Entre luzes estroboscópicas, batidas eletrônicas e amizades levadas ao limite, Anton Antoniadis surge como um dos grandes destaques de La Ruta, produção da Atresmedia exibida na Antena 3. Mais do que revisitar a explosão cultural da “Ruta do Bakalão” em Valência nos anos 80 e 90, a série se tornou um retrato sensível sobre juventude, liberdade e as cicatrizes invisíveis do hedonismo, e Antoniadis é peça-chave nessa engrenagem emocional.
Nascido em Moscou, com ascendência russa e grega, criado na Espanha em um lar russo e formado entre o sistema britânico e a escola americana, Anton carrega no próprio corpo uma geografia emocional múltipla. Hoje radicado em Madrid, ele traduz essa bagagem multicultural em atuações marcadas por nuance, densidade e uma percepção quase cirúrgica das contradições humanas.
Uma geração em cronologia inversa
La Ruta aposta em uma estrutura narrativa ousada: começa pelo fim do movimento e caminha de trás para frente, revelando como sonhos e excessos moldaram, e por vezes destruíram, aquele grupo de amigos. A ambientação na cena eletrônica de Ibiza e Valência serve de pano de fundo para algo mais profundo: a anatomia emocional de uma geração.
Anton interpreta um personagem que sintetiza as ambiguidades da época: bravata e vulnerabilidade, lealdade e ambição, euforia coletiva e solidão íntima. Sua atuação ancora o espetáculo visual da vida noturna em conflitos profundamente humanos.
“Há uma maturidade e sensibilidade raras no roteiro”, comenta o ator. “E somar isso ao universo de Ibiza e da música eletrônica… foi um presente.”
O olhar de quem viveu entre culturas
A trajetória migratória de Antoniadis não é apenas biográfica, é ferramenta de trabalho. Ter nascido em Moscou, crescido na Espanha e estudado no Reino Unido o fez perceber desde cedo que valores, comportamentos e conflitos mudam conforme o idioma e o contexto.
“Estar profundamente envolvido em várias culturas ajuda a entender a importância da nuance e da especificidade no comportamento humano”, afirma. “Você sente quando está na superfície das coisas e quando está realmente tocando algo verdadeiro.”
Essa percepção aparece de forma contundente quando ele fala sobre liberdade, tema central de La Ruta. Para ele, existe uma diferença clara entre a ideia juvenil de liberdade e a maturidade emocional.
“A liberdade jovem é fazer o que você quer, quando quer, sem lidar com consequências. Mas, ao amadurecer, você entende que liberdade é um estado interno. É encontrar pertencimento dentro de si.”
Juventude analógica vs. juventude digital
Ao refletir sobre se a juventude atual vive uma “nova Ruta”, Anton pondera. Para ele, a cena dos anos 80 e 90 era sobre libertação, comunidade e também escapismo. O mundo digital oferece sedação e conexão, mas muitas vezes superficial.
“O aspecto físico é essencial. O toque, a vibração, sentir consequências reais, o senso de perigo, tudo isso é mais importante do que imaginamos.”
Em tempos de hiperconectividade, a fala ressoa como crítica sutil e convite à reflexão: o que perdemos quando a experiência vira apenas tela?
De Almodóvar a Netflix
Além de La Ruta, Anton vem construindo uma carreira internacional consistente. Ele participou do elenco de The Room Next Door, dirigido por Pedro Almodovar, onde contracena com Julianne Moore e Tilda Swinton. Sobre trabalhar ao lado de atrizes desse calibre, ele é direto: “A profissionalismo impecável e a tranquilidade que vêm de dominar sua arte.”
Seu currículo inclui ainda participações em The Mallorca Files (BBC), Warrior Nun (Netflix) e Bookish (PBS). Em breve, ele estará na nova produção espanhola da Netflix, Aquel.
Apesar da ascensão internacional, Antoniadis mantém os pés no presente, e no processo. Quando questionado sobre o momento em que pensou “agora sou um ator de verdade”, responde com ironia lúcida: “Esse é um pensamento que volta várias vezes na vida de um ator.”
O custo emocional da liberdade
Se La Ruta fala sobre excessos, Anton prefere falar sobre consequências. Para ele, existe um custo emocional alto quando se persegue a liberdade juvenil baseada apenas no prazer imediato.
“Ações têm reações. Seu bem-estar está ligado aos outros. Você não pode viver apenas baseado em prazeres hedônicos sem consequências.”

Talvez seja essa consciência que torne sua atuação tão magnética: Anton não julga seus personagens, mas os entende por dentro. E, no fim, se seu personagem pudesse assistir à própria trajetória de trás para frente?
“Provavelmente sentiria o que todos sentimos ao ver nossas vidas em retrospecto: ‘agora tudo faz sentido’.”
Leia a entrevista completa com Anton Antoniadis abaixo
Anton, você nasceu em Moscou, cresceu na Espanha em um lar russo e estudou no sistema britânico. Como esse deslocamento constante moldou a maneira como você enxerga os personagens que interpreta?
Anton: Estar tão profundamente envolvido em várias culturas ajuda você a entender a importância da nuance e da especificidade no comportamento humano. Vivenciar como a gente muda ao falar diferentes idiomas, ou perceber como a herança cultural molda sua visão de mundo, pode servir muito ao ator quando se trata de habitar diferentes pessoas de forma autêntica. Acho que você meio que sente quando está apenas na superfície das coisas e quando está realmente tocando algo verdadeiro.
Você acha que atores com trajetórias migratórias têm uma sensibilidade diferente quando se trata de compreender conflitos humanos?
Anton: Acho que todos somos humanos e vivenciamos uma natureza humana universal; no entanto, existe um elemento importante de diferença entre culturas que pode ser difícil de entender se não houver experiência direta com isso. As pessoas tendem a pensar que todos fora delas compartilham os mesmos princípios e valores por padrão, mas isso está longe de ser verdade.
Sim. E, sua primeira experiência como ator foi aos 17 anos, em uma produção escolar. Você descreve esse musical como um ponto de virada. O que exatamente aconteceu naquele palco que mudou o rumo da sua vida?
Anton: Foi uma sensação que eu nunca tinha sentido antes, algo muito empolgante e novo.
Você se lembra do primeiro trabalho após a formatura em que pensou: “Agora eu sou um ator de verdade”?
Anton: Acho que esse é um pensamento que volta várias vezes ao longo da vida de um ator!
Agora falando sobre La Ruta, é uma história sobre excessos, liberdade e as consequências de viver sem freios. O que mais te intrigou naquele universo quando leu o roteiro pela primeira vez?
Anton: A história tinha um tipo especial de maturidade e sensibilidade que é raro encontrar. E, além disso, havia o universo de Ibiza e da música eletrônica… que presente!
Você acha que a juventude de hoje vive uma “nova La Ruta”, talvez menos física e mais digital?
Anton: Não tenho certeza se os jovens estão vivendo a mesma coisa hoje em dia, embora alguns aspectos possam ser comparáveis. A música e a cena do passado eram sobre libertação, autoexpressão, comunidade e também uma forma de sedação e fuga.
O mundo digital certamente pode oferecer, e é singularmente eficaz nisso, sedação e fuga. Ele também dá aos jovens infinitas opções de comunidade, ainda que de maneira majoritariamente superficial, criando pseudoconexões em vez de algo real. Nesse sentido, é possível comparar. No entanto, acredito que o aspecto físico é essencial para a experiência. Estar no mundo real, o toque, a vibração, sentir consequências reais, o senso de perigo, a experiência direta, tudo isso é muito mais importante do que imaginamos.
Boa resposta, Anton! E se o seu personagem pudesse assistir à própria trajetória de trás para frente, como o público faz, o que você acha que ele sentiria?
Anton: Provavelmente sentiria a mesma coisa que a maioria de nós sente ao ver a própria vida ao contrário: “agora tudo faz sentido”.
O que você acha que essa história diz sobre o custo emocional da liberdade?
Anton: Acho que existe uma diferença entre a ideia de liberdade que você tem quando é jovem e a ideia de liberdade que você tem quando fica mais velho. O conceito juvenil de liberdade é fazer o que você quer, quando quer, sem lidar com as consequências, algo como viver apenas baseado em impulsos. Mas, quando, ou se, você amadurece, percebe que liberdade é mais um estado interno. Liberdade é encontrar pertencimento dentro de si mesmo. Liberdade não é buscar fora de si aquilo que você precisa.
Pode haver um grande custo emocional ao tentar alcançar essa ideia juvenil de liberdade, porque é uma ideia ingênua. Ações têm reações, seu bem-estar está diretamente ligado aos outros, e você não pode atravessar a vida agindo apenas com base nos seus próprios prazeres hedônicos sem enfrentar consequências.
Com certeza! E em seu outro projeto, The Room Next Door, você atua ao lado de Julianne Moore e Tilda Swinton. O que você aprende ao observar atrizes desse calibre de perto?
Anton: O profissionalismo impecável e a tranquilidade que vêm de dominar sua arte.
Elas são demais! E você viveu em tantos países e idiomas. Em qual língua você sente que atua com mais verdade?
Acho que realmente depende da situação. Algumas experiências de vida eu só tive em um idioma específico, como a relação com meus pais, então provavelmente existe uma verdade mais profunda naquele contexto específico, ou pelo menos um acesso mais fácil a ela.
E quais são seus próximos projetos? Pode compartilhar mais sobre eles?
Anton: Vou participar de uma próxima série espanhola da Netflix chamada Aquel.
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Em ascensão constante e com novos projetos no horizonte, Anton Antoniadis segue expandindo fronteiras, geográficas e artísticas, sem perder aquilo que considera essencial: a honestidade no processo e a profundidade nas emoções.
