ELETRÔNICA ENTREVISTAS MÚSICA

Em entrevista, Citadelle diz que o público brasileiro “não apenas dança, vive a música”

O duo francês transformou sua estreia no país em um momento decisivo da carreira, conectando melodias cinematográficas, grandes palcos e um público que vive a música intensamente.

A primeira vez da Citadelle no Brasil passou longe de ser discreta. Em vez de só clubes intimistas, o duo francês estreou no país em palcos de grande porte, como a Arena Farmasi, no Rio de Janeiro, e o recém-inaugurado Club 415, em Belo Horizonte, integrando a turnê de Réveillon de Martin Garrix e se apresentando em sete cidades brasileiras. Um cartão de visitas à altura de um projeto que vem redesenhando os limites entre o melodic house e o progressive.

Para a Citadelle, viver o Brasil dessa forma foi quase um choque sensorial. A dimensão dos shows e a resposta imediata do público deixaram claro que a música eletrônica aqui não é apenas entretenimento: é sentimento coletivo. Segundo o duo, a experiência foi “surreal” e revelou, logo de cara, a escala da paixão brasileira pela cena eletrônica.

Divulgação | @luansloboda

Essa conexão não demorou a se tornar emocional. Conhecido mundialmente por sua entrega intensa, o público brasileiro se mostrou um elemento ativo do espetáculo. Em vez de apenas dançar, a plateia canta, sente e devolve a energia em forma de coro, movimento e calor humano, algo que marcou profundamente os artistas, especialmente durante faixas mais melódicas. Inclusive, mesmo após 2 semanas, o duo continua revivendo esses momentos em suas redes. Somos inesquecíveis, né?

“Peace of Mind”: o ponto de virada

Um dos momentos mais simbólicos dessa passagem pelo Brasil aconteceu ao som de “Peace of Mind”, colaboração com Martin Garrix que rapidamente se tornou um dos grandes destaques da carreira da Citadelle. Dividir o palco com Garrix enquanto milhares de pessoas vibravam com a música foi descrito como um “momento de ciclo completo”, a recompensa máxima depois de anos de construção artística.

Embora para muitos essa pareça a primeira colaboração entre Citadelle e Garrix, a relação musical entre eles começou ainda em 2020, durante a pandemia, com a faixa “Alive”. As duas músicas, apesar de separadas por contextos completamente diferentes, compartilham o mesmo DNA emocional.

Além dos rótulos

Rotular o som da Citadelle apenas como melodic house é pouco para o que o duo constrói em estúdio. As produções carregam camadas, harmonias e referências que vão da música clássica a trilhas de filmes e videogames, sabia? Para eles, fugir do óbvio não é uma decisão racional, mas algo que acontece de forma intuitiva. A criação começa sempre pelo sentimento, e só depois a faixa ganha forma dentro de um gênero.

Essa abordagem ajuda a explicar por que suas músicas soam familiares e inesperadas ao mesmo tempo, uma combinação que conversa diretamente com pistas grandes, mas também com quem escuta de forma mais introspectiva.

O Brasil como parte da história

A passagem pelo Brasil deixou claro que essa relação está apenas começando. O duo reconhece que ainda há muito a explorar no país e não esconde o desejo de retornar. 2026, segundo os artistas, será um ano de expansão: novos formatos de lançamento, possibilidades mais cinematográficas e uma narrativa ainda mais profunda para o projeto. Se depender da resposta calorosa que receberam por aqui, o Brasil já faz parte definitiva desse próximo capítulo.

Divulgação | @luansloboda | Laroc Club

Confira a entrevista completa abaixo:

Vocês fizeram sua estreia no Brasil não em clubes intimistas, mas em palcos de grande porte, como a Arena Farmasi, no Rio de Janeiro, abrindo os shows de Martin Garrix em sete cidades. Existe algo simbólico em vivenciar um país pela primeira vez diante de multidões tão grandes?

Citadelle: Foi realmente surreal tocar em venues tão grandes como a Arena Farmasi ou o novo e gigantesco clube 415, em Belo Horizonte. Isso nos mostrou de imediato a dimensão da paixão do Brasil pela música eletrônica.

O público brasileiro costuma ser descrito como enérgico e altamente emocional. Vocês sentiram isso de perto durante a passagem pelo país? Como definiriam essa experiência no Brasil?

Citadelle: Já tocamos para públicos muito diferentes na Europa, mas no Brasil sentimos que a plateia é uma parte ativa da performance. A energia é enorme. Existe uma conexão emocional profunda, especialmente quando tocamos faixas melódicas. As pessoas não estão apenas dançando; elas vivem as letras e as melodias. É uma atmosfera calorosa que volta para nós direto do público. É uma experiência que permanece com você muito depois de sair do palco.

Que bom saber! E tenho que dizer que ‘Peace of Mind’ é, sem dúvida, uma das minhas músicas favoritas atualmente. Estar no palco com Martin Garrix no Brasil enquanto a faixa tocava ao vivo foi um dos pontos altos da turnê. O que esse momento significou para vocês?”

Citadelle: Tocar “Peace of Mind” com o Martin foi, sem dúvida, um dos pontos altos. Ver milhares de pessoas conectadas à música enquanto compartilhávamos o palco com Martin Garrix foi como uma recompensa final, um verdadeiro fechamento de ciclo.

Para quem acompanha de fora, “Peace of Mind” pode parecer a primeira colaboração de vocês com Martin Garrix. Mas essa história começou lá em 2020, durante a pandemia, com “Alive”. Existe um fio conceitual ou emocional que conecta essas duas faixas, mesmo tendo sido criadas em contextos tão diferentes?

Citadelle: Apesar de terem nascido com anos de diferença, elas compartilham a mesma ênfase nas melodias. “Alive” foi criada quando o mundo estava silencioso e isolado; era um chamado por conexão e presença. “Peace of Mind” é a evolução disso: a sensação de finalmente encontrar essa conexão e a tranquilidade interna que vem junto. São dois capítulos da mesma história: um é a busca, o outro é a descoberta.

Incrível. E, o som de vocês costuma ser associado ao melodic house, mas essa definição parece insuficiente diante da riqueza harmônica que vocês constroem. Fugir do óbvio é uma escolha consciente no estúdio ou algo mais instintivo?

Citadelle: Consideramos isso mais intuitivo, porque buscamos muita inspiração inicial na música clássica, em filmes, videogames e em outros artistas. A partir daí, exploramos naturalmente melodias adicionais, camadas e harmonias para tornar a música mais interessante. Não começamos tentando fazer uma faixa “house”; começamos criando algo que simplesmente faça sentido para nós. Só depois moldamos isso de forma mais consciente. Nosso objetivo é que o ouvinte sinta que está descobrindo algo novo e inesperado.

Também sinto que a música eletrônica se move rápido, mas muitas vezes em círculos. Na opinião de vocês, o que ainda não foi verdadeiramente explorado na cena?

Citadelle: É verdade que a música eletrônica costuma se mover em ciclos, assim como acontece na moda, estilos do passado são constantemente reinventados e misturados com novas influências. Ainda assim, acreditamos que sempre haverá espaço para faixas construídas sobre melodias bonitas e atemporais. Sentimos que ainda há muito a explorar na interseção entre Progressive House e Melodic House. Nosso objetivo é criar uma evolução desse som: algo que mantenha a energia do Progressive, mas traga a profundidade e a atmosfera do Melodic House. É sobre encontrar esse “ponto ideal” onde a emoção encontra a pista de dança de uma forma fresca e duradoura.

Boa resposta! Agora falando sobre o single “Calling”, na letra, versos como “I’m out of time, I need saving” revelam um senso muito explícito de vulnerabilidade. Esse chamado é direcionado a alguém específico, a vocês mesmos ou a algo mais abstrato?

Citadelle: Essa urgência é algo mais abstrato, mas que pode ser interpretado de forma pessoal por cada ouvinte. Não se trata de uma pessoa específica, e sim daquele momento universal em que você percebe que não consegue fazer tudo sozinho. É uma entrega à ideia de que todos precisamos de uma força que nos “salve”, seja a música, um parceiro ou um propósito. Fala sobre o medo de ficar sem tempo para se tornar quem você realmente deveria ser.

Bom ponto de vista. Em “Contact”, o lançamento mais recente de vocês, a faixa carrega uma atmosfera quase hipnótica. Como o Agdem ajudou a guiar essa direção sonora? Como foi o processo de colaboração?

Citadelle: O Agdem tem um talento enorme para criar atmosferas hipnóticas. Ele trouxe essa textura vocal mais escura e envolvente, que complementou perfeitamente o bassline pulsante que já estávamos desenvolvendo, além das camadas e melodias ao longo da faixa. Queríamos algo que soasse “noturno”, imersivo e com muita energia.

Gostaria de entender como funciona a tomada de decisões criativas dentro do Citadelle quando surgem discordâncias. Em um duo, as ideias costumam se misturar naturalmente, mas às vezes visões diferentes aparecem. Como vocês lidam com essas tensões criativas?

Citadelle: Somos muito sortudos nesse aspecto, porque nos conhecemos há muito tempo. Crescemos juntos e compartilhamos raízes e influências musicais semelhantes. Como nossos gostos são naturalmente alinhados, na maioria das vezes estamos na mesma página de forma instintiva. Claro que pequenas diferenças de visão podem surgir, mas como confiamos profundamente no julgamento um do outro, lidamos com esses momentos com muita facilidade.

Isso é muito bom, e olhando para 2026, quais são os próximos passos do Citadelle? Vocês pensam em um álbum, uma sequência de singles ou outro formato de lançamento? E depois dessa primeira experiência no Brasil, existe a possibilidade de voltar, talvez para São Paulo?

Citadelle: 2026 parece ser um ano de expansão para nós. Apesar de amarmos o impacto dos singles, também estamos trabalhando em um formato que nos permita explorar toda a amplitude cinematográfica do Citadelle. E sobre o Brasil… com certeza! Sentimos que apenas arranhamos a superfície. Voltar para São Paulo ou fazer mais shows no Brasil está definitivamente na nossa lista de desejos.

Para nossos fãs brasileiros: vocês são incríveis! Obrigado por nos receberem de braços e corações abertos. A todos que nos escutam: obrigado por deixarem nossa música fazer parte da vida de vocês. Temos muito mais para mostrar.

Conclusão

A entrevista reforça o momento de consolidação da Citadelle na cena eletrônica internacional e ajuda a entender por que o duo tem ampliado sua presença em grandes palcos ao redor do mundo. Entre passado, presente e planos futuros, a conversa deixa claro que o projeto segue em constante evolução. Para quem esteve na pista, e para quem acompanhou de longe, fica a sensação de que esse encontro entre melodias e multidões ainda tem muitos momentos a escrever.

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