Depois de se consolidar de vez como uma das principais vozes do pop atual com Short n’ Sweet, lançado há menos de um ano, Sabrina Carpenter decidiu não esperar muito para entregar um novo capítulo da sua carreira.
Man’s Best Friend chega carregado de polêmica antes mesmo da primeira faixa tocar: a capa ousada, que brinca com o imaginário do “male gaze”, dividiu opiniões, gerou manchetes e fez com que a própria Sabrina respondesse com ironia, divulgando versões alternativas “approved by God”. Se por um lado a arte provocativa sugeria um álbum agressivo e transgressor, o que encontramos é um trabalho mais sofisticado e afiado, que aposta no humor, no sarcasmo e na habilidade de transformar observações sobre relacionamentos e masculinidades em pequenas crônicas pop irresistíveis.
SOBRE O ÁLBUM
Musicalmente, o disco mantém a parceria com Jack Antonoff, que assina a produção com sua marca registrada: arranjos limpos, beats contidos e uma paleta sonora que mistura pop açucarado, pitadas de disco-funk, folk moderno e R&B de atmosfera noturna. O mais interessante é que, em vez de inchar os refrões para criar hinos explosivos, Antonoff abre espaço para que a voz e o timing cômico de Sabrina conduzam as músicas. O resultado? É um álbum que soa íntimo, como se a artista estivesse narrando uma comédia romântica em tempo real, mas sempre com a esperteza de quem sabe rir de si mesma e, sobretudo, dos outros.
ANÁLISE DAS FAIXAS
“Manchild” é a faixa de abertura e, de certo modo, o manifesto do álbum. Embalada por um pop leve de melodia quase inocente, Sabrina descreve o homem imaturo com versos afiados que transformam a frustração em piada. É uma canção que estabelece o tom do projeto: ela não está interessada em lamentar, mas em expor comportamentos com ironia e charme. O contraste entre a doçura da melodia e a acidez da letra é o que dá força à faixa e define a persona que atravessa todo o disco.

Mas é em “Tears” que Sabrina atinge um dos pontos mais altos. A música parte de um arranjo com nuances de disco-funk e sintetizadores cintilantes para explorar um tema improvável: a erotização do homem que faz o básico. No lugar do clichê do bad boy, o objeto de desejo aqui é aquele que é emocionalmente disponível, que chora, que se importa. Sabrina transforma o “homem responsável” em fetiche, e o faz de forma engraçada e inteligente, quase como se estivesse desmontando em versos os padrões do imaginário feminino imposto pela cultura pop. É um daqueles momentos em que a piada é ao mesmo tempo cômica e política, e fica ainda mais memorável pela forma como o refrão gruda de imediato.
Outro destaque é “My Man on Willpower”, que brinca com a fadiga das narrativas masculinas de autocontrole e disciplina. A faixa soa como um ensaio irônico sobre o culto da autoajuda e da força de vontade, transformando o tédio da contenção em uma canção teatral.
“We Almost Broke Up Again Last Night”, por sua vez, captura o ciclo vicioso dos relacionamentos iô-iô, mas embalado por um folk pop que soa quase como uma entrada de diário, o que dá uma camada de autenticidade à sua narrativa.
Se há uma música que traduz a essência debochada do álbum, essa é “Go Go Juice”. Com backing vocals de galera e um refrão explosivo, a faixa simula a catarse de uma noite cheia de drinks, com mensagens erradas enviadas no calor do álcool e uma energia caótica que Sabrina transforma em espetáculo pop. É divertida, pegajosa e despretensiosa, e talvez seja o momento em que o disco se aproxima de algo maior que ele próprio: o registro de uma geração que ri dos seus próprios tropeços enquanto dança. Não por acaso, muitos críticos apontaram essa faixa como o ápice do álbum.
“When Did You Get Hot?” é outro exemplo de como Sabrina sabe capturar situações banais e transformá-las em música pop. O groove minimalista do R&B dá o tom para uma letra que mistura surpresa, desejo e uma dose de absurdo cômico, confirmando que o talento dela está menos em criar narrativas épicas e mais em flagrar pequenos momentos de estranheza e encanto do cotidiano. Já em “Never Getting Laid”, o humor surge com delicadeza acústica: a despedida de um relacionamento vem carregada de ironia, mas sem deixar de soar doce.
CONCLUSÃO:
O grande mérito de Man’s Best Friend está na coerência com que Sabrina sustenta a persona que vem construindo desde seus últimos trabalhos. Aqui, ela reafirma que é, talvez, a popstar com o melhor timing cômico da geração. Suas músicas não são apenas refrões chicletes, mas também comentários rápidos e inteligentes sobre relações, masculinidades e poder, sempre embrulhados em melodias acessíveis e irresistíveis. Ainda que em alguns momentos o álbum pareça contido demais, principalmente para quem esperava algo tão provocador quanto a capa, o resultado é um projeto divertido, engraçado e consciente de si.
Mais do que um disco de hits, Man’s Best Friend é a consolidação de Sabrina Carpenter como artista que entende o pop não apenas como som, mas como narrativa. Ela brinca com expectativas, controla o próprio escândalo e, acima de tudo, mostra que rir pode ser um ato de poder. Ao fim, a sensação é a de ter assistido a uma comédia romântica de alto orçamento: leve, cativante e, ao mesmo tempo, cheia de frases de efeito que ficam na cabeça muito depois de a música acabar.
Sabrina não se coloca como musa inalcançável, mas como a amiga divertida que transforma o drama em piada, e é exatamente aí que mora sua força.
