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Crítica | Amor Apocalipse transforma ecoansiedade, depressão e solidão em uma reflexão urgente sobre o futuro

Em uma época marcada por guerras, mudanças climáticas, crises econômicas e uma avalanche constante de informações, não é difícil entender por que tantas pessoas convivem com ansiedade sobre o amanhã. É justamente nesse território de inquietação que Amor Apocalipse, novo longa da diretora Anne Émond, encontra sua maior força.

Exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes 2025 e agora chegando aos cinemas brasileiros, o filme parte de uma premissa aparentemente simples. Adam (Patrick Hivon), um homem solitário que vive à beira da depressão, compra uma lâmpada terapêutica para tentar amenizar sua ecoansiedade. Ao entrar em contato com o suporte técnico da empresa, conhece Tina (Piper Perabo), uma mulher cuja voz passa a representar um raro refúgio em meio ao caos mental que domina seus dias.

Mas o que poderia ser apenas uma comédia romântica independente se transforma em algo muito mais complexo. Anne Émond constrói uma narrativa sobre saúde mental, mudanças climáticas, pertencimento, dependência emocional e a dificuldade de continuar acreditando no futuro quando tudo parece caminhar para o colapso.

O que é ecoansiedade e por que ela está no centro da história?

Poucos filmes recentes conseguiram abordar a ecoansiedade de maneira tão direta quanto Amour Apocalypse. O termo descreve o sofrimento emocional provocado pelas preocupações com a crise climática e seus impactos futuros.

Não se trata de um transtorno psicológico formal, mas de uma resposta cada vez mais comum diante das notícias sobre aquecimento global, eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e previsões preocupantes para as próximas décadas. Adam é a personificação desse fenômeno.

Divulgação

Ele pensa constantemente no futuro do planeta, nas consequências das mudanças climáticas, na escassez de recursos, nas guerras e no que acontecerá com as próximas gerações. O roteiro acerta ao não tratar essas preocupações como delírios ou paranoias. Pelo contrário: o filme reconhece que os medos de Adam possuem fundamentos reais. A grande questão não é o fato de ele se preocupar. É o fato de se preocupar em excesso.

Sua consciência ambiental deixa de ser uma ferramenta de reflexão e se transforma em uma prisão emocional. Adam não consegue desligar a mente, não consegue viver o presente e passa a existir permanentemente projetado em cenários futuros catastróficos.

Quando a sociedade trata preocupações reais como exagero

Um dos aspectos mais interessantes do filme está na forma como ele retrata a reação das pessoas ao sofrimento de Adam. Em diversos momentos, suas preocupações são vistas como exageradas, irracionais ou desnecessárias. Há uma tendência constante de minimizar aquilo que ele sente.

Até mesmo sua terapeuta, em algumas situações, parece reduzir questões existenciais complexas a respostas protocolares, como se a origem do problema estivesse apenas em sua forma de pensar e não também na realidade que o cerca.

O filme levanta uma questão incômoda: até que ponto a sociedade está disposta a discutir saúde mental quando ela envolve temas que preferimos evitar? Porque Adam não está sofrendo por algo imaginário. As mudanças climáticas existem. O aquecimento global existe. Os conflitos geopolíticos existem. A instabilidade do mundo contemporâneo existe. O que o destrói não é a invenção desses problemas, mas a incapacidade de processá-los emocionalmente.

A solidão masculina e o silêncio sobre a depressão

Outro mérito do longa é sua abordagem da solidão masculina.

Adam vive sozinho, administra um canil e possui poucos vínculos sociais. Embora tenha um pai presente e alguns amigos próximos, ele raramente compartilha aquilo que está sentindo. Sua depressão permanece escondida. Sua ansiedade permanece escondida. Sua ecoansiedade permanece escondida.

O filme mostra como muitos homens ainda são ensinados a lidar com sofrimento emocional de forma silenciosa, acumulando angústias até que elas se tornem insuportáveis.

Essa dificuldade de pedir ajuda torna Adam um personagem profundamente humano. Sua dor não se manifesta apenas em crises explícitas, mas em pequenos gestos, no isolamento progressivo e na incapacidade de se sentir compreendido.

O conflito geracional que o filme retrata tão bem

Uma das cenas mais significativas envolve a descoberta, por parte de seu pai, de que Adam utiliza medicamentos para tratar sua saúde mental. A reação não é de acolhimento. É de negação. Ao descartar os remédios do filho e insistir que ele “não tem nada”, o personagem expõe uma mentalidade ainda presente em muitas famílias. Mais do que um gesto de ignorância, o momento revela um choque entre gerações.

Pessoas mais velhas frequentemente cresceram em contextos nos quais depressão, ansiedade e sofrimento psicológico eram vistos como falta de força ou incapacidade de enfrentar a vida. Falar sobre emoções não fazia parte da educação emocional de muitas dessas gerações. Já Adam pertence a um mundo completamente diferente.

Um mundo hiperconectado, bombardeado por notícias em tempo real, alertas ambientais constantes, crises globais e uma pressão psicológica que atravessa fronteiras. O filme não transforma o pai em um vilão. Ele representa uma geração que aprendeu a sobreviver sem necessariamente compreender a linguagem da saúde mental. E justamente por isso a cena se torna tão poderosa.

Patrick Hivon entrega a melhor atuação do filme

Grande parte do impacto emocional de Amour Apocalypse está na interpretação de Patrick Hivon.

O ator constrói Adam sem recorrer a estereótipos frequentemente associados à depressão ou à ansiedade. Seu trabalho acontece nos detalhes. No olhar cansado. Nas pausas. Nos silêncios. Na sensação permanente de exaustão emocional.

Hivon transmite a fragilidade do personagem sem transformá-lo em alguém definido apenas pelo sofrimento. Existe humanidade, humor e sensibilidade em sua composição, tornando Adam extremamente fácil de compreender, mesmo quando suas reações parecem excessivas. É uma atuação que sustenta todo o filme.

Tina é encantadora, mas merecia mais espaço

Piper Perabo entrega carisma e calor humano à personagem Tina. Ela funciona como uma espécie de contraponto à escuridão emocional que domina Adam e representa uma rara fonte de acolhimento em sua vida.

Ainda assim, o roteiro dedica muito mais atenção ao universo psicológico do protagonista do que ao desenvolvimento da própria Tina. Conhecemos Adam profundamente.

Conhecemos seus medos. Suas inseguranças. Suas obsessões. Mas sabemos relativamente pouco sobre quem Tina é quando não está interagindo com ele. Embora isso não comprometa o filme, deixa a sensação de que havia espaço para uma personagem ainda mais rica e complexa.

Peak Everything: o mundo no limite e um homem também

Peak Everything, é uma das chaves para sua interpretação. A expressão pode ser traduzida como “Pico de Tudo” e faz referência à ideia de que diferentes sistemas, ambientais, econômicos e sociais — estariam se aproximando de seus limites máximos. Mas Anne Émond amplia esse conceito ao deslocá-lo também para o campo íntimo e emocional.

No filme, o planeta está chegando ao limite, assim como Adam. Sua ansiedade atinge o limite, sua solidão chega ao limite e sua esperança também parece se esgotar. Nesse sentido, seu próprio “peak everything” acontece quando ele já não consegue mais suportar o peso emocional de tudo aquilo que carrega.

Mais do que um romance, um retrato da geração da ansiedade

O maior mérito de Amour Apocalypse talvez seja capturar um sentimento compartilhado por milhões de pessoas atualmente, especialmente entre os mais jovens: a sensação de que existe algo profundamente errado acontecendo no mundo, a percepção de que o futuro parece mais incerto do que nunca e o medo constante de não saber como lidar com tudo isso. Ao mesmo tempo, o filme evita respostas simplistas.

Não oferece fórmulas de autoajuda, não promete cura e tampouco sugere que o amor seja capaz de resolver todos os problemas. Seu valor está justamente em validar sentimentos que muitas vezes são ignorados. Anne Émond reconhece que a ecoansiedade é real, que o medo do futuro é legítimo e que a saúde mental também está diretamente ligada à forma como nos relacionamos com o mundo ao nosso redor.

Em vez de falar sobre o fim do planeta, Amour Apocalypse se concentra em algo ainda mais urgente: como continuar vivendo quando o futuro parece assustador. E talvez seja justamente por isso que seu protagonista ressoe de forma tão intensa com o público contemporâneo.

Nota: 4,5/5

Sensível, inteligente e profundamente atual, Amour Apocalypse transforma a ecoansiedade em uma poderosa reflexão sobre saúde mental, mudanças climáticas, solidão e a necessidade humana de conexão em tempos de incerteza.

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