Poucas séries da última década foram tão influentes quanto Euphoria. Quando estreou em 2019, a produção da HBO rapidamente se tornou um fenômeno cultural, transformando Zendaya em uma das maiores estrelas de sua geração e colocando discussões sobre dependência química, identidade, sexualidade e saúde mental no centro da conversa.
Mas a temporada final deixa uma sensação curiosa. Embora continue visualmente impressionante e conte com um elenco extremamente talentoso, Euphoria parece cada vez menos interessada nos personagens que a tornaram especial.
Ao longo dos episódios, a série amplia temas que sempre fizeram parte de sua identidade, mas nem sempre consegue aprofundá-los. O resultado é uma despedida ambiciosa, polêmica e emocionalmente irregular, que levanta uma pergunta difícil de ignorar: Euphoria está fazendo uma crítica social ou apenas reproduzindo aquilo que pretende denunciar?
Quando a sexualização se torna destino
Um dos aspectos mais discutidos da temporada está na forma como as personagens femininas são retratadas. Cassie talvez seja o exemplo mais evidente. Desde a primeira temporada, sua relação com autoestima e validação masculina era parte essencial de sua construção. A personagem sempre buscou amor através do desejo dos outros, especialmente dos homens.
O problema é que a temporada final transforma essa característica em praticamente toda a sua identidade. Sua trajetória culmina na criação de conteúdo adulto, reduzindo anos de conflitos emocionais a uma única narrativa: a necessidade constante de ser desejada.
Rue segue um caminho igualmente sombrio ao acabar envolvida em um puteiro. Já Jules, que durante anos representou descoberta, liberdade e identidade, perde espaço para uma trama em que se torna sugar baby e abandona os sonhos que antes definiam sua trajetória. Separadamente, cada uma dessas histórias poderia funcionar. O que chama atenção é a repetição do padrão.
Quando personagens tão diferentes acabam convergindo para narrativas semelhantes, surge uma sensação inevitável de que a sexualização deixa de ser uma característica específica de determinadas histórias para se tornar o destino de quase todas as mulheres daquele universo.
Crítica social ou fetiche?
Existe, claro, uma interpretação possível para tudo isso. Talvez Euphoria esteja retratando uma geração que cresceu em uma internet onde absolutamente tudo virou produto. Aparência, relacionamentos, intimidade, sofrimento e até o próprio corpo passaram a ser monetizados.
Sob essa perspectiva, Cassie transforma desejo em conteúdo. Jules transforma companhia em renda. Rue transforma o próprio corpo em ferramenta de sobrevivência. A série poderia estar discutindo justamente como jovens passaram a enxergar a si mesmos como algo constantemente consumível.
Mas é aí que surge o principal problema. Em vários momentos, a crítica parece entrar em conflito com aquilo que a própria narrativa exibe. Euphoria nunca deixa totalmente claro se está denunciando essa lógica ou apenas reproduzindo ela diante das câmeras. O resultado é uma temporada que frequentemente faz o espectador questionar onde termina a denúncia e onde começa a fascinação da própria série pelo que está mostrando.
Euphoria absorveu o que não funcionou em The Idol
É impossível assistir à temporada final sem lembrar de The Idol. As duas produções compartilham muito mais do que apenas o nome de Sam Levinson nos créditos. Sexo, drogas, fama, poder e relações abusivas aparecem constantemente em ambas as narrativas.
São histórias fascinadas por personagens vivendo situações extremas, frequentemente priorizando o impacto visual das cenas acima da evolução emocional de quem as protagoniza. A sensação é de que Euphoria incorporou diversas ideias que não funcionaram em The Idol.
Até mesmo algumas estratégias se repetem. Se The Idol apostou na presença de Lisa, do Blackpink, para gerar repercussão, Euphoria faz movimento semelhante ao trazer Rosalía para seu universo.
O problema é que os temas permanecem praticamente os mesmos, enquanto a profundidade parece cada vez menor. Em vez de desenvolver seus personagens, a série muitas vezes parece mais interessada em criar imagens marcantes e situações polêmicas.
A religião como última esperança
Em meio a tanto caos, um dos elementos mais interessantes da temporada surge através de Rue. A religião aparece não como uma descoberta espiritual espontânea, mas como uma tentativa desesperada de sobrevivência. Depois de anos presa em ciclos de dependência química, culpa e autodestruição, a fé surge quase como a única alternativa restante.
Talvez o aspecto mais triste da temporada seja justamente a ausência de perspectiva. Quase ninguém parece acreditar que existe um futuro possível para si mesmo. Os personagens estão presos em dívidas, vícios, relacionamentos tóxicos ou em versões distorcidas dos próprios sonhos.
Por isso, quando Rue encontra algum tipo de conforto na religião, o momento funciona menos como uma conversão e mais como uma tentativa de reconstrução emocional. É um dos raros momentos em que Euphoria parece realmente interessada em discutir recuperação, e não apenas destruição.
Personagens perderam a força que tinham
Outro problema da temporada está na descaracterização de figuras centrais.
Nate Jacobs era um dos personagens mais complexos da série. Durante anos, Euphoria construiu um homem consumido pela raiva, pela masculinidade tóxica, pelos traumas familiares e por conflitos ligados à própria sexualidade. Tudo parecia apontar para uma grande explosão emocional, mas a temporada final abandona boa parte dessas camadas. Em vez de aprofundar seus dilemas, Nate passa a ser definido principalmente pelas dívidas e pela dependência emocional de Cassie. O personagem que antes dominava qualquer cena em que aparecia agora parece incapaz de conduzir a própria história.
Maddy também sofre uma transformação estranha. Sempre foi uma das personagens mais inteligentes da série e uma das poucas capazes de enxergar Nate como ele realmente era. Por isso, causa estranhamento vê-la se envolver em situações complicadas para ajudá-lo justamente quando ele menos demonstra merecer esse esforço.
Já Jules praticamente desaparece. A personagem que antes representava liberdade, descoberta e identidade acaba reduzida a um arco muito menor do que sua importância para a série sugeria.
Sydney Sweeney e a linha tênue entre atriz e personagem
Também é difícil ignorar a forma como a temporada parece dialogar com as polêmicas envolvendo Sydney Sweeney fora das telas. A série faz referências indiretas à maneira como a atriz é enxergada pelo público, pela mídia e pelas redes sociais.
Em alguns momentos, isso funciona como um comentário interessante sobre fama, objetificação e a relação entre celebridade e imagem pública. Em outros, porém, a sensação é de que a produção transforma a própria repercussão em torno de Sydney em parte do espetáculo.
A discussão sobre a atriz e a discussão sobre Cassie acabam se misturando de forma quase inseparável. Ainda assim, vale destacar que Sydney entrega uma das atuações mais fortes da temporada. Mesmo quando o roteiro limita sua personagem, ela continua sendo uma das presenças mais magnéticas da série.
A ausência de Labrinth faz falta
Poucas séries recentes utilizaram a música de forma tão eficiente quanto Euphoria. As composições de Labrinth não funcionavam apenas como trilha sonora. Elas eram parte da narrativa, ajudando a construir identidade, emoção e atmosfera. Sua saída é sentida imediatamente.
A temporada continua visualmente sofisticada, mas perde uma das características que a diferenciavam de praticamente qualquer outra série adolescente da televisão. Existe algo estranho em assistir Euphoria sem sentir que a música está acompanhando emocionalmente seus personagens.
O episódio final lembra o que Euphoria já foi
Apesar das críticas, o episódio final entrega alguns dos momentos mais emocionantes da temporada. Após sobreviver a tantos traumas, o público começa a acreditar que Rue finalmente encontrará algum tipo de redenção, mas a série escolhe outro caminho.
Sua morte por overdose de fentanil ecoa diretamente a tragédia envolvendo Angus Cloud, intérprete de Fezco, morto em 2023 pela mesma substância. Mais do que uma homenagem ao ator, a decisão relembra uma crise que continua tirando milhares de vidas todos os anos nos Estados Unidos.
Rue não escolhe morrer. Ela é vítima de uma troca criminosa de medicamentos, tornando seu desfecho ainda mais doloroso. A partir daí, a temporada entrega seu arco mais emocional através de Ali. Determinado a fazer justiça pela amiga, ele elimina Alamo e segue rumo à Rua Jerusalém, a “terra prometida” que Rue nunca conseguiu alcançar.
A sequência final é impulsionada por uma atuação extraordinária de Colman Domingo e consegue resgatar parte da humanidade que faltou ao restante da temporada. Ainda assim, sua construção soa um pouco corny. A família reunida em oração, a bandeira americana ao fundo e a frase “May God save us all” funcionam como a canetada final de Sam Levinson sobre o estado da sociedade americana.
Conclusão
Euphoria continua sendo uma das séries mais visualmente impressionantes da televisão contemporânea. O elenco segue excelente. A direção continua ambiciosa. E poucos programas conseguem gerar tantas discussões quanto ela, mas a temporada final também expõe os limites da fórmula criada por Sam Levinson.
Quanto mais a série tenta chocar, mais ela se afasta dos personagens que fizeram o público se apaixonar por ela. No fim, Euphoria permanece fascinada pelos mesmos temas de sempre: sexo, drogas, fama, violência e autodestruição. A diferença é que, desta vez, parece ter menos coisas novas a dizer sobre eles.
E talvez seja justamente por isso que seu episódio final funcione tão bem. Por alguns instantes, ele nos lembra de algo que a série parecia ter esquecido ao longo do caminho: o que realmente importava nunca foi o choque, mas as pessoas que estavam vivendo através dele.
