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Rock en Seine 2026: grandes shows, chuva e uma experiência diferente de festival em Paris

Existe uma diferença difícil de explicar até que você atravesse os portões de um festival europeu pela primeira vez. Não é necessariamente sobre tamanho, quantidade de atrações ou estrutura. É sobre comportamento, ritmo e a maneira como o público se relaciona com a música.

Foi justamente essa sensação que acompanhou nossa passagem pelo Rock en Seine 2026, em Paris. Estivemos no festival nos dias 26 e 27 de agosto, duas jornadas com propostas bem diferentes: a primeira marcada pelo tempo firme e por uma programação que terminou com Sombr e Tyler, The Creator; a segunda, com Lorde, Djo e Noga Erez entre os destaques, teve chuva e trovoadas, sem que o clima fosse capaz de apagar a experiência.

Realizado no Domaine National de Saint-Cloud, o festival ocupa um dos cenários mais interessantes do circuito europeu. E talvez seja justamente essa combinação entre música, natureza e organização que faça do Rock en Seine uma experiência tão particular para quem está acostumado a cobrir festivais no Brasil.

Um festival que começa antes do primeiro show

O Rock en Seine tem um espaço amplo e cercado por áreas verdes que muda completamente a percepção de quem chega para um festival. Aqui, não existe aquela sensação de estar entrando em uma enorme estrutura criada exclusivamente para um evento. O parque faz parte da experiência.

As árvores, os caminhos e os diferentes espaços espalhados pelo terreno criam uma atmosfera mais leve. E até o deslocamento entre os palcos, que poderia ser apenas uma questão logística, acaba fazendo parte do passeio.

Para quem está acostumado aos grandes festivais brasileiros, essa é uma das primeiras diferenças perceptíveis. Não necessariamente melhor ou pior. Apenas diferente. O Rock en Seine parece menos preocupado em transformar cada metro quadrado em uma atração e mais interessado em fazer com que o público circule, descubra artistas e aproveite o espaço.

A logística funciona, e isso faz diferença

Outro ponto que merece destaque é o acesso. O deslocamento até o festival é relativamente simples, especialmente utilizando o transporte público da região de Paris. O evento acontece em Saint-Cloud, e a própria cidade adotou um esquema especial de circulação durante os cinco dias do festival, com restrições para veículos nas proximidades do Domaine National de Saint-Cloud.

Depois de horas de show, a última coisa que se quer é transformar a saída em uma segunda batalha. No Rock en Seine, a estrutura de circulação e os acessos ajudam a tornar esse processo mais tranquilo. E existe ainda outro detalhe que parece pequeno, mas melhora bastante a experiência: há áreas de alimentação espalhadas pelo festival, permitindo que o público faça uma pausa entre um show e outro sem precisar abandonar completamente o ambiente do evento. Isso é comum em festivais, então ok.

Mas na saída, o cenário ganha outro charme. As árvores iluminadas pelos caminhos criam uma espécie de corredor de luz que deixa o fim da noite quase cinematográfico. É aquele tipo de detalhe que não aparece necessariamente no line-up, mas fica na memória, pelo menos na nossa.

Dia 26: Tyler, The Creator fecha uma abertura poderosa

A primeira noite que acompanhamos teve uma programação bastante diversa.

Na Grande Scène, o público passou por Miki, Ravyn Lenae, Sombr e, finalmente, Tyler, The Creator, que encerrou a noite às 22h. Em outros palcos, a programação trouxe nomes como Sekou, AMG e Magi Merlin.

E essa ordem diz muito sobre a proposta do festival. Não se trata simplesmente de colocar um grande headliner e preencher os horários anteriores. Existe uma preocupação em apresentar artistas diferentes ao público.

Miki, por exemplo, abriu a Grande Scène com apenas 35 minutos de apresentação, mas chamou atenção pela energia e pela disposição de ocupar o palco. Ravyn Lenae trouxe uma atmosfera mais ligada ao R&B e ao pop alternativo, enquanto Sombr preparou o terreno para o grande encerramento.

É uma curadoria que permite que o público descubra artistas antes de chegar ao nome mais aguardado da noite. E a gente ama isso.

Sombr mostra por que festivais também são espaços de descoberta

Sombr foi um dos nomes que mais se beneficiaram desse formato. O artista se apresentou às 20h na Grande Scène, antes de Tyler, e conseguiu transformar um horário de transição em um momento de conexão com o público. A programação oficial colocou seu show como um dos principais da noite, ao lado de Tyler e dos demais nomes da Grande Scène.

E esse é um dos grandes méritos de um festival como o Rock en Seine: você pode chegar por causa de um artista e sair falando de outro. O show do Sombr foi incrível: ele entrega performance, interação com o público e muito conceito, viu? Inclusive, cantou “12 to 12” três vezes, já que a música faz referência a um date em um café em Paris. Se empolgou!

A única coisa que sentimos um pouco foi a curadoria da setlist. Acho que ele tem hits muito mais fortes e que poderiam ter sido melhor explorados ao longo do show.

Tyler, The Creator entrega o grande espetáculo

Quando Tyler, The Creator entrou no palco às 22h, a atmosfera mudou. O artista fechou a primeira noite com um show de 1h15 e uma setlist que percorreu diferentes momentos de sua carreira, passando por faixas como “St. Chroma”, “Rah Tah Tah”, “Noid”, “Darling, I”, “Sticky”, “Who Dat Boy”, “ARE WE STILL FRIENDS?”, “BEST INTEREST” e “NEW MAGIC WAND”.

Mais do que simplesmente reproduzir músicas conhecidas, Tyler constrói uma apresentação que depende muito da personalidade. Existe teatralidade, presença de palco e uma preocupação clara com a dinâmica do espetáculo. Ele não precisa transformar cada minuto em um grande efeito visual porque o próprio artista funciona como centro da apresentação.

Assim como vimos aqui no Brasil, o público responde a altura. Mas claro, aqui aparece uma diferença cultural que fica muito evidente para quem está acostumado aos shows brasileiros.

Brasil x Europa: a energia muda, mas a paixão pela música está lá

Quem cobre shows no Brasil sabe que existe uma característica muito particular no nosso público: nós participamos do espetáculo. Cantamos praticamente tudo. Gritamos o nome do artista. Pulamos. Respondemos aos comandos. Transformamos determinados momentos em uma espécie de conversa coletiva entre palco e plateia.

No Rock en Seine, a relação parece um pouco diferente. O público francês e europeu, de maneira geral, demonstra uma concentração maior no próprio show. As pessoas cantam, e cantam bastante, mas existe menos daquela explosão constante que estamos acostumados a encontrar em festivais brasileiros.

É um público que parece ir ao festival para assistir ao artista, absorver a apresentação e curtir entre amigos. No Brasil, muitas vezes, o público também quer ser ouvido pelo artista. E essa diferença é fascinante.

Não significa que um público goste mais de música do que o outro. São formas culturais diferentes de viver o mesmo espetáculo. Para quem trabalha com cobertura de shows, perceber isso de perto é quase uma aula sobre comportamento de audiência.

Dia 27: quando a chuva entra para a programação

No nosso segundo dia de cobertura, a experiência mudou completamente. O céu carregou, a chuva chegou e, em alguns momentos, as trovoadas fizeram os festivaleiros correrem em busca de abrigo sob árvores, estruturas de alimentação e tendas espalhadas pelo espaço.

Não foi apenas uma garoa típica de verão europeu. Houve momentos de chuva torrencial e trovoadas. Mas o ponto mais interessante é que os shows seguiram.

Noga Erez foi uma das artistas que encarou a chuva diretamente no palco e transformou a situação em parte da apresentação. Apesar dos temporais, os concertos não foram interrompidos. E o público também não arredou o pé.

Ponchos e guarda-chuvas passaram a fazer parte da paisagem, mas quem realmente queria assistir aos shows continuou ali. É aquela velha regra dos festivais: quando a música está boa, o clima vira apenas um detalhe.

Djo: carisma e conexão

Antes de Lorde, Djo foi um dos destaques da Grande Scène.

O artista, conhecido também pelo trabalho como ator, apresentou um repertório que percorreu seu material mais recente e músicas de trabalhos anteriores. A setlist passou por “Awake”, “Change”, “Basic Being Basic”, “Link”, “Potion”, “Fool”, “Figure You Out”, “Delete Ya”, “Chateau (Feel Alright)” e terminou com “End of Beginning”.

“End of Beginning”, naturalmente, ganhou um peso especial. A música já carrega uma relação muito forte com o público e funciona particularmente bem em um festival, quando milhares de pessoas reconhecem os primeiros acordes e começam a cantar juntas.

Lorde entrega um dos grandes momentos dos dois dias

Se Tyler foi o grande espetáculo do dia 26, Lorde assumiu esse papel no dia 27. A cantora neozelandesa encerrou a Grande Scène às 21h45 e apresentou um repertório que passeou por diferentes fases da carreira. A setlist incluiu “Royals”, “What Was That”, “Perfect Places”, “Buzzcut Season”, “The Louvre”, “Liability”, “Supercut”, “Team”, “Green Light” e “Ribs”, além de “Girl, so confusing”, em uma versão de Charli xcx.

E o interessante é perceber como Lorde constrói uma apresentação que não depende exclusivamente de hits.

Existe uma narrativa. As músicas são organizadas de maneira a criar diferentes intensidades, alternando momentos mais contemplativos com explosões de energia. “Liability” funciona quase como uma pausa emocional no meio da apresentação, enquanto “Green Light” e “Team” devolvem o público para uma atmosfera mais expansiva.

É uma performance que entende que festival também pode ter momentos de silêncio, emoção e introspecção.

O público não deixa a chuva vencer

Talvez a melhor imagem do segundo dia seja justamente essa: milhares de pessoas tentando se proteger da chuva e, minutos depois, voltando para a frente do palco.

A chuva, nesse sentido, funciona quase como um teste involuntário. Quem continua ali não está preocupado com o cabelo, com a roupa ou com o tênis molhado. Está ali pelo show.

Depois de dois dias, fica claro que o Rock en Seine não depende apenas de seus headliners. Tyler, The Creator e Lorde são nomes enormes, claro. Mas a experiência é construída também por artistas que aparecem em horários menores, em palcos secundários ou que talvez ainda não tenham o mesmo reconhecimento internacional.

Viajar para cobrir festivais também significa entender que não existe apenas uma maneira correta de celebrar música.

O veredito

Depois de dois dias no Rock en Seine, a impressão é de um festival que sabe equilibrar grandes nomes, descoberta musical, boa estrutura e um ambiente que faz diferença na experiência.

O Domaine National de Saint-Cloud é um personagem importante dessa história. As árvores, os caminhos, as áreas de alimentação e até a iluminação na saída ajudam a criar uma identidade que vai além dos palcos. Além de ver crianças no festival, o que torna tudo mais emocionante para os papais que podem vivenciar essa experiência com seus filhos(as).

A programação também merece destaque. Tyler, The Creator e Lorde entregaram os grandes momentos dos dias que acompanhamos, mas Sombr, Miki, Ravyn Lenae, Djo, Noga Erez e os demais artistas mostraram que o festival não vive apenas de seus headliners.

A chuva do segundo dia poderia ter transformado a experiência em um problema. Não transformou. O público colocou capas, procurou abrigo quando necessário e voltou para os shows. E talvez seja justamente essa a grande diferença entre simplesmente assistir a um festival e viver um festival.

Para quem está acostumado com a intensidade dos shows brasileiros, o Rock en Seine pode parecer mais contido em alguns momentos. Mas basta prestar atenção para perceber que a paixão está ali, apenas expressa de outra maneira.

No fim, o Rock en Seine é uma experiência que vale ser vivida justamente por ser diferente. Você vai ouvir grandes artistas, descobrir novos nomes, caminhar por um dos cenários mais bonitos entre os grandes festivais europeus e, dependendo do humor do céu parisiense, talvez ainda precise aprender a assistir a um show debaixo de chuva.

E tudo bem. Porque, quando a música começa, o resto vira cenário.

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