mais é do que o jeito dele de cuidar dos amigos.”

Esse pequeno diálogo, que a série ignora, dá profundidade a Cyril e reforça como Mona Kasten constrói relações através de gestos sutis. É justamente nesse tipo de detalhe que o livro se diferencia, ao mostrar que o cuidado também pode ser confuso, possessivo e imperfeito – mas que explica o porquê Cyril não gosta de Ruby.

Descoberta da morte da Sra. Beaufort (Cordelia)

No livro:

  • A Lin conta à Ruby por telefone, após Ember forçar Ruby a atender.
  • Isso faz com que o leitor acompanhe o choque em tempo real, de dentro da mente da Ruby.
  • O formato (ligação, silêncio, pausa) aumenta o impacto emocional.

Na série:

  • A Lin vai pessoalmente até a casa da Ruby, é uma escolha mais visual e dramática.
  • A cena tem impacto, mas menos introspecção: Ruby não está em isolamento total, e o foco é mais no diálogo externo do que na reação interna.
  • Essa mudança faz sentido para a TV (o diálogo ao vivo é mais dinâmico). Achamos uma mudança legal.

A chegada à casa dos Beaufort


Na adaptação, algumas das cenas mais importantes do pós-festa foram reescritas, e essas mudanças alteram a forma como o público entende o estado emocional de James e o impacto da traição.

Na série, não há a conversa entre Lydia e Ruby antes de ela subir para o quarto. No livro, esse diálogo é breve, mas essencial. Lydia toca o braço de Ruby e tenta explicar que “não houve nada entre James e Elaine além daquele beijo”, dizendo que o irmão “não era ele mesmo”. Ruby, tomada pela dor, corta a conversa: “Eu não posso ouvir isso agora.” É um momento importante porque mostra o esforço de Lydia em aliviar o peso da situação e o quanto Ruby está tentando manter o controle para não desabar. A ausência dessa cena na série torna a transição mais brusca e impede o público de compreender o que acontece emocionalmente entre os personagens logo depois da festa.

A cena seguinte também é apresentada de forma bem diferente. No livro, quando Ruby entra no quarto, James está deitado na cama, coberto até o pescoço, apático, destruído e dominado pela culpa. Ruby se senta na beira da cama, e o silêncio entre os dois é carregado de arrependimento e dor contida. Em seus pensamentos, James reflete:

Como pude fazer isso com Ruby? O que há de errado comigo? O que diabos está errado comigo?

Essa introspecção mostra um arrependimento imediato e sincero, que ajuda o leitor a entender o quanto ele está quebrado. Já na série, a abordagem é muito mais crua e visual: James está jogado no chão, cercado por garrafas e drogas, e o caos do quarto espelha seu colapso interno. Ruby tenta ajudá-lo, dizendo que ele precisa de ajuda, mas ele reage com gritos, mandando-a embora. Essa explosão, inexistente no livro, transforma o arrependimento silencioso em um descontrole agressivo, tornando a cena mais intensa, mas também menos sensível.

Outra mudança significativa está na sequência posterior. No livro, James desce até o salão e encontra seus amigos – Alistair, Wren e Kesh, em uma cena comovente. Lá, ele finalmente verbaliza o que vinha negando:

Minha mãe está morta.

É a primeira vez que ele diz isso em voz alta, e o momento é seguido de um abraço coletivo silencioso, um gesto de apoio e empatia que marca o início de sua aceitação do luto. A série, no entanto, opta por um caminho diferente. James não desce, é o pai quem sobe até ele, o encontra completamente destruído e o abraça. Essa inversão transforma em uma cena de reconciliação familiar e paternal – só naquele momento, né? É uma escolha que altera a essência emocional da jornada de James.

Ainda que isso traga intensidade dramática para a tela, o resultado é uma versão de James mais fragmentada e menos compreendida, especialmente no primeiro episódio da segunda temporada.

A importância da terapia mostrada na série

Logo após todos os episódios, James começa um processo de terapia, o que se torna um dos pontos mais fortes da nova temporada. A inclusão explícita da terapia na narrativa é um acerto importante. Pela primeira vez, vemos uma série jovem que não romantiza a dor, mas mostra o tratamento psicológico como um caminho legítimo de amadurecimento.

Quando James fala publicamente sobre o processo terapêutico, o pai o repreende, uma cena simbólica que revela a tensão entre vulnerabilidade e imagem. Para Mortimer Beaufort, demonstrar fraqueza em público é inaceitável, e esse conflito resume muito da crítica que Maxton Hall faz às dinâmicas familiares e sociais de elite: o culto à perfeição e o medo de se humanizar. A mensagem, no entanto, é clara, buscar ajuda é um ato de coragem, e não de vergonha. Essa temática, inserida em meio ao romance, transforma a série em algo mais relevante e atual, especialmente para o público jovem.

A atuação e a força emocional de Damian e Harriet

A atuação de Damian Hardung é outro ponto alto. Ele entrega um James mais complexo, frágil e contraditório, capaz de despertar empatia mesmo nos piores momentos. Hardung traduz a oscilação emocional do luto com nuances, entre o olhar vazio e os pequenos gestos de arrependimento, tornando a jornada de autodescoberta crível e tocante. Harriet Herbig-Matten, como Ruby, sustenta bem o papel de quem carrega a dor e o amor ao mesmo tempo, equilibrando firmeza e vulnerabilidade. A única coisa que incomoda um pouco em sua atuação, é suas caras e bocas – principalmente a boca aberta na maioria das vezes.

Ruby e o perdão como amadurecimento

É através dela que o tema do perdão ganha força. Muitos espectadores questionam como Ruby consegue perdoar James após a traição, mas a série constrói essa escolha com sensibilidade: ela enxerga o esforço real dele em mudar, reconhece que o amor pode coexistir com mágoa, e entende que o arrependimento genuíno exige tempo. O perdão, aqui, não é ingenuidade, é amadurecimento emocional.

Divulgação / Prime Video

A série mostra esse processo com sutileza, principalmente nas cenas em que eles voltam a se aproximar, como a do carro, onde a trilha sonora reforça essa conexão. Essa combinação entre som e narrativa dá à série um toque poético, mantendo viva a essência romântica da história mesmo em meio à dor.

Empoderamento feminino

Outro acerto da segunda temporada é a forma como a série desenvolve o vínculo entre Lydia, Lin, Ember e Ruby, ampliando também a rede de apoio entre as personagens femininas. A narrativa deixa de mostrar Lydia apenas como a irmã protetora e impulsiva de James, que na primeira temporada reagia com hostilidade sempre que Ruby se aproximava dele, e passa a revelar uma mulher em amadurecimento.

Agora, grávida e vulnerável, Lydia encontra em Ruby uma amiga verdadeira, alguém que a ajuda sem esperar nada em troca e que, mesmo diante do caos, mantém a lealdade e a empatia. Ruby guarda o segredo da gravidez, a apoia e, ao mesmo tempo, é acolhida por ela. Há uma inversão bonita de papéis: Lydia, que antes dizia “se você magoar meu irmão, vai se ver comigo”, hoje reconhece os erros de James e compreende o lado da Ruby.

Divulgação / Prime Video

Essa construção ganha força no núcleo feminino ampliado, como a festa do pijama e a interação com Ember, irmã de Ruby. Esses momentos, mais leves e afetuosos, criam um contraste necessário dentro do drama e reforçam o tema do empoderamento feminino por meio do cuidado e da solidariedade. A série acerta ao mostrar que, diante das decepções e da pressão emocional que todas enfrentam, as mulheres encontram força umas nas outras, não pela rivalidade, mas pela empatia. É um gesto de sororidade que suaviza o tom trágico da trama e torna essas personagens ainda mais humanas.

Conclusão

Em termos gerais, Maxton Hall encontra um equilíbrio interessante entre drama emocional e mensagem social. O visual escuro e o tom mais adulto refletem uma fase de transição, tanto para os personagens quanto para o público. Ainda que algumas mudanças em relação ao livro causem estranhamento e o uso excessivo da luz e das janelas possa soar repetitivo, a série cresce justamente quando mergulha na vulnerabilidade de seus protagonistas.

Os três primeiros episódios funcionam como um estudo sobre culpa e superação. A série fala sobre a dificuldade de se perdoar e de ser perdoado, sobre como o luto pode destruir, mas também reconstruir. Ao fim, a janela, símbolo recorrente dessa temporada, não é apenas um limite entre mundos, mas um convite à transparência. Maxton Hall mostra que, para curar o que está dentro, é preciso primeiro deixar a luz entrar, mesmo quando ela incomoda. Mas me conta aqui, você perdoaria o James? 👀

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