Martin Garrix transforma sua turnê pelo Brasil em uma experiência cultural completa, com sets marcantes, remix de funk, vivência brasileira e shows históricos no país.
Martin Garrix não só tocou no Brasil, ele viveu o Brasil
A turnê de Martin Garrix pelo Brasil, entre o fim de dezembro e o início de janeiro, foi além da música. Não se tratou apenas de uma sequência de shows com grandes estruturas e pistas lotadas, mas de uma passagem em que o DJ holandês se permitiu viver o país, absorver a cultura local e transformar essa vivência em energia no palco.
Foram apresentações em Belo Horizonte (27/12), Guarujá (28/12), Amoré/Recife (29/12), Rio de Janeiro (30/12), Valinhos (31/12), Guarapari (02/01) e Florianópolis (03/01). Em todas elas, Garrix entregou sets longos, na média de duas horas e meia, mantendo um padrão alto de intensidade, leitura de pista e envolvimento emocional.
Uma turnê com identidade: sets parecidos, mas longe do automático
Como é comum em turnês desse porte, Martin Garrix trabalhou com uma espinha dorsal semelhante em praticamente todas as datas. A diferença esteve nos detalhes. A ordem das músicas mudava, alguns edits eram estendidos, outros surgiam de surpresa, sempre em resposta direta ao público.
O set percorreu diferentes fases da carreira: dos clássicos que o projetaram globalmente, como Animals, Turn Up The Speakers e Virus, passando por faixas que marcaram transições importantes, até músicas mais recentes como Voodoo, Limitless, Carry You e a colaboração com o Citadelle, que apareceu em momentos estratégicos da noite.
Em alguns shows, o próprio Citadelle subiu ao palco para dividir o momento com Garrix, reforçando a proposta artística por trás dessa parceria. A exceção foi o P12, onde o duo não participou do set principal, apesar de ter entregado uma abertura extremamente bem recebida, marcada por simpatia e conexão genuína com o público.

Citadelle, STMPD e o contraste de propostas no palco
A presença do Citadelle ao longo da turnê também ajudou a revelar o momento atual de Martin Garrix como curador artístico. O duo francês trabalha uma eletrônica mais melódica e atmosférica, focada em progressões emocionais e menos dependente de drops explosivos.
Dentro de sets altamente energéticos, essas faixas funcionaram como respiros, pausas sensoriais que exigem mais atenção da pista. Para parte do público, foi um convite à imersão. Para outra, um contraste que fugiu da expectativa de impacto constante. Ainda assim, a escolha diz muito sobre a identidade que Garrix vem construindo para além do EDM mais óbvio.
Ao dividir o palco com o Citadelle, ficou clara a sinergia criativa entre eles. Não se trata de agradar pela facilidade, mas de ampliar o espectro emocional da experiência ao vivo.
Jack Orley e a construção da pista
Outro nome que apareceu como peça importante nesse ecossistema foi Jack Orley. Representando uma vertente mais direta e funcional do house dentro da STMPD, ele cumpriu um papel claro nos eventos: preparar a pista, manter a energia em movimento e criar a base ideal para a grande atração: Garrix.
Enquanto o Citadelle trabalha atmosferas e tensão, Jack Orley aposta em grooves retos e eficientes, pensados para o dancefloor. Essa diferença de linguagem ajudou a evidenciar a diversidade sonora da STMPD, nem sempre homogênea, mas complementar dentro da narrativa da noite.
Funk brasileiro no set e conexão real com o país
Um dos momentos mais simbólicos da turnê foi a inclusão, em todos os shows, de um remix do funk Posso Até Não Te Dar Flores. A faixa apareceu de forma natural no set e funcionou como ponte direta entre o EDM global e a cultura brasileira. A resposta do público foi imediata, reforçando que a conexão de Garrix com o Brasil não ficou restrita ao palco. Além disso, a música entrou para o Spotify global e ocupa o 1º lugar no Spotify Brasil, após o remix.
E falando em conexão com o Brasil, o DJ teve tempo para viver a cidade fora dos eventos. No dia 1º de janeiro, durante a folga no Rio de Janeiro, Garrix visitou comunidades, subiu o Vidigal de moto, comeu feijoada e jogou futebol. Em Recife, aproveitou para explorar a região, andar de buggy e conhecer um pouco mais da cultura local. Essa vivência refletiu diretamente na leveza e entrega emocional dos shows seguintes.
Belo Horizonte: energia, história e reencontro
O show de 27 de dezembro, no Clube 415, em Belo Horizonte, foi um dos grandes destaques da turnê. Sold out, marcou a segunda passagem de Martin Garrix pela capital mineira, muitos anos após sua estreia no Carnaval do Bem.
Dessa vez, BH recebeu um show solo completo, com pista cheia do início ao fim e uma leitura de público impecável. A conexão com a galera mineira colocou essa noite entre as mais fortes de toda a passagem pelo Brasil.
Guarujá: entrega total e um dos pontos altos do giro
No dia 28 de dezembro, em Guarujá, Garrix entregou um show tecnicamente sólido, com excelente estrutura e um público que respondeu intensamente a cada virada do set. Foi ali que a turnê mostrou um equilíbrio quase perfeito entre produção, repertório e energia coletiva.

Valinhos (Laroc): um set histórico que salvou a virada
O show da virada do ano, em Valinhos, na Laroc, foi especial em vários sentidos. Primeira vez de Garrix no local, evento extremamente aguardado e uma expectativa alta que se confirmou em um set poderoso, emocional e muito bem construído.
Mesmo com problemas graves de organização, áreas alagadas e dificuldades para alimentação, o show foi tão forte que praticamente sustentou o evento. A pista permaneceu animada durante todas as duas horas e meia. Em interação direta, fora do discurso de palco, o próprio Garrix comentou que considerou o show da Laroc um dos melhores da turnê. Gostou de todos, mas destacou Valinhos e Guarujá como um dos momentos mais especiais.
Rio de Janeiro e Guarapari
No Rio de janeiro havia um público bem internacional e achamos pouca entrega da galera. Entre todos, esse foi o que menos marcou. Já em Guarapari, a chuva intensa poderia ter comprometido tudo, mas o público transformou o cenário em algo surreal, com entrega acima da média. Afinal, no Brasil tudo é com emoção, né?!
P12, público internacional e o “CPF brasileiro”
No P12, foi o último show da turnê com organização impecável e um público majoritariamente internacional, que deram um clima diferente ao evento. O único problema foi realmente o espaço reduzido, que limitou um pouco a visão do palco, mas a energia se manteve alta. O momento mais simbólico aconteceu quando Garrix mostrou que havia “ganhado um CPF”, reforçando o quanto já se sente parte do país. Cidadão honorário que fala?
Conclusão: shows acima da média e um artista mais próximo do Brasil
A turnê brasileira foi realizada por meio de uma parceria entre a So.Connected e a Bulldozer Network, duas forças importantes do entretenimento eletrônico. A colaboração foi responsável por viabilizar a estrutura, a logística e o padrão de produção que acompanharam o artista ao longo das diferentes cidades, garantindo consistência entre os eventos e permitindo que a experiência se mantivesse no mesmo nível do início ao fim do giro. Ao final, fica claro que Martin Garrix viveu um momento especial no Brasil. Musicalmente consistente, culturalmente conectado e emocionalmente presente, ele entregou uma sequência de shows fortes, com destaque absoluto para Belo Horizonte, Guarujá e Valinhos.
Mais do que tocar, Garrix viveu o país. E isso fez toda a diferença.
