Poucos atores do cinema sul-coreano transitam entre gêneros com tanta naturalidade quanto Jin Sun-kyu. Em uma carreira construída ao longo de décadas, o ator passou dos palcos do teatro para personagens que marcaram o cinema e a televisão, alternando vilões memoráveis, policiais, pais de família e protagonistas cômicos sem perder a intensidade que se tornou sua marca registrada.
O reconhecimento internacional veio principalmente após The Outlaws (2017), longa que transformou sua trajetória e apresentou seu talento para um público muito maior. Desde então, Jin consolidou uma filmografia marcada pela versatilidade em produções como Extreme Job, um dos maiores sucessos do cinema coreano, Through the Darkness, Confidential Assignment 2 e, mais recentemente, Maridos em Ação (Husbands in Action), produção que conquistou espaço entre os títulos mais assistidos da Netflix Brasil.
Em conversa com o No Backstage, Jin Sun-kyu relembrou sua transição do teatro para o audiovisual, explicou por que acredita que não existem personagens totalmente bons ou maus, falou sobre a química construída com Gong Myoung em Maridos em Ação e comentou o carinho especial que desenvolveu pelo Brasil durante as gravações de Amazon Bullseye.
Do teatro para as câmeras
Antes de conquistar o público do cinema, Jin construiu boa parte de sua carreira nos palcos. Para ele, a mudança para o audiovisual exigiu uma adaptação técnica importante, especialmente por conta da linguagem da câmera.
“O palco permite que o público veja todo o corpo do ator. Já diante da câmera existem momentos em que você deve olhar para ela e outros em que não. Também há limitações de movimento, então precisei aprender essa mecânica.”
Apesar das diferenças, o ator afirma que nunca enxergou mudanças na essência do trabalho. “A essência da atuação continua sendo a mesma. O que muda é a forma como ela é executada.”
Segundo ele, foi apenas ao conquistar papéis maiores que percebeu como atuar para cinema e televisão exige um exercício constante de imaginação, já que muitas vezes é necessário reagir a elementos que ainda não existem fisicamente durante as filmagens.
Não existem personagens sem humanidade
Um dos aspectos mais interessantes da entrevista é a forma como Jin enxerga seus personagens. Segundo o ator, ele nunca interpreta um vilão pensando apenas na maldade. “Todos os personagens são resultado da vida que viveram.”
Durante o trabalho em Through the Darkness, série inspirada em casos reais e focada na mente de criminosos, ele passou a refletir profundamente sobre como experiências, traumas e ausência de afeto podem moldar uma pessoa. Por isso, acredita que qualquer personagem precisa carregar conflitos internos e uma dimensão humana, independentemente de estar do lado dos heróis ou dos vilões.
O carinho pelo Brasil
Maridos em Ação entrou para o Top 10 da Netflix Brasil, e o ator comemora o crescimento do interesse do público brasileiro pelas produções coreanas. Mais do que isso, ele guarda uma relação especial com o país. Durante as filmagens de Amazon Bullseye, Jin visitou o Brasil e afirma ter se apaixonado pela cultura local.
Na entrevista, ele lembra especialmente da gastronomia brasileira. “Feijoada, churrasco, pirarucu… e tantas frutas deliciosas. Só de lembrar já fico com vontade de voltar.”
Confira a entrevista completa abaixo:
Você construiu uma parte importante da sua carreira no teatro, onde existe uma troca imediata com o público. Quando começou a migrar para o cinema e a televisão, como foi se adaptar a uma linguagem em que essa conexão se torna mais silenciosa? Você se lembra do que sentiu nas primeiras vezes diante de uma câmera?
Jin Sun-kyu: No começo, a adaptação não foi fácil. No palco, o público consegue ver todo o meu corpo, mas diante da câmera há momentos em que você precisa olhar para ela e outros em que não pode. Também existem limitações de movimento, então levei um tempo para me acostumar com esses aspectos mais técnicos.
No entanto, sempre acreditei que a essência da atuação é a mesma, então concentrei meus esforços em entender essa nova mecânica. Minha primeira experiência diante de uma câmera foi em um papel pequeno, filmado em plano aberto. Eu nem fazia ideia de como estava sendo enquadrado, se aparecia direito ou como seria visto na tela.
Mais tarde, quando comecei a interpretar personagens maiores, percebi que atuar para o audiovisual exige muito mais imaginação do que o teatro. No palco, você troca energia o tempo todo com os colegas de cena e com o público. Já no cinema e na TV, é preciso imaginar previamente tudo aquilo para o que você estará olhando ou reagindo. Por isso, durante os ensaios, procuro memorizar e visualizar todos esses elementos com antecedência.
Sua carreira tem uma característica muito interessante: você pode interpretar personagens extremamente ameaçadores, como em The Outlaws, e depois conquistar o público com a comédia em Extreme Job. O que muda dentro de você como ator quando passa de um personagem mais sombrio para outro mais leve?
Jin Sun-kyu: Acho que essa diferença está mais na natureza do gênero do que em uma mudança interna. Seja em uma comédia ou em um drama, todos os personagens levam suas próprias vidas a sério. Nesse sentido, eles são essencialmente iguais. O que muda é a atmosfera da obra, e isso acaba influenciando meu estado de espírito. Comédia e suspense, por exemplo, despertam abordagens emocionais diferentes. Mas, independentemente do gênero, o processo de preparação para um papel permanece praticamente o mesmo.
Muitos dos seus personagens parecem fortes por fora, mas carregam inseguranças, perdas ou conflitos internos. Você procura essa humanidade escondida ao aceitar um papel ou ela surge naturalmente durante o processo de criação?
Jin Sun-kyu: Seja um vilão, um herói ou um personagem de comédia, acredito que todos são moldados pela vida que viveram. Por isso, sempre tento compreender a situação em que aquela pessoa se encontra. De certa forma, acho que a divisão entre bem e mal é algo construído. Até mesmo os vilões têm seus próprios motivos. Aquilo que enxergamos como maldade pode ser consequência de circunstâncias das quais eles não conseguiram escapar. Enquanto trabalhava em Through the Darkness, senti isso de maneira muito intensa.
Estudei a mente e as emoções de diversos sociopatas e criminosos, tentando entender como chegaram até aquele ponto, que tipo de amor deixaram de receber ou quais experiências os conduziram até ali. Tudo isso pode levar alguém ao crime ou a diferentes formas de comportamento. É por isso que acredito que todo personagem precisa carregar essa dimensão humana interior.
Você construiu sua carreira ao longo de muitos anos. Olhando para todos os personagens que interpretou antes do reconhecimento mundial, existe algum papel que considera essencial para entender quem é Jin Sun-kyu como ator hoje?
Jin Sun-kyu: Sem dúvida, The Outlaws foi o trabalho que mudou a minha vida. Foi o grande ponto de virada da minha carreira, então fico muito feliz quando novas pessoas assistem ao filme.
Ele também é completamente diferente do meu papel em Maridos em Ação, o que torna essa trajetória ainda mais significativa. Extreme Job também ocupa um lugar muito especial para mim, porque me permitiu mostrar um lado totalmente oposto como ator. Tenho muito carinho também pelos meus personagens em Confidential Assignment 2 e Through the Darkness. Na verdade, sou muito apegado a todos os meus papéis, inclusive ao Bbang-sik, de Amazon Bullseye. Às vezes esvazio completamente quem eu sou para vestir um personagem; em outras, levo um pouco de mim para ele. De qualquer forma, todos acabam se tornando muito importantes na minha vida.
Falando agora sobre Maridos em Ação, você interpreta um homem que precisa deixar o orgulho de lado e unir forças com alguém que ocupa um lugar bastante complicado em sua vida. O que mais chamou sua atenção nesse personagem: a ação, a comédia ou essa contradição emocional?
Jin Sun-kyu: O que mais me chamou atenção foi, na verdade, o próprio título: Maridos em Ação. Achei essa ideia muito curiosa. Quando li o roteiro pela primeira vez, fiquei pensando como um ex-marido e um marido atual poderiam trabalhar juntos. Mas, conforme avancei na leitura, tudo passou a fazer sentido e a história se desenvolveu de maneira muito divertida. Foi isso que me conquistou.
Na parte da comédia, procurei destacar o lado imperfeito de cada personagem. Acho que justamente essas falhas, inseguranças e momentos de atrapalhação geram humor. Por exemplo, nas cenas envolvendo uma criança, o fato de o personagem ser policial deixa de ser importante. Então procurei explorar essas lacunas emocionais. Já para a ação, treinei bastante, principalmente técnicas de abordagem e prisão, buscando representar esse lado policial da forma mais realista possível.
Você tem uma habilidade muito particular de equilibrar personagens intensos com momentos de humor. Em Maridos em Ação, esse equilíbrio aparece novamente. O que é mais desafiador para você: tornar uma cena de ação convincente ou fazer uma cena de comédia funcionar sem parecer forçada?
Jin Sun-kyu: Acho que fazer a comédia parecer natural é um dos maiores desafios para qualquer ator. Muitas vezes existe a tentação de exagerar, e em alguns casos isso até funciona. Mas acredito que o humor surge de maneira mais genuína quando nasce da forma como o personagem tenta superar ou escapar de determinada situação. Por isso, em vez de exagerar nas emoções, procurei preservar os pensamentos e sentimentos do personagem, deixando que o humor surgisse naturalmente. Mesmo assim, continua sendo uma das partes mais difíceis da atuação.
Um dos grandes pontos fortes do filme é a química entre você e Gong Myoung. Os personagens começam como rivais, mas acabam protagonizando muitos momentos divertidos. Como vocês construíram essa sintonia? Houve espaço para improvisação?
Jin Sun-kyu: Eu já havia trabalhado com Gong Myoung em Extreme Job e continuamos mantendo contato desde então. Essa convivência fez com que nossa sintonia surgisse naturalmente. Durante os ensaios, aproveitamos essa confiança para acrescentar pequenas improvisações ao roteiro.

Mas o texto escrito pelo diretor já era tão engraçado que não sentimos necessidade de improvisar muito. A cena do freezer, por exemplo, em que usamos os pés durante a luta, já era muito divertida no papel e também durante as filmagens. Poderia facilmente parecer exagerada, mas acreditamos que, justamente por levarmos a situação até o fim, ela funcionou ainda melhor. Também rimos bastante durante a cena envolvendo os tipos sanguíneos. Como já existia uma relação de confiança entre nós, conseguimos nos entregar completamente sem hesitar. Lembro que, durante os ensaios, eu disse que atuaria com 100% da intensidade, como se já estivéssemos gravando, e ele respondeu que faria exatamente o mesmo. (risos)
O público internacional acompanha cada vez mais o cinema e as séries coreanas, e agora Maridos em Ação entrou para o Top 10 da Netflix Brasil. Quando percebe que um personagem criado na Coreia emociona pessoas do outro lado do mundo, inclusive no Brasil, o que isso significa para você?
Jin Sun-kyu: Ainda não consigo sentir totalmente a dimensão disso, mas saber que existe tanto interesse e poder conceder entrevistas como esta me deixa muito orgulhoso. Também me faz perceber o quanto as produções coreanas são amadas ao redor do mundo.
O Brasil, em especial, é um país pelo qual tenho muito carinho. Tive a oportunidade de conhecer os brasileiros durante Amazon Bullseye e também visitei o país durante as filmagens. Na época, fiquei encantado com a cultura, com o clima e, principalmente, com a comida. Feijoada, churrasco, pirarucu e tantas frutas deliciosas… (risos) Não sou uma pessoa exigente para comer, mas tudo era realmente muito saboroso. Só de lembrar já fico com vontade de voltar ao Brasil. (risos)
Você já interpretou policiais, criminosos, pais, guerreiros e pessoas comuns vivendo situações extremas. Existe algum lado de Jin Sun-kyu que você ainda gostaria de mostrar ao público e que seus personagens ainda não revelaram?
Jin Sun-kyu: Gostaria muito de interpretar um homem apaixonado. Tenho o sonho de fazer um romance clássico, interpretando alguém profundamente apaixonado. Claro que isso depende de muitos fatores e também de um pouco de sorte, mas é um desafio que quero viver como ator. Ainda não acabou. Afinal, só acaba quando termina. (risos)
Para finalizar, poderia deixar uma mensagem aos fãs brasileiros?
Jin Sun-kyu: Aos fãs brasileiros, em nome de toda a equipe de Maridos em Ação, muito obrigado por todo o carinho e apoio. Sinto-me verdadeiramente abençoado por poder me conectar com vocês, do outro lado do mundo, através daquilo que mais amamos: o cinema. Nossos países, culturas e realidades podem ser diferentes, mas acredito que o amor pela família é algo que todos compartilhamos profundamente.
Espero que o humor e o calor humano presentes no filme cheguem ao coração de todos vocês no Brasil. Muito obrigado! Espero poder visitar o Brasil novamente em breve. Muito obrigado!
“Maridos em Ação” já está disponível no catálogo da Netflix.
