A Garota do Remo aposta em romance, rivalidade e amadurecimento para contar uma história teen que vai além do triângulo amoroso. Confira a crítica.
Há uma certa facilidade em olhar para A Garota do Remo e classificá-la rapidamente como mais uma série adolescente sobre escola particular, esportes, romances complicados e um inevitável triângulo amoroso. E, sim, a produção da Netflix não tenta esconder suas referências nem reinventar a fórmula. O diferencial está justamente em entender como utilizar esses elementos conhecidos para construir uma história que, embora tenha alguns caminhos previsíveis, consegue encontrar personalidade no desenvolvimento dos personagens.
Criada por Vivian Lin, a série é uma produção original e não é baseada em um livro. A história acompanha Teagan Tao (Miku Martineau), uma jovem remadora que vê sua vida virar de cabeça para baixo depois do escândalo financeiro envolvendo o pai. Ao se mudar com a mãe para uma pequena cidade em Massachusetts, ela entra para uma escola de elite e descobre que não existe uma equipe feminina de remo. A solução é inesperada: tornar-se a timoneira da equipe masculina.
A partir daí, o remo deixa de ser apenas o cenário esportivo da produção e passa a funcionar como uma das principais ferramentas narrativas da história. Afinal, em um barco, ninguém vence sozinho. Cada movimento interfere no outro. E é exatamente essa lógica que os personagens precisam aprender a aplicar também fora da água. Teagan precisa aprender que o mundo não gira apenas em torno dela. Ela é uma protagonista fácil de acompanhar, mas não necessariamente fácil de defender o tempo inteiro – e isso é uma qualidade da personagem.
No começo da série, existe nela um certo egoísmo que pode incomodar. Depois de perder a vida que conhecia, a escola, a carreira e a estabilidade financeira da família, Teagan passa boa parte da história concentrada naquilo que ela perdeu. O problema é que sua mãe, Ella (Jessica Paré), também está passando por uma transformação enorme e fazendo sacrifícios para tentar reconstruir a vida das duas.
Teagan demora para enxergar isso. E existe uma razão interessante para esse comportamento; ela passou boa parte da vida sendo uma atleta individual. Seu treinamento, suas metas e suas conquistas dependiam diretamente dela. É natural, então, que tenha aprendido a pensar a própria trajetória a partir do “eu”. O problema é que o remo exige exatamente o contrário. A evolução da personagem acontece quando ela começa a perceber que suas decisões não afetam apenas sua própria vida. Existe uma equipe, existe sua mãe, existem amigos e existem pessoas que também estão tentando encontrar seu lugar.
É quase como se o arco de Teagan pudesse ser resumido na passagem do “eu” para o “nós”. E a série não precisa transformar sua protagonista em uma pessoa completamente diferente para demonstrar amadurecimento. Basta fazê-la perceber que dor não é exclusividade de quem está no centro da história.
E, também, a série acerta ao não deixar tudo depender da protagonista. Uma das críticas possíveis à produção é que, em determinados momentos, Teagan deixa de ocupar o centro absoluto da narrativa para que outros personagens tenham espaço. Mas, neste caso, ao meu ver, isso funciona muito mais como uma virtude do que como um problema.
Produções adolescentes frequentemente apresentam personagens secundários interessantes e, depois, os deixam completamente subaproveitados. A Garota do Remo faz o contrário. Josh, Cam, Ryder e os demais integrantes da equipe possuem conflitos próprios, e permitir que eles tenham tempo de tela ajuda a transformar o grupo em uma verdadeira equipe – algo especialmente importante quando estamos falando de um esporte baseado na sincronia entre várias pessoas.
A série entende que construir um elenco coletivo também significa construir um coletivo narrativo. Teagan continua sendo a protagonista, mas a história não precisa fingir que os outros personagens existem apenas para ajudá-la a chegar ao próximo capítulo de sua vida. Eles também têm sonhos, inseguranças, problemas familiares, ambições e contradições. E isso deixa o desenvolvimento do grupo muito mais interessante.
Josh talvez tenha o melhor arco da temporada
Se existe um personagem cuja evolução chama particularmente atenção, é Josh (Sam Braun). Ele começa como aquele garoto privilegiado que parece acreditar que tudo está ao seu alcance. Mimado, arrogante e bastante preocupado consigo mesmo, Josh inicialmente representa justamente aquilo que a série poderia transformar em um estereótipo fácil do jovem rico. Só que o roteiro não para aí.
Ao longo da temporada, Josh começa a compreender os privilégios que possui e, principalmente, percebe que reconhecer esses privilégios não significa abrir mão dos próprios sonhos. Essa é uma diferença importante. Ter dinheiro, nascer em uma família influente ou estudar em uma escola de elite não torna alguém automaticamente melhor do que os outros. Mas também não significa que essa pessoa não possa ter talento, paixão ou um sonho legítimo. O mérito está em entender a posição de onde se parte – e o que se faz com ela.
Josh começa a temporada muito mais preocupado em provar seu valor do que em construir alguma coisa ao lado das pessoas. Aos poucos, passa a olhar para os outros, reconhecer seus erros e colocar o coletivo acima da própria necessidade de vencer. E isso se conecta diretamente à sua relação com Ryder.
Josh e Ryder: quando a rivalidade vira uma distração
A relação entre Josh e Ryder é uma das melhores formas encontradas pela série para discutir competição. Os dois querem vencer. Os dois querem reconhecimento. Os dois possuem motivos pessoais para desejar aquela posição. E nenhum deles é simplesmente um vilão dentro dessa disputa.
O problema é que a rivalidade passa a consumir tanta energia que os dois acabam esquecendo aquilo que realmente querem. É uma crítica bastante pertinente ao ambiente competitivo; em determinadas situações, a pessoa deixa de lutar pelo próprio sonho e passa a lutar apenas para impedir que o outro consiga realizar o dele. Josh e Ryder acabam presos nesse ciclo. E a série é inteligente ao mostrar que o maior obstáculo entre eles nem sempre está do outro lado do barco. Muitas vezes, está justamente na necessidade de provar quem é melhor.
Cam: a desigualdade existe, mas a inferioridade está dentro dele
Cam (Kyle Clark) talvez seja o personagem mais complexo quando o assunto é classe social, e também aquele que pode gerar mais irritação no espectador. Sua dificuldade financeira é real. Ele não possui as mesmas condições que alguns dos colegas e sabe que não cresceu cercado pelas mesmas oportunidades. A série não tenta fingir que dinheiro não faz diferença.
Mas existe uma distinção importante; as pessoas ao redor dele não parecem enxergá-lo como inferior da maneira como ele próprio se enxerga. Seus amigos ajudam, apoiam e incluem Cam, muitas vezes até sem perceber. Não existe necessariamente uma barreira social concreta impedindo sua participação nas coisas. A principal barreira está dentro dele. E é aí que o personagem fica interessante.
Cam transforma a diferença econômica em uma espécie de medida de seu próprio valor. Em diversos momentos, age como se ter mais dinheiro significasse automaticamente ser menos digno, menos capaz ou menos merecedor. A série, portanto, apresenta uma discussão que vai além do clássico “ricos contra pobres”. Porque, sim, o privilégio financeiro importa. O ponto não é negar a desigualdade. O ponto é entender que o dinheiro de outra pessoa não diminui o seu próprio valor.
E essa é justamente uma das lições que Josh começa a aprender. Ele pode reconhecer que nasceu em uma posição privilegiada sem acreditar que precisa abandonar seus sonhos para que outra pessoa tenha direito aos próprios sonhos. Da mesma forma, Cam precisa entender que não precisa diminuir os outros, nem a si mesmo, para justificar sua presença naquele espaço.
No fim, talvez seja menos uma questão sobre o que as pessoas ao redor precisam mudar e mais sobre aquilo que Cam precisa resolver dentro de si.
O triângulo amoroso funciona porque não existe escolha óbvia
Se existe um elemento que poderia facilmente transformar A Garota do Remo em mais uma produção adolescente genérica, é o triângulo entre Teagan, Josh e Cam. Mas, curiosamente, ele funciona. Não porque seja uma ideia nova, mas porque a série consegue fazer o espectador oscilar.
Em determinado momento, Josh parece ser a escolha certa. Depois, alguma atitude dele muda essa percepção. Cam ganha espaço. Então Cam começa a incomodar. Josh volta a conquistar o público. E, quando percebemos, já estamos novamente divididos. Essa instabilidade é justamente o que torna o triângulo eficiente.
Não existe uma escolha tão óbvia a ponto de eliminar a discussão – pelo menos não para mim. Os dois personagens possuem qualidades e defeitos, e a relação com Teagan também muda conforme ela amadurece. A série poderia ter usado o romance apenas como motor para criar ciúmes e conflitos adolescentes. Em vez disso, utiliza os relacionamentos para revelar quem esses personagens são quando precisam lidar com insegurança, competição, privilégio e medo de perder. É uma fórmula conhecida, mas bem executada.
O remo é muito mais do que uma desculpa para a história acontecer.
Talvez a maior surpresa de A Garota do Remo esteja justamente no esporte escolhido. O remo não é um dos esportes mais presentes no imaginário popular brasileiro, e a série aproveita isso para apresentar ao público um universo que pode ser pouco familiar para muita gente.
Treinos, competições, posições dentro do barco, rivalidades e a preparação física ajudam a tornar o esporte compreensível sem transformar cada episódio em uma aula. Mais importante: o remo conversa diretamente com os conflitos dos personagens. No começo, muitos deles estão preocupados em mostrar o próprio valor. Querem ser os melhores, conquistar determinada posição e provar que merecem estar ali.

Mas um barco não funciona assim. Um atleta pode ser excelente individualmente e, ainda assim, prejudicar todo o grupo se não estiver sincronizado com os outros. Essa metáfora é simples, mas funciona muito bem. A Garota do Remo entende que amadurecer também é aprender a remar no mesmo ritmo que outras pessoas. É por isso que os conflitos individuais não parecem totalmente separados da trama esportiva. Eles fazem parte dela.
Cenários que dão à série sua identidade visual
Outro ponto que merece atenção é a direção visual. Apesar de a história se passar em Massachusetts, a produção foi filmada na Colúmbia Britânica, no Canadá. E os lagos, florestas, águas abertas e ambientes da escola ajudam a construir aquela estética de drama adolescente norte-americano que mistura vida escolar, natureza e uma certa atmosfera aspiracional.
Os barcos cortando a água são particularmente importantes nesse sentido. A fotografia aproveita o contraste entre a tranquilidade dos cenários e a confusão emocional dos personagens. Enquanto o ambiente parece quase sempre convidar à calma, os adolescentes estão lidando com romances, famílias problemáticas, competição, dinheiro, expectativas e inseguranças. É uma série visualmente confortável de assistir, e isso combina com sua proposta.
O roteiro não é revolucionário, mas sabe onde quer chegar
O principal problema de A Garota do Remo é também aquilo que alguns críticos apontaram: a história não escapa completamente das fórmulas do gênero. Há conflitos previsíveis, algumas situações que parecem convenientes demais para movimentar a trama e determinados momentos em que o roteiro poderia confiar mais na construção dos personagens em vez de recorrer ao drama adolescente tradicional.
A própria crítica internacional tem apontado esse caráter formulaico. Ao mesmo tempo, existe um consenso de que a produção compensa parte disso com personagens carismáticos, boas atuações, cenários atraentes e uma relação convincente com o esporte. E essa parece ser a melhor maneira de definir a série.
Ela não quer revolucionar o gênero teen. Quer contar uma boa história dentro dele. E consegue. Miku Martineau sustenta a protagonista e encontra o equilíbrio necessário para interpretar uma personagem que nem sempre é fácil de gostar. Teagan pode ser egoísta, impulsiva, mas Martineau consegue transmitir que existe uma adolescente tentando entender uma vida que mudou completamente diante dela.
Sam Braun também se destaca especialmente pelo arco de Josh, que exige uma transformação maior ao longo dos episódios. Kyle Clark, por sua vez, consegue transmitir as inseguranças de Cam, ainda que o roteiro, em alguns momentos, repita demais sua questão financeira. O conjunto funciona justamente porque a série não depende apenas do casal principal.
Afinal, A Garota do Remo vale a pena?
Sim. Sua maior qualidade está em permitir que os personagens cresçam individualmente sem esquecer que fazem parte de um grupo. Teagan aprende a olhar além de si mesma. Josh entende melhor os privilégios que possui e deixa de transformar tudo em uma disputa pessoal. Cam precisa perceber que sua condição financeira não determina seu valor. E Josh e Ryder precisam descobrir que uma rivalidade pode consumir justamente aquilo que ambos estão tentando conquistar.
No fim, a série fala menos sobre quem é o melhor e mais sobre o que acontece quando pessoas diferentes precisam aprender a trabalhar juntas. É uma produção teen confortável, divertida e emocionalmente envolvente, que sabe usar seus clichês a seu favor e ainda encontra espaço para discutir temas como privilégio, meritocracia, autoestima, família e amadurecimento.
Não é uma série que vai reinventar o gênero. Mas é uma série que sabe exatamente que história quer contar – e, quando chega ao fim, deixa a sensação de que aquele barco ainda tem muito para navegar.
