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“Michael” emociona e impressiona, mas deixa parte da história fora do palco

Com uma performance marcante de Jaafar Jackson, cinebiografia celebra o legado do Rei do Pop, mas evita mergulhar nas contradições que tornaram Michael Jackson tão fascinante.

Existe um peso imenso em tentar retratar o maior artista de todos os tempos nas telas. Michael Jackson não era apenas um cantor, era um fenômeno, uma força da natureza, uma figura tão singular que qualquer tentativa de representá-lo carrega um risco enorme de parecer pequena demais. E é exatamente esse o dilema que o filme Michael enfrenta durante suas mais de duas horas de duração: ao mesmo tempo que impressiona visualmente e emociona musicalmente, ele também hesita onde mais importa.

O começo que promete tudo


A primeira meia hora é de longe o ponto mais forte do filme. Acompanhar o pequeno Michael descobrindo seu talento dentro da Jackson 5, dominando o palco mesmo sendo o menor e mais jovem do grupo, é genuinamente emocionante. Juliano Valdi, o ator que interpreta o Michael criança, entrega uma das melhores performances do filme, e Colman Domingo está simplesmente impecável como Joe Jackson, um pai dominador, abusivo e obcecado em monetizar os próprios filhos. É o tipo de personagem que você odeia do jeito certo, e a dinâmica entre pai e filho nas cenas iniciais dá ao filme a tensão dramática que ele vai sentir falta nas próximas horas.

O filme cobre desde a formação da Jackson 5 em 1966 até a icônica passagem pelo Wembley Stadium na Bad Tour de 1988, passando pela era Motown, a criação de Thriller, o especial do Motown 25 e o famoso acidente com o Pepsi. São momentos recriados com muito capricho e paixão, e para quem estava esperando ver esses capítulos ganhar vida, é uma experiência muito satisfatória.

Jaafar: o coração do filme


É impossível falar do filme sem falar de Jaafar Jackson. O sobrinho de Michael entrega uma performance que deixou o público em lágrimas, a recriação do moonwalk e das performances icônicas é de tirar o fôlego, e quem viu Michael ao vivo sente como se estivesse diante do mais próximo que chegaremos dele novamente. Jaafar captura com precisão a sensibilidade, o charme discreto e a fisicalidade única do tio nos palcos. Em seu debut nas telas, ele carrega o filme nas costas, e carrega bem.

O problema do retrato perfeito demais


E é aqui que as minhas ressalvas começam. Assistindo ao filme, bate uma sensação crescente de que algo está faltando, e não é pouca coisa. O filme nos apresenta um Michael quase angelical: generoso com os fãs, atencioso com crianças doentes nos hospitais, próximo da família e movido por valores. Tudo isso pode ser verdade, mas Michael Jackson, como qualquer ser humano extraordinário, também tinha suas sombras, seu temperamento, suas contradições. E o filme praticamente ignora tudo isso.

A partir do momento em que o Michael adulto assume a tela, o filme perde seu gancho dramático. Sem conflito real além da relação com o pai, que se torna cada vez mais secundária, a narrativa vira uma sequência de performances e conquistas sem muita profundidade. Para quem já conhece a história de Michael Jackson de verdade, essa versão parece incompleta. O filme parece ter sido feito para apresentar o artista às novas gerações, e cumpre bem esse papel, mas para quem cresceu com ele, fica aquela sensação de que estamos vendo apenas metade da história.

Um “Greatest Hits” visual


No final, Michael funciona mais como um álbum de greatest hits visual do que como um retrato profundo do artista, cheio de músicas incríveis, performances deslumbrantes, mas com poucas anotações de rodapé para contextualizar quem era o ser humano por trás de tudo aquilo. É lindo, é bem produzido, tem efeitos visuais que impressionam e uma trilha que te faz querer se levantar da cadeira várias vezes.

O filme termina com uma promessa estilo James Bond: “His Story Continues”, e é aí que a esperança bate forte. Se uma sequência de fato acontecer, o que se espera é que ela traga um retrato mais honesto: o Michael da vitiligo, dos julgamentos, do casamento, dos filhos, das dívidas e das questões que marcaram seus últimos anos. Porque o Michael que o mundo merece ver nas telas é aquele completo, com luz e sombra, com genialidade e humanidade.

Por enquanto, o que temos é um início bonito. E Jaafar, que claramente tem muito mais a mostrar.

Nota: 7/10

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