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All Her Fault: a série que usa o suspense para falar sobre maternidade, culpa e controle

Atenção – Contém Spoilers: All Her Fault começa como um thriller sobre desaparecimento, mas revela um estudo psicológico sobre culpa, maternidade e relações abusivas. Confira abaixo!

All Her Fault é uma minissérie de suspense que estreou no Prime Video em novembro de 2025, e é baseada no romance homônimo de Andrea Mara. A trama inicia com o pesadelo de Marissa Irvine (Sarah Snook), cuja vida aparentemente perfeita desmorona quando seu filho, Milo Irvine (Duke McCloud), desaparece depois de uma brincadeira na casa de um colega. A busca pelo menino expõe segredos, culpas acumuladas e mentiras incrustadas em relações que se apresentam como estáveis, mas que estão longe disso.

O roteiro que engana, e depois revela

À primeira vista, All Her Fault parece um suspense clássico sobre um desaparecimento infantil: Marissa e seu marido, Peter Irvine (Jake Lacy), entram na “pior situação possível” para qualquer pai. Mas conforme a história se desenrola, a série revela que o verdadeiro enigma não é apenas quem está com Milo, e sim quem mentiu sobre o que aconteceu, e por quê.

A partir desse mistério inicial, a produção usa a busca por respostas para dissecar temas como: culpa e projeção psicológica, manipulação emocional intra-familiar, papéis de gênero e expectativas sociais sobre mães e a construção social da “loucura”.

Maternidade sobrecarregada: Jenny e Marissa

Enquanto Marissa representa a mãe que tenta conciliar carreira, laços sociais e segurança familiar, Jenny Kaminski (Dakota Fanning) vive um tipo diferente de pressão materna. Ambas são mulheres fortes, porém constantemente avaliadas e julgadas, pela sociedade, pela mídia e por si mesmas.

A série expõe um ponto que muitas narrativas de suspense ignoram: mesmo quando uma mãe desempenha bem seu papel, o peso da culpa está sempre à espreita. Quando algo dá errado, a responsabilidade recai sobre elas com crueldade, como se tudo fosse “tudo culpa dela”. A Jenny trabalha, sustenta a casa junto com o marido e é a principal referência emocional do filho. Ainda assim, é tratada como se cuidar fosse exclusivamente sua função, enquanto o pai aparece como alguém que “ajuda” quando pode.

Esse desequilíbrio não é apresentado como um conflito explícito, mas como algo estrutural. O marido de Jenny, mesmo sendo professor e aparentemente consciente, age como se o trabalho dela fosse secundário e como se ficar em casa fosse uma concessão aceitável. A série expõe, com sutileza, a lógica cruel por trás disso: quando tudo dá certo, é esforço conjunto; quando algo falha, a culpa recai sobre a mãe.

All Her Fault mostra que o peso da maternidade não está apenas nas tarefas, mas na expectativa constante de perfeição.

Peter Irvine: manipulação como identidade

Peter é, de longe, o personagem mais complexo e perturbador, e isso não é acidente. Interpretado por Jake Lacy, ele não é um vilão tradicional de thriller. Peter não impõe controle pela força, mas pela dependência. Desde a infância, ele demonstra necessidade de ser indispensável, criando cenários onde os outros precisam dele para se orientar emocionalmente. Seu discurso é sempre moral: família, proteção, união. Suas ações, no entanto, são marcadas por mentiras graves, sobre a morte do filho, um assassinato e o acidente do próprio irmão.

Essas mentiras não surgem do impulso, mas da estratégia. Psicologicamente, Peter opera através da projeção de culpa: ele comete erros, mas garante que alguém próximo carregue o peso emocional. Assim, preserva a própria imagem enquanto fragiliza quem está ao redor. Ele representa aqueles que precisam ser o eixo emocional da família, mesmo quando corroem quem está ao redor.

Cortesia | Prime Video

Carrie/ Josephine Murphy: trauma vs. patologia

A série também propõe uma crítica incisiva à maneira como a sociedade lida com a saúde mental, especialmente quando o sofrimento foge aos padrões considerados aceitáveis. Carrie (Sophia Lillis), cujo verdadeiro nome é Josephine, é tratada desde muito jovem como instável, louca e desequilibrada. Esse rótulo, inicialmente imposto de fora, aos poucos deixa de ser apenas social e passa a moldar sua própria identidade.

All Her Fault sugere que a chamada “loucura” nem sempre nasce da mente, mas da repetição sistemática de invalidações. Ao ser constantemente desacreditada, corrigida e silenciada, Carrie não perde a razão, ela perde algo ainda mais grave: a confiança na própria percepção da realidade. O que se fragmenta não é sua sanidade, mas sua possibilidade de existir sem ser questionada.

Ao construir essa trajetória, a série levanta uma pergunta incômoda e necessária: em que momento alguém é, de fato, “louco”, e quando essa condição é socialmente fabricada pelo medo, pelo controle e pela recusa em escutar?

Ecos da dinâmica familiar

A série também explora as relações entre figuras secundárias, como:

  • Lia Irvine (Abby Elliott) – a irmã de Peter cuja própria vida carrega cicatrizes e dependências, muitas vezes usadas como justificativa para julgar seus comportamentos;
  • Brian Irvine (Daniel Monks) – outro irmão que se sente preso à necessidade de ser “útil” para Peter;
  • E Colin Dobbs (Jay Ellis) – amigo leal de Marissa e contraste moral ao grupo;

Essas dinâmicas enriquecem a série ao mostrar como diferentes personalidades reagem (ou não) à manipulação, culpa e expectativa social.

Culpa, responsabilidade e o final ambíguo

O final de All Her Fault é instigante justamente porque não oferece limpeza narrativa. Não há vilões simplistas, nem soluções morais fáceis. Quando a irmã de Peter, Lia, se recusa a culpar Marissa pela morte do irmão, ela está interrompendo um ciclo de culpa projetada que dominou as relações familiares por anos. É um dos momentos mais humanos da série: reconhecer que demonizar alguém pode repetir o mesmo dano emocional do qual se tenta escapar.

O desfecho também explora a ideia de que sentir alívio após o fim de uma relação tóxica não é cruel, é psicológico. Essa honestidade emocional é rara em thrillers que, muitas vezes, se prendem ao crime e missões de resolução.

Sinestesia e o erro de confundir diferença com delírio

A condição neurológica compartilhada por Carey e Milon, a sinestesia, funciona na série tanto como elemento narrativo quanto como metáfora social. Ver cores associadas a cheiros ou perceber sons como formas não é sinal de delírio, mas uma variação sensorial real, reconhecida pela neurociência. Ainda assim, All Her Fault mostra como a mesma condição pode levar a destinos psicológicos completamente opostos.

A diferença não está no cérebro, mas no contexto. A série deixa claro que o problema nunca foi a sinestesia em si, e sim o olhar social lançado sobre ela. Ao fazer esse contraste, All Her Fault reforça uma de suas mensagens mais sutis e potentes: não é a mente que adoece primeiro, mas o ambiente que você vivi.

O policial: lei vs. humanidade

No desfecho, All Her Fault faz sua escolha mais incômoda. O policial responsável pela investigação compreende tudo o que aconteceu e, ainda assim, permite que Marissa saia sem punição. Como agente da lei, ele deveria agir de acordo com o código. Como pai, ele entende algo que a legislação não alcança: Marissa não foi a origem do dano, mas o último elo de uma cadeia de culpa e manipulação que começou muito antes.

A série não trata essa decisão como um acerto legal, mas como um dilema moral. Ao deixá-la em pune, o policial reconhece que puni-la seria apenas repetir o padrão que atravessa toda a narrativa: responsabilizar quem já carregou peso demais. O gesto não absolve juridicamente, mas encerra um ciclo de violência emocional. Neste caso, entendemos que, nem toda justiça cabe na lei, e que, em alguns casos, agir de forma humana significa aceitar a ambiguidade. Mas vocês acham que ela deveria ter pago pela morte do marido? Afinal, foi um crime, não?!

O que a série realmente transmite

Muito além de um caso policial, All Her Fault é um comentário incisivo sobre: como a culpa é distribuída de maneira desigual entre homens e mulheres, o peso invisível que mães carregam mesmo quando dão o seu melhor, a forma como pessoas frágeis podem ser rotuladas como “loucas” por uma sociedade que não escuta e como relações manipuladoras corroem a identidade e responsabilidade emocional de quem está preso nelas.

No fim, a série não pergunta apenas quem fez o que. Ela pergunta: quem somos quando ninguém está olhando? Quem nos tornamos sob pressão, e o que escolhemos responsabilizar em nós mesmos e nos outros?

A série pode ser lembrada como um suspense, mas o que ela realmente deixa na mente do espectador é uma reflexão dolorosamente humana sobre culpa, perdão e as narrativas que contamos sobre nossa própria culpa.

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