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Critica Behemoth: entre a melancolia de Pedro Pascal e o humor de Olivia Wilde, Tony Gilroy compõe um filme quase perfeito

Alex Serian passou décadas longe de casa. Violoncelista prodígio, rodou o mundo de concerto em concerto, colecionou aplausos, casos amorosos e pontes queimadas pelo caminho. Agora, de volta a Los Angeles para gravar a trilha sonora de um filme, ele se senta diante da orquestra, e cada nota parece puxar uma lembrança que ele preferia ter deixado para trás. É desse vaivém entre o estúdio de gravação e o passado que nasce Behemoth: Uma Vida Composta em Peças, que assistimos na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e que chega aos cinemas brasileiros em 3 de dezembro.

O filme marca a volta de Tony Gilroy à direção de longas depois de 14 anos. O nome talvez não soe familiar à primeira vista, mas o currículo fala por ele: Gilroy escreveu a franquia Bourne, dirigiu Conduta de Risco e criou Andor, a série que convenceu até quem não aguentava mais Star Wars. Era de se esperar que ele voltasse com um thriller tenso e político. Em vez disso, entregou um filme sobre música, memória e um homem que nunca soube ficar, com um humor inesperado costurado no meio.

Pedro Pascal assumiu o papel depois que Oscar Isaac deixou o projeto, e é difícil imaginar outro ator nele. Alex é charmoso, mulherengo, egoísta e perdido na mesma medida, o tipo de homem que sabe exatamente o que tocar no palco e não faz ideia do que fazer fora dele. Pascal entende esse personagem por dentro. Sem a carapaça de The Mandalorian ou a intensidade de The Last of Us, ele aposta no carisma desarmado e numa melancolia discreta, de quem percebe tarde demais quantas pessoas deixou para trás. Parte da crítica americana chamou de a melhor atuação da carreira dele, e o papel cai como uma luva para alguém que construiu fama justamente nesse lugar entre o galã e o homem quebrado.

Mas quem rouba o filme é Olivia Wilde. Ela vive Carol, uma das ex de Alex, e toda vez que aparece em cena o filme ganha outra velocidade. Wilde entra com energia lá em cima, um timing cômico afiadíssimo e uma disposição de expor o protagonista ao ridículo que nenhum outro personagem tem. É impossível não rir. Num filme que às vezes se leva a sério demais, ela é o lembrete de que a vida de Alex também é uma comédia, e das boas. Não fui a única a sair da sessão com essa impressão: mesmo entre as críticas mais divididas, Wilde aparece como o ponto alto do elenco.

O resto do elenco segura bem as pontas. Will Arnett faz Andy, o irmão com quem Alex mal fala, Hank Azaria vive o pai, e Eva Victor, como Nadia, uma antiga paixão, tem pouco tempo de tela mas deixa marca. A jovem Kaya Ralls, como uma aspirante a musicista que Alex acaba orientando, traz ao filme uma ternura que equilibra o egoísmo do protagonista.

E há a música, que é personagem por si só. Gilroy reuniu nove compositores para criar a trilha do filme dentro do filme, entre eles Michael Giacchino, James Newton Howard, Alan Silvestri e Henry Jackman. É um luxo raro, e o diretor usa bem: cada peça gravada no estúdio dispara uma lembrança, e a trilha muda de tom conforme o passado de Alex vai sendo revelado, ora suspense, ora drama, ora piada. É através da música que o filme encontra sua leveza e seus melhores momentos.

O problema é que essa estrutura em idas e vindas nem sempre flui. Com pouco mais de duas horas, Behemoth tem trechos que se arrastam e um roteiro que, em alguns momentos, parece mais preocupado em encaixar as peças do que em deixá-las respirar. A oscilação entre comédia, drama e quase-thriller divide opiniões: para alguns é charme, para outros é falta de foco. Coadjuvantes interessantes aparecem e somem rápido demais, e o final amarra tudo de um jeito um pouco certinho demais para um personagem tão bagunçado. Lá fora, a recepção foi dividida, com elogios unânimes a Pascal e à trilha e ressalvas ao ritmo.

Ainda assim, é um filme que dá prazer de assistir. Behemoth é leve sem ser bobo, engraçado sem perder a melancolia, e tem em Pedro Pascal e Olivia Wilde uma dupla que vale o ingresso sozinha. Não é a obra-prima que o retorno de Gilroy prometia, mas é um filme de quem gosta de música, de gente imperfeita e de rir no meio do drama.

Nota: 3,5/5

Behemoth: Uma Vida Composta em Peças estreia nos cinemas brasileiros em 3 de dezembro.

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