A passagem de Dua Lipa por São Paulo, com sua Radical Optimism Tour, não foi apenas a apresentação de uma estrela internacional em um grande estádio. Foi um gesto consciente de como a cultura deve ser tratada quando um artista de alcance global pisa em um país como o Brasil, um país que, apesar de sua potência musical, ainda recebe muitas vezes versões reduzidas de espetáculos, discursos apressados e interações superficiais. Dua fez o oposto: mostrou que respeitar a cultura local não é luxo, não é adereço e não é capricho. É postura. É ética artística. É reconhecimento.
O show no MorumBIS, que ficou lotado mesmo sem ter sido oficialmente marcado como “sold out”, provou algo que por muito tempo artistas estrangeiros subestimaram: o público brasileiro move montanhas por quem o respeita. E Dua Lipa entendeu isso com precisão rara.
É natural que a turnê tenha uma ênfase grande nas músicas de seu mais recente trabalho, afinal, é uma turnê para promovê-lo. Mas o interessante é que ela não abandonou seus hits antigos (como “New Rules”, “Don’t Start Now” etc.).
Trazer a turnê completa é mais que logística, é respeito
Ao trazer toda a estrutura da turnê, sem cortes, sem reduções e sem adaptações “para baratear”, ela fez o que deveria ser o básico, mas que se tornou extraordinário: entregou o espetáculo em sua totalidade. Isso tem um peso simbólico enorme. Não se trata apenas de cenografia ou bailarinos. Trata-se da mensagem: “Vocês merecem o melhor.”
Esse gesto é particularmente relevante num país em que o público paga valores altos, muitas vezes mais altos que os praticados na Europa, e, ainda assim, convive com a frustração de receber espetáculos diminuídos. Dua rompeu essa lógica.
Uma artista que estuda o lugar onde pisa
Dua não parou na estrutura, ela foi além. A diva estudou, se preparou, ensaiou e se comprometeu. Ao falar em português, não apenas palavras soltas, mas frases inteiras, emoções articuladas, ela mostrou que não estava no piloto automático. E aprender português não é tarefa simples: exige treino, exige intenção. Ela poderia ter falado em inglês, mas escolheu o caminho difícil, porque também escolheu o caminho verdadeiro.
A mesma intenção se manifestou em sua relação com a música brasileira. Convidar Caetano Veloso e Carlinhos Brown para cantar não é um movimento estético; é um movimento histórico. Ela não escolheu artistas “simpáticos ao pop”, ou nomes fáceis que impressionam apenas internacionalmente. Escolheu dois pilares que representam, simultaneamente, a sofisticação poética e a força percussiva afro-brasileira. Escolheu artistas que contam a história do Brasil através da voz, da palavra, do corpo, do ritmo.
E, ao cantar Magalenha e Margarida Perfumada, ela não esteve apenas celebrando: esteve aceitando o convite de entrar, com respeito, na casa de outra cultura. E esse gesto não é menor, é profundo.
Quando um artista mundialmente reconhecido demonstra esforço genuíno para se conectar com o lugar onde está, estudando a língua, aprendendo passos de dança brasileiros, chamando referências locais, entendendo a importância dos nomes com quem divide o palco, valida, diante do mundo, a riqueza cultural desse país.
Para o público, esse reconhecimento tem um efeito imediato: cria emoção, cria pertencimento, cria memória. Mas, culturalmente, o impacto é ainda maior. Artistas como Dua Lipa ajudam a deslocar a percepção internacional sobre o Brasil, que frequentemente é reduzido a estereótipos, samba, carnaval, futebol, ignorando a complexidade e a diversidade da música brasileira.
Ao colocar Caetano e Brown num palco pop global, Dua não só amplia o alcance desses ícones; ela solidifica a importância deles na narrativa da música mundial. E tudo isso aconteceu diante de um estádio cheio, vibrante, entregue. O público sentiu que estava diante de algo raro: uma artista internacional que não estava ali apenas para performar, mas para compartilhar.
A presença de Shawn Mendes e da família de Dua Lipa
A plateia também contou com a presença de Shawn Mendes, curtindo cada minuto no House Mix, e da família inteira da Dua, que testemunhou a importância histórica dessa noite. Essa combinação reforça o peso do show: era um evento que nem artistas queriam perder.
Por que isso tudo importa, e por que deveria ser o padrão
Artistas internacionais têm dinheiro para isso. E o público brasileiro paga preço equivalente a shows da Europa e dos EUA. Logo, o mínimo é entregar tudo. Mas Dua entregou tudo e mais: conhecimento, valorização cultural e intenção genuína.
Conclusão
O show de Dua Lipa em São Paulo não foi apenas um espetáculo impecavelmente coreografado. Foi uma aula, de arte, de respeito cultural e de como o pop, quando quer, pode ser mais do que entretenimento: pode ser ponte, pode ser diálogo, pode ser transformação. E, sem contar, a interação da diva com seus FC’s que entregam tanto trabalho, né? Vamos dar o anjo para ela!
