Kleber Mendonça Filho e o peso do que o Brasil esqueceu
Em O Agente Secreto (2025), Kleber Mendonça Filho volta à ficção com um filme que fala mais sobre o que é esquecido do que sobre o que é contado. Vencedor de prêmios em Cannes e ambientado durante a ditadura militar no Brasil, o longa resgata não apenas um período sombrio da história do país, mas também os rostos, sons e espaços que foram varridos para debaixo do tapete pela violência institucional. Apesar de flertar com elementos do thriller, este não é um filme de espionagem: é, acima de tudo, uma história sobre desaparecimento de pessoas, de identidades, de provas, de memórias.
O protagonista é Marcelo, interpretado por um Wagner Moura contido e profundamente emocional. Perseguido pelo regime por motivos nunca completamente revelados, ele vive uma rotina de fuga, sobrevivência e disfarce. O ator entrega uma performance madura, carregada de silêncio e dor, um homem que já viu demais, mas que ainda não desistiu completamente. Ao seu redor, personagens como Dona Sebastiana (Tânia Maria, um achado absoluto), Elza (Maria Fernanda Cândido) e Cláudia (Hermila Guedes) formam uma teia de apoio e resistência silenciosa, cada um carregando traumas e estratégias próprias de sobrevivência.
Um país que escolheu não lembrar
Mais do que retratar os anos de chumbo, o filme aponta para a forma como o Brasil lidou com esse passado: com apagamento. O desaparecimento não é apenas literal, não são só os corpos e documentos que somem, mas também os sentimentos, os sons, os rostos e os lugares. Em falas duras e cenas cuidadosamente construídas, o longa sugere que o país nunca fez as pazes com sua história. Uma das frases mais dolorosas do roteiro resume isso com precisão: “O Brasil não vai pagar pelas mortes da ditadura. Vai passar impune”.
Há uma camada ainda mais profunda quando o filme cruza passado e presente. Ao trazer uma personagem jovem que vasculha fitas antigas para reconstruir fragmentos do que foi perdido, Kleber insere uma dimensão de investigação afetiva, como se dissesse que ainda é possível lembrar, ainda é possível encontrar sinais. O Agente Secreto não está interessado em ação ou reviravoltas: o que move a narrativa é o peso daquilo que se foi, e o silêncio que ficou.
Um cinema que sabe exatamente de onde fala
Visualmente, o filme é um mergulho na Recife dos anos 70, não como reconstrução de época caricata, mas como uma cidade viva, cheia de texturas, sons e detalhes. A fotografia é quente, granulada e nostálgica. A trilha sonora, que mistura frevo, disco music e canções esquecidas, constrói atmosferas que alternam melancolia e tensão. E, como sempre, Kleber usa os espaços com inteligência: escadas, cinemas, vielas e marquises ganham vida própria e contam parte da história sem dizer uma palavra.
Embora seja dividido em capítulos e avance lentamente, o filme nunca perde o ritmo. Sua estrutura é deliberadamente fragmentada, como se fosse montado a partir dos cacos da memória de um país. Em alguns momentos, a narrativa até flerta com o absurdo e o fantástico, como na aparição surreal da Perna Cabeluda, símbolo do medo coletivo e da paranoia social. Esses desvios tonais, longe de quebrar a imersão, reforçam a ideia de que a história do Brasil é cheia de traumas, mas também de mitos, lendas e invenções usadas para explicar o inexplicável.
Um gesto político e poético
O Agente Secreto é o filme mais melancólico e político de Kleber Mendonça Filho, e talvez o mais completo. Ele retoma temas recorrentes da sua obra, como a luta contra o apagamento, o apego à memória e a crítica à conivência das elites com a violência de Estado. Mas aqui esses temas aparecem refinados, costurados em uma linguagem madura, emotiva e nada didática. Não é um filme para explicar a ditadura: é um filme para sentir o que ela deixou.
Nota: 4,5 de 5 estrelas.
O Agente Secreto não é sobre ação, nem sobre vingança. É sobre aquilo que ainda pode ser lembrado. E enquanto houver alguém para contar essas histórias, ou filmá-las, ainda haverá alguma forma de justiça.
