O cantor e compositor britânico Roo Panes retorna ao Brasil para uma série especial de apresentações neste fim de semana, passando por três cidades com shows intimistas que prometem reforçar a conexão já conhecida com o público brasileiro. A turnê começa no dia 27 de março, em Curitiba, segue para São Paulo no dia 28 e encerra em Florianópolis no dia 29. Uma passagem breve, mas significativa para um artista que, ao longo dos anos, construiu uma base fiel de ouvintes no país.
Conhecido por suas composições delicadas, que equilibram melancolia e esperança, Roo chega ao Brasil em um momento de renovação criativa. Seu mais recente trabalho, o EP ‘Of All The Lovely Things That Be‘, nasce de um período de transição pessoal e geográfica, refletindo uma busca por novos espaços – físicos e emocionais – capazes de inspirar sua música. Em entrevista ao No Backstage, o artista fala sobre esse processo, a relação com o público brasileiro e o poder do silêncio em seus shows.
Datas da turnê – Brazil Tour 2026
27 de março: Curitiba – Basement Cultural
28 de março: São Paulo – City Lights
29 de março: Florianópolis – Célula Showcase
Confira o bate papo completo com Roo:
“Of All The Lovely Things That Be” parece profundamente enraizado em um momento de transição pessoal. O que esse período de mudança para Dartmoor revelou para você, criativa e pessoalmente?
Sim, esse EP que fiz recentemente em Dartmoor veio muito desse processo de transição. Eu estava basicamente procurando um lugar que fosse inspirador, um espaço criativo onde eu pudesse me conectar com ideias novas. Quando eu morava em Dorset, de onde eu vim, eu tinha vários lugares aos quais eu ia – sentava, observava, e aquilo naturalmente me deixava criativo.
Quando me mudei, eu não tinha mais esses espaços familiares. E esse EP começou a surgir quando fui até um estuário em Devon, em um lindo dia de outono. Encontrei um banco, sentei ali e pensei: “encontrei meu lugar”. A partir desse momento, no meio de toda essa transição, senti que tinha encontrado um espaço criativo novamente e a música voltou a fluir. Foi ali que tudo começou.
Existe uma intimidade muito forte no EP, quase como um convite para dentro da sua casa — o que, de certa forma, é verdade. Como gravar nesse ambiente influenciou o tom emocional do projeto?
Eu gosto muito de gravar em casa porque é o meu ambiente. Você conhece a atmosfera, se sente confortável. E acho que dá pra ouvir isso nas gravações, sabe? O espaço em que algo é gravado influencia o som.
Com o tipo de música que faço, nunca senti que precisava estar em um estúdio. Pode ser em qualquer lugar onde eu me sinta bem. E como eu escrevo as músicas ali, já estou acostumado com o som da minha voz naquele espaço, com o tamanho do ambiente, com todos esses detalhes. Tudo isso contribui para uma sensação mais natural e relaxada. Muitas vezes eu estava sentado no sofá, com o microfone ali, completamente à vontade. E acho que isso transparece.
Além disso, a ideia principal desse EP era manter tudo simples, sem pensar demais. Escrever poesia, transformar em música, cantar com um amigo, gravar – sem tentar fazer algo grandioso. Eu queria resgatar essa sensação do meu primeiro EP, Once, que era mais cru, mais natural.
“Feel It True” já era uma favorita dos fãs, mas você decidiu revisitá-la. Como você percebe quando uma música ainda tem algo a dizer?
Essa foi uma decisão interessante, porque todo o EP era basicamente voz e violão. E, mesmo gostando disso, senti que essa música ainda tinha muito espaço dentro dela. Ela sempre teve uma sensação de calor e amplitude pra mim, e eu começava a ouvir outros elementos, outros instrumentos na minha cabeça. Parecia uma música íntima, mas que precisava de uma jornada maior. Então senti essa vontade, quase uma inquietação, de explorar mais. Foi a única faixa do EP em que senti que isso faria diferença.
Em “Feel It True (Revisited)”, o arranjo é mais expansivo e cinematográfico. O que te levou a reimaginar a música dessa forma?
Eu pensei: a versão simples sempre vai existir, então agora temos as duas. Isso foi libertador, porque deixou de existir aquela sensação de “ainda falta algo”.
Trabalho bastante com músicos de cordas na Inglaterra, e geralmente meus arranjos crescem bastante ao longo da música. Mas dessa vez quis algo diferente! Queria criar uma sensação mais estática, como aquele efeito de calor tremulando no asfalto.
Algo calmo, quase em suspensão, mas ainda imersivo. O arranjo é mais paciente, sem tentar ser grandioso. Ele cria um espaço maior para que a pessoa simplesmente sinta a música, com pequenas camadas que ajudam a interpretar o sentimento dela.
Sua música costuma ser descrita como melancólica, mas também carrega uma leveza. Você enxerga suas canções mais como espaço de reflexão ou de cura?
Espero que um pouco dos dois. Escrever músicas é um processo muito terapêutico. Desde o começo, fiz um acordo comigo mesmo: nunca escrever uma música completamente sem esperança. A música tem muito poder sobre as emoções das pessoas, então prefiro criar algo que tenha luz, mesmo que seja melancólico.
A vida tem esses dois lados: momentos difíceis, mas também beleza nas coisas simples. Tento refletir isso nas minhas músicas, sem ignorar a melancolia, mas também sem me prender a ela. Quero que as pessoas se sintam compreendidas, como se aquilo fosse real. Nem completamente feliz, nem completamente triste. Apenas verdadeiro.
Você construiu uma conexão muito forte com o público brasileiro ao longo dos anos. O que te chama atenção na forma como sua música é recebida aqui?
Sempre me surpreende, para ser sincero. Eu penso na minha música como algo mais introspectivo, e o Brasil tem essa imagem de energia, sol, intensidade… então fico meio impressionado que as pessoas se conectem com isso aqui. Mas é incrível. E algo que eu realmente gosto é perceber como o público quer entender a música, quer fazer perguntas, se aprofundar. Isso é muito especial.
Seus shows são conhecidos pela intensidade emocional e pelos momentos de silêncio. Em um mundo cada vez mais rápido e barulhento, o que significa criar esse espaço nas suas apresentações?
Essa é uma pergunta muito interessante. Quando comecei a tocar, eu mesmo marcava meus shows em pubs em Londres e eram sempre lugares muito barulhentos. Minha música é bem suave, então eu criei um desafio pessoal: não se incomodar com o barulho, mas tentar fazer o público ficar em silêncio. Se eu conseguisse isso, significava que tinha feito um bom show.
Com o tempo, percebi como o silêncio pode ser poderoso. Às vezes até desconfortável, mas de um jeito bom, como se você interrompesse a realidade por um momento. No começo eu ficava tímido com isso, mas hoje não tenho mais medo desses silêncios. Pelo contrário, eu gosto deles. Especialmente quando estou sozinho no palco. É algo muito vulnerável, mas também muito especial.
Você está voltando ao Brasil para uma série especial de shows. Que tipo de experiência espera criar para o público dessa vez?
Espero que sejam shows naturais, leves, em que as pessoas saiam se sentindo mais tranquilas, talvez até renovadas. Quero tocar músicas que as pessoas já conhecem, apresentar algumas novas e, acima de tudo, simplesmente estar ali, cantar, me conectar. Estou muito animado para reencontrar o público brasileiro no palco!
