CRÍTICAS EVENTOS SHOWS

Calvin Harris leva o Rock in Rio a Ibiza, enquanto Black Eyed Peas celebra o Brasil

Há algo curioso em voltar ao Rock in Rio depois de algumas edições: para quem já conhece a Cidade do Rock, a sensação é quase a de reencontrar um velho colega. Daqueles que a gente vê ano sim, ano não, e que, mesmo depois de algum tempo, continuam exatamente no lugar que a memória deixou.

É claro que algumas coisas mudam – e, neste ano, uma das mudanças mais bem-vindas finalmente chegou ao Palco Mundo: os telões. Finalmente! Mesmo quem está lá longe consegue acompanhar os shows com muito mais conforto, sem precisar disputar uma fresta de visão entre milhares de cabeças. Parece básico, mas faz uma diferença enorme na experiência.

No terceiro dia do festival, 6 de setembro, o Rock in Rio recebeu uma sequência de nomes que passearam por diferentes momentos da música pop, do Barão Vermelho a Nelly e Ne-Yo. Mas foi com a chegada do Black Eyed Peas e, mais tarde, de Calvin Harris, que a noite ganhou seus momentos mais marcantes: dois shows que, cada um à sua maneira, transformaram a chuva em parte da experiência.

Black Eyed Peas: uma carta de amor ao Brasil

O Black Eyed Peas entrou no palco com a energia de quem sabia exatamente o que precisava fazer: colocar o público para dançar, mesmo debaixo de uma chuva torrencial que parecia não ter a menor intenção de dar trégua.

No começo, o público brasileiro parecia até comportado demais. Cantava tudo, claro, mas ainda faltava aquele salto coletivo que transforma um show em experiência. Talvez a chuva, que castigou a Cidade do Rock durante praticamente todo o domingo, explique parte da cautela.

Mas bastaram os primeiros acordes de “Pump It”, “Boom Boom Pow” e “Let’s Get It Started” para ninguém mais lembrar que estava molhado. A partir dali, o público saiu do chão. E ficou evidente que havia uma troca acontecendo entre palco e plateia. O BEP entregava energia, mas também fazia questão de demonstrar o quanto o Brasil ocupa um espaço especial na história do grupo.

Especialmente Will.i.am parecia determinado a deixar isso claro. Falou sobre seu carinho por diferentes estados brasileiros, arriscou “Chove Chuva” em português e recebeu Papatinho no palco para apresentar “WE LIVE UP IN HERE”, nova colaboração que ganhou seu primeiro momento em solo brasileiro.

O grupo ainda prestou uma bonita homenagem a Sérgio Mendes antes de “Mas, Que Nada”, enquanto imagens de paisagens brasileiras apareciam nos telões ao longo do espetáculo. Era quase como se o show tivesse sido cuidadosamente desenhado para dizer: “nós sabemos onde estamos”. E o público respondeu à altura. Aos gritos, aos pulos e, principalmente, cantando cada palavra.

📸: @vansbumbeersfoto

Calvin Harris: e, por uma noite, o Rio virou Ibiza

Quando Calvin Harris foi anunciado como headliner do domingo, a escolha chegou a ser questionada por parte do público. Um DJ como atração principal do Palco Mundo? Funcionaria? Depois de uma hora e meia de show, a resposta parecia bastante óbvia.

Assim que Calvin Harris pisou no palco, ficou claro que ele não estava ali apenas para preencher o espaço entre grandes hits. Ele tinha um público fiel, saudoso e – talvez o mais importante – completamente preparado para transformar a Cidade do Rock em uma pista de dança!

E a chuva, que durante o dia inteiro parecia ser a grande vilã do festival, acabou ganhando outro significado. Quase não havia celulares levantados naquele mar de gente encapuzada. Ninguém parecia preocupado em registrar cada segundo. As pessoas simplesmente estavam ali: Dançando. Cantando. Vivendo. Por cerca de uma hora e meia, o Rio virou Ibiza (com um dress code bem diferente, é verdade).

Calvin provou, por A + B, por que continua sendo um dos maiores nomes da música eletrônica. “Sweet Nothing”, “Outside”, “One Kiss”, “I Need Your Love”, “This Is What You Came For”, “Feel So Close”, “How Deep Is Your Love”, “Summer”, “We Found Love”, “Promises” e tantos outros hits fizeram parte de um set em que era difícil encontrar uma música que o público não soubesse cantar.

E talvez uma das imagens mais legais da noite tenha sido justamente a reação do próprio Calvin. O DJ parecia genuinamente maravilhado com os coros da multidão, sorrindo enquanto o público assumia os vocais de músicas que, originalmente, nem sequer foram feitas para serem cantadas por ele.

Como se não bastasse, ainda teve funk brasileiro no meio do set – porque, se era para transformar o Rock in Rio em Ibiza, que fosse uma Ibiza à brasileira!

Luzes, fumaça, pirotecnia e fogos completaram o espetáculo. Mas o verdadeiro show estava na pista: milhares de pessoas completamente entregues à música, ignorando o frio e a água que insistiam em cair. E então veio “Levels”, de Avicii, fechando a noite com aquela sensação clássica de qualquer bom festival: poderia ter mais uma?

Calvin Harris pode voltar mais vezes.

📸: @vansbumbeersfoto
📸: @vansbumbeersfoto

No fim, é sobre dizer: “eu fui”

O terceiro dia do Rock in Rio talvez seja uma boa representação do que o festival se tornou e, ao mesmo tempo, do que ele nunca deixou de ser. A marca já não precisa provar nada para ninguém: está consolidada, a experiência é reconhecível e existe uma espécie de ritual compartilhado entre o evento e seu público. Quem já foi sabe. Quem volta, reconhece.

Pode fazer sol. Pode fazer frio. Pode chover de maneira absolutamente impiedosa. No fim das contas, o que fica é a memória. É poder olhar para trás e dizer: “eu fui”. E, enquanto a Cidade do Rock continuar reunindo milhares de pessoas dispostas a cantar, dançar, se molhar e viver algumas horas como se o mundo lá fora não existisse, aquela velha relação entre o RIR e seu público provavelmente continuará intacta.

Ooooo, oooo… Rock in Rio!

Você também pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *