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Crítica: O Amor Pode Ser Traduzido? e a herança emocional que atravessa gerações

Alerta de Spoilers: Em O Amor Pode Ser Traduzido?, dorama da Netflix, o romance esconde uma narrativa psicológica profunda sobre herança emocional e a necessidade de ser amado.

Netflix estreia O Amor Pode Ser Traduzido?, dorama que combina romance, comédia e uma investigação delicada sobre a linguagem do coração. A trama segue Joo Ho-jin, um intérprete poliglota meticuloso, e Cha Mu-hee, atriz que alcança fama mundial após um acidente e um papel icônico no cinema.

A sequência inicial, Mu-hee subindo a ponte enquanto grava um curta-metragem com Hiro, é, na verdade, cena do mundo fictício dentro da história. Só depois, aos poucos, aprendemos o contexto emocional que levou a protagonista até ali. Essa montagem fragmentada pode parecer lenta ou arrastada para quem espera um romance leve, mas reflete a proposta do dorama: o passado molda cada gesto presente.

A profundidade que muitos chamaram de “ritmo arrastado”

A série dedica tempo para mostrar as feridas da protagonista, e é nessa profundidade que reside o seu valor. Os detalhes das dores de Mu-hee, desde sua infância até os relacionamentos adultos, descortinam, capítulo por capítulo, o porquê de suas atitudes, inclusive o que muitos chamaram de “insistência” amorosa.

Esse detalhamento narrativo pode ser percebido como ritmo lento, mas cada cena tem função psicológica: ela não corre atrás do protagonista, ela anseia por amor porque foi rejeitada repetidamente, e esse anseio é muitas vezes mal interpretado como humilhação. Sua busca não é por um personagem perfeito; é por alguém que a escolha apesar do medo de não ser suficiente.

A insistência dela, é, na verdade, sobrevivência emocional: ela foi condicionada a acreditar que amor requer esforço desesperado e que só existe quando é conquistado a qualquer custo. Isso se torna claro quando a série expõe suas experiências e medo de abandono, uma base emocional que molda toda sua vida adulta.

“Do-ra-mi”: voz interna, não ruído sem sentido

Um dos elementos mais comentados da série é a presença de Do-ra-mi — uma figura que parece uma voz ou projeção. Longe de ser um delírio aleatório, Do-ra-mi representa algo psicológico e simbólico: a internalização de mensagens e medos herdados da infância.

No momento em que a protagonista percebe que essa “voz” está conectada à mãe, que, no enredo, estava viva e teve um papel traumático em sua formação, O Amor Pode Ser Traduzido? revela sua camada mais complexa: afetos não elaborados do passado se transformam em vozes internas que guiam pensamentos e comportamentos no presente.

O medo da protagonista de “se tornar como a mãe”, alguém que ela julgava emocionalmente danificada, paradoxalmente a levou a repetir padrões de ansiedade e dependência. A série fecha um círculo emocional essencial: o trauma só cessa quando olhado diretamente, não evitado.

Joo Ho-jin: interpretar emoções além das palavras

O personagem masculino principal, Joo Ho-jin, é um intérprete excepcional, fluente em diversas línguas, e mesmo assim encontra dificuldade em “traduzir” suas próprias emoções. Isso cria um contraste simbólico riquíssimo: enquanto ele domina as línguas do mundo, Mu-hee busca uma forma de amar que ultrapassa a linguagem literal.

Essa dinâmica reflete o tema central do dorama: amor não é apenas algo que se pode expressar com palavras precisas, é uma experiência que exige compreensão emocional e empatia além da gramática.

Ho-jin não “salva” Mu-hee. Ele a reconhece, a vê com suas feridas e não a corrige nem a molda. Essa diferença sutil é uma das realizações mais bonitas da série: amor verdadeiro não exige que alguém mude quem é, mas que seja visto e aceito por completo.

O final: não um término, mas um recomeço

Muita gente interpretou o desfecho como uma separação entre os protagonistas. Mas, numa leitura aprofundada, percebe-se que a conclusão da série não é o fim de um relacionamento, é a conclusão de um ciclo interno.

Depois de confrontar seu passado e enfrentar a verdade sobre seus pais e suas próprias vozes internas, Mu-hee consegue colocar um ponto final na versão de si mesma movida pelo medo, não no amor. O reencontro com Ho-jin no final é simbólico: ele representa o início de uma nova vida, na qual ela pode amar sem repetir padrões antigos e sem confundir amor com medo e rejeição. Por isso ela precisou “terminar” com ele naquele momento, para poder encerrar esse ciclo e, finalmente, começar um real de verdade.

O amor como língua universal

O título da série, O Amor Pode Ser Traduzido?, funciona como uma pergunta que ecoa por toda a narrativa. No final, a série responde que o amor não precisa ser traduzido porque é uma língua universal, ele não depende de vocabulário, sotaque ou passado: depende de reconhecimento emocional e presença.

Essa é a mensagem mais poderosa do dorama: amor não é algo que precisa ser decifrado ou explicado. Ele pode ser sentido, vivido e compartilhado quando alguém aprende a encerrar ciclos internos que bloqueiam a própria capacidade de amar e ser amado.

Conclusão

Além do mergulho psicológico, O Amor Pode Ser Traduzido? se destaca pelo uso cuidadoso de locações internacionais, que não funcionam apenas como pano de fundo estético, mas como extensões do estado emocional da protagonista. A série percorre cenários como a Itália, com sua atmosfera clássica e contemplativa, e o Canadá, com a presença da aurora boreal.

Ao filmar fora da Coreia, o dorama amplia sua proposta central: o amor pode até atravessar línguas, culturas e fronteiras geográficas, mas só se torna possível quando o indivíduo também atravessa suas próprias barreiras internas.

A série não simplifica nem romantiza dor; o transforma em compreensão. E é por isso que, mais do que falar sobre amor, a série fala sobre o que nos ensina a amar de verdade. E o mais importante, fala sobre herança emocional, sobre repetir padrões familiares e sobre o momento doloroso, e libertador, em que alguém escolhe parar de sobreviver e finalmente aprender a amar.

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