Em 1986, no Queens, Irwin Pearl tem tudo o que um homem comum pode querer. Um emprego estável de engenheiro, uma casa de subúrbio, uma mulher que ele ama e dois filhos que ainda acham o pai um herói. É uma vida sem sobressaltos, e é exatamente por isso que, quando o irmão mais velho aparece na porta com uma proposta de dinheiro fácil, a gente já sabe que alguma coisa vai dar errado. O que Tigre de Papel, que assistimos na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, faz de melhor é transformar essa certeza em quase duas horas de agonia.
O irmão é Gary (Adam Driver), ex-policial que virou empresário de segurança e fala com a confiança de quem nunca perdeu uma aposta. O negócio é um terreno contaminado perto do canal Gowanus, no Brooklyn, financiado por investidores russos que pagam bem e não fazem muitas perguntas. Irwin (Miles Teller) hesita, faz as contas, pensa nos filhos e aceita. A partir daí, James Gray conduz o filme como quem aperta um parafuso devagar: cada cena deixa o ar um pouco mais pesado, cada jantar em família parece esconder uma ameaça, e os sócios russos assustam justamente porque quase nunca mostram do que são capazes.
Gray conhece esse território como ninguém. Cresceu no Queens dos anos 1980, e passou a carreira inteira, de Os Donos da Noite a Armageddon Time, voltando à mesma pergunta: até onde vai a lealdade de uma família quando o crime bate à porta. Tigre de Papel é o filme mais pessoal dele nesse sentido, e também o mais tenso. O diretor que ficou conhecido pelos dramas lentos e melancólicos aqui acelera o passo, se aproxima do suspense clássico de Hitchcock e entrega sequências em que nada explode, mas tudo parece prestes a explodir. É o tipo de filme em que você percebe que está segurando a respiração só quando a cena acaba.
Parte dessa sensação vem da imagem. O filme começa em tons quentes, de cozinha iluminada e mesa posta, e vai esfriando à medida que Irwin afunda no negócio. Os enquadramentos se fecham, as sombras crescem, e Nova York deixa de ser a cidade da oportunidade para virar um lugar úmido, sujo e pouco confiável. A trilha orquestral misturada ao barulho constante das ruas, completa o clima de que o perigo está sempre a um quarteirão de distância.
No centro de tudo está Adam Driver, e é difícil tirar os olhos dele. O Gary que ele constrói é carismático, leal e irresponsável na mesma medida, aquele irmão que você ama e de quem deveria manter distância. Gray se recusa a transformá-lo em vilão, e Driver entende isso melhor que ninguém: há afeto verdadeiro em cada gesto, mesmo quando as escolhas dele empurram a família para o buraco. Ao lado dele, Miles Teller é a grande surpresa. Longe do herói de ação de Top Gun: Maverick, faz um pai de subúrbio comum, inseguro, que vai perdendo o chão sem perceber. É uma atuação discreta, que funciona porque não pede atenção, e o contraste entre a contenção de um e a energia do outro é o verdadeiro motor do filme.
Scarlett Johansson, como Hester, a mulher de Irwin, é quem mais divide opiniões. Lá fora, houve quem visse ali uma das atuações mais inspiradas da carreira dela, e quem achasse a personagem desperdiçada. Johansson se esforça, e Gray evita reduzi-la ao papel de esposa preocupada, mas o roteiro parece não saber o que fazer com ela quando a trama aperta.
E esse é justamente o calcanhar de Aquiles de Tigre de Papel. O filme planta várias histórias pelo caminho, a de Hester, a dos filhos, a de personagens que orbitam a família, e abandona boa parte delas sem desfecho. Virou quase uma tendência entre os filmes que circulam por festivais: concentrar toda a força no conflito central e tratar o resto como cenário. Em alguns casos, a escolha funciona. Aqui, incomoda, porque essas tramas são apresentadas com peso demais para simplesmente desaparecerem. O final, que não vou entregar, aprofunda a sensação: depois de tanta tensão bem construída, o desfecho troca a secura do resto do filme por uma emoção que soa forçada. Mesmo entre as críticas mais entusiasmadas, é o ponto que mais racha opiniões.
Por trás de tudo isso, existe um detalhe que interessa especialmente ao público brasileiro. Quem produz Tigre de Papel é o carioca Rodrigo Teixeira, da RT Features, na terceira parceria seguida com Gray, depois de Ad Astra e Armageddon Time. É o mesmo produtor de Me Chame Pelo Seu Nome e Ainda Estou Aqui, e um dos nomes que hoje tornam possível um certo cinema adulto que Hollywood já não financia sozinha. Não é pouco ver um brasileiro sustentando um dos autores americanos mais respeitados de Cannes.
O filme saiu do festival francês sem a Palma de Ouro, mas com a crítica majoritariamente a favor, 87% de aprovação no Rotten Tomatoes e 79 no Metacritic, e abriu a 50ª Mostra de São Paulo antes de chegar ao circuito nacional. Merece a atenção. Tigre de Papel é um thriller bem filmado, com um Adam Driver em grande forma e uma tensão que aperta o peito do começo ao fim. Só não é um filme que fecha tudo o que abre, e quem sai da sala com perguntas sem resposta não está sozinho.
Tigre de Papel estreia nos cinemas brasileiros em 7 de janeiro de 2027, com distribuição da Diamond Films.
Nota: 3,5/5
