Florian Picasso mergulha no underground com o EP Booty. Em entrevista exclusiva, ele fala sobre liberdade criativa, ruptura estética e o futuro da Dekadence.
Entre o legado de um sobrenome histórico e as imposições da indústria em geral, Florian Picasso decide abrir caminho próprio. Com o EP Booty, lançado pela Diynamic Music — selo comandado por Solomun — o artista franco-vietnamita rompe de vez com o som comercial que o projetou globalmente e abraça, com convicção, o underground europeu. Mais do que um novo capítulo: trata-se de uma reconstrução estética, emocional e política da sua identidade artística.
A nova fase de Florian não é apenas sonora — é uma afirmação consciente sobre o papel da liberdade criativa dentro da música eletrônica. Ao longo da carreira, especialmente nos momentos mais comerciais, ele sempre esteve atento aos limites que lhe eram impostos. Agora, o discurso é outro. Livre das expectativas alheias, ele apresenta faixas como Till I’m Dead, Karaoke Corner, Booty, Sissy Walk e Sugar Daddy, que funcionam como um guia estético desse novo momento: sombrio, ácido e afirmativo.
Essa guinada, como ele próprio pontua, foi também uma forma de validação pessoal. Há tempos a Diynamic estava no seu radar, mas os questionamentos internos e externos dificultavam a transição. Durante muito tempo, ouviu que não poderia mudar de gênero “assim, de repente”. A resposta veio em forma de ação. Para Florian, um produtor de verdade deve dominar as nuances entre o downtempo e o techno, respeitando códigos sonoros e narrativos. Booty, embora mais lento do que outros trabalhos seus, é coeso, direto e, sobretudo, honesto.
Conversamos com o artista sobre diversos assuntos e, em uma era em que o som costuma ser guiado por estatísticas e estratégias de mercado, Florian opta pelo risco como princípio estético. Quisemos entender: o que significa, hoje, ser ousado na música eletrônica?
Confira a entrevista abaixo:
Florian, vamos começar falando sobre seu novo EP “Booty”, lançado em junho. Você sente que está finalmente assinando uma música que te representa integralmente — sem concessões?
Florian: Totalmente. Esse EP foi muito importante pra mim porque foi um selo de validação. Eu tinha a ‘Diynamic‘ (gravadora de Solomun) no radar há muito tempo. No último ano, venho tocando mais coisas no limite entre o hard dance e o techno, mas meu antigo time sempre dizia: ‘Você não pode mudar de gênero assim’. Mas eu acredito que, se você é um produtor forte, pode ir do down tempo ao techno, desde que respeite os códigos sonoros. Mesmo no EP ‘Booty’, que é mais lento do que outras faixas que lancei antes, ainda é coeso. Eu queria quebrar os estereótipos de ‘ah, você tá nesse selo, então tem que tocar x BPM’. Solomun e a equipe dele sabiam o que eu queria fazer. Eles entenderam que eu estava evoluindo para outro tipo de som, e me deixaram livre para me expressar. Isso é raro de encontrar.
Esse trabalho é apresentado como um divisor de águas, um rompimento. Para você, o que é ser ousado hoje na música eletrônica, em tempos de saturação estética e algoritmos?
Florian: Significa ser livre. Liberdade é um luxo que nem todo mundo pode bancar. Ou é uma escolha ou tem a ver com medo ou questões políticas maiores, como o gerenciamento. Eu disse que não ia fazer concessões — e é isso que faço. Claro, eu tenho uma equipe incrível, que me ajuda a brilhar, mas é essencial me sentir livre na arte. Já trabalhei com A&Rs (departamento de gravadoras que atuam como elo entre artistas e a empresas) que pedem muitas mudanças, então a música vai da versão 1 até a 10, e no final preferem a versão 1. Ou seja, volta à versão inicial. É bom quando trabalhamos com pessoas que nos dão liberdade. Com o selo Hot Meal Records, por exemplo, eles não pediram nenhuma alteração. E com o Solomun, de três faixas, só pediram para remover um som. É com esse tipo de gente que quero continuar trabalhando, que respeita o que estou fazendo.
“Karaoke Corner” tem esse nome curioso, quase contraditório com o som sombrio da faixa. Qual é a origem desse título? Existe ironia? Algum lugar real inspirou a música?
Florian: Não, foi totalmente aleatório! Essa música é especial porque tentei algo mais próximo do house. Não chega a ser acid house, mas tem uns 5% de sintetizadores ácidos ali. Trabalhamos bastante na letra, que é super dark, sombria mesmo. E aí chegamos no drop e pensamos: ‘Karaoke Corner’. Nada a ver com os outros versos da música, mas funcionou muito bem! Foi totalmente aleatório… e por isso fez todo o sentido (risos).
E eu estou curiosa pra saber por que “Booty” é sua faixa favorita do EP? O que ela representa pessoalmente para você?
Florian: As letras são divertidas. É uma daquelas faixas boas pra tocar no meio do set, quando estou indo de um ritmo mais lento para algo mais pesado. Tenho investido muito em composição — escrever é chave pra mim. Tento sempre trazer letras divertidas e que não são clichês. Essa é a vibe: animada, leve, brilhante, perfeita pra festival. E o melhor: as pessoas decoram! Tipo ‘shake that booty’, é engraçado ver todo mundo dançando, sacudindo o bumbum. Pode até parecer meio brega, mas a produção faz funcionar. É autêntica, e é isso que importa.

Falando agora sobre “When I Saw U”. Como foi o processo de destruição e reconstrução criativa até chegar ao som final da faixa?
Florian: Essa faixa é bem direta. Poucos elementos, mas cada um deles tem impacto. O kick é muito forte, o lead com órgão é poderoso, e tudo se encaixa com a letra chiclete. A gente sempre começa com a música, não usamos muitos samples nem loops prontos. É tudo nosso, autêntico. O foco é a canção, depois a produção gira em torno dela.
A DEKADANCE começou como coletivo e virou movimento — o que você acha que esse crescimento diz sobre a necessidade contemporânea de espaços de expressão radicais e coletivos?
Florian: Acho que faltava inclusão. Nunca fazemos line-ups só com homens. Sempre tem pessoas queer, diversidade real, mas sem ficar gritando isso em descrição de rede social. A gente faz, em silêncio, e é mais impactante assim. Tem lugares que promovem muito a inclusão, mas nosso foco não era usar isso como estratégia de marketing. Queríamos apenas pregar isso de verdade. A gente valoriza cenas locais, DJs da cidade, pessoas autênticas. Não seguimos um ‘manual’. E também tentamos manter os ingressos acessíveis – às vezes gratuitos. Hoje em dia, o dinheiro está poluindo a música, o mercado está difícil para os promotores e para o público. Um ingresso de 50 euros é um absurdo. Nosso foco agora é voltar à raiz, deixar de depender de headliners e criar um movimento. Quando você só atrai público com grandes nomes, uma festa com DJs locais não lota. A gente quer mudar isso.
E sim, momentos inesperados não faltam nos eventos da Dekadence:
Florian: Ah, a polícia de Londres sempre aparece (risos). A gente tem permissão, mas fazemos em garagens, com carros em volta, parece o filme ‘Need for Speed’. Já aconteceu de uma das TVs antigas dos anos 70 que usamos para projeções pegar fogo no meio do set! Ninguém se machucou, mas foi louco. Compramos essas TVs no eBay, mandamos pra um laboratório 3D e adaptamos pra colocar iPads dentro delas. Agora está seguro!
A crítica ao modelo tradicional de festas é clara: a lógica de depender exclusivamente de headliners internacionais para atrair público não apenas limita a programação como também enfraquece a cena local. Em vez de seguir esse roteiro saturado, Florian e sua equipe apostam na construção de uma cultura de pista mais orgânica — onde o valor do ingresso não seja uma barreira e onde DJs locais tenham espaço real para protagonizar. A proposta é simples, mas ousada: reeducar o público, fortalecer o underground e recuperar o sentido de comunidade que fez a música eletrônica florescer em tantas partes do mundo.
Dia 11 de julho você lançará seu novo single “Sissy Walk”, ela parece carregar uma conotação cultural forte. Qual é a narrativa por trás da faixa e que tipo de celebração ou afirmação ela representa?
Florian: É uma declaração. O nome diz tudo: “Sissy Walk” é cunty, é empoderado, é elegante. Essa faixa é pra minha equipe — são seis mulheres incríveis que me impulsionam. É uma celebração da atitude de quem chega com classe.

E sobre o que vem por aí nos próximos dias, Florian deixou claro que voltou com tudo!
Florian: Assinei com um time de management grande em Paris. Já temos sete lançamentos programados até o fim do ano. Um deles se chama ‘Sugar Daddy’ — esse é gigante! Eles também gerenciam o I Hate Models, têm três selos e fazem festas próprias. Meu estilo é versátil, então quero explorar diferentes gêneros dentro do house e techno, sempre mantendo minha essência. Vai ser um ano incrível. Minha equipe está super motivada, e eu também. Estou cheio de músicas fortes, mal posso esperar para o mundo ouvir tudo!
Você já expressou interesse em tocar no Brasil. queremos saber quando podemos esperar por isso?
Florian: Estamos trabalhando nisso. O Brasil precisa de festas como a Dekadence. Sei que aí tem muitos listening bars com vinis e atmosfera linda, mas o verdadeiro techno precisa acontecer. E vai acontecer.
No fim da entrevista, Florian deixou um recado cheio de carinho:
Florian: Obrigado por lerem ou assistirem à entrevista. Espero ver vocês muito em breve no Brasil!
Com sete lançamentos previstos até o fim do ano — incluindo o explosivo “Sugar Daddy” — Florian garante que essa nova fase vem com tudo.
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