Em A Rede Social, de 2010, o Facebook nascia num quarto de Harvard, entre cerveja, código e ressentimento. Em O Outro Lado das Redes, ele já é o que todo mundo sabe que virou, e a pergunta mudou: não é mais como aquilo foi criado, é quem dentro da empresa sabia do estrago e decidiu não fazer nada. Aaron Sorkin escreve e dirige o filme como uma obra complementar ao primeiro, e a escolha mais inteligente dele foi trocar o ponto de vista. Zuckerberg sai do centro. Quem conduz a história agora é quem resolveu falar.
O filme, exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo antes da estreia nacional em 22 de outubro, reconstitui os bastidores dos “Facebook Files”, a série de reportagens do Wall Street Journal que, em 2021, expôs com documentos internos que a empresa conhecia os efeitos do próprio algoritmo e escolheu o engajamento mesmo assim. É um filme de denúncia, mas antes disso é um filme de redação, e é nesse registro que ele funciona melhor.
A mudança de perspectiva também transforma o sentido dessa história dentro da filmografia de Sorkin. Se A Rede Social acompanhava o nascimento de uma empresa e as disputas pessoais que ajudaram a moldá-la, O Outro Lado das Redes se interessa pelo que acontece quando o sucesso deixa de ser uma promessa e passa a exigir prestação de contas. A questão já não é quem teve a ideia primeiro ou quem merece o crédito por ela, mas o que fazer quando os mecanismos responsáveis pelo crescimento de uma plataforma passam a ser associados a consequências nocivas. Ao deslocar Zuckerberg do centro da narrativa, Sorkin também muda o foco moral da história: em vez de observar a construção de um império, acompanha as pessoas que tentam responsabilizá-lo pelas escolhas feitas ao longo do caminho.
A história
Frances Haugen (Mikey Madison) entra para a equipe de Integridade Cívica do Facebook em 2019 acreditando na promessa de “conectar pessoas”. Aos poucos, entende o que os dados mostram: a plataforma empurra usuários para conteúdo extremista, deixa o assédio correr solto e trata qualquer ajuste que reduza engajamento como prejuízo. Do outro lado da cidade, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), repórter que não tem conta em rede social nenhuma, recebe a pauta do Facebook como quem recebe castigo. Os dois começam a se encontrar em segredo. Ela traz os documentos; ele precisa aprender, do zero, o que eles significam.
Frances é interessante justamente porque sua trajetória não começa com a intenção de derrubar a empresa. Ela entra no Facebook acreditando na proposta que a plataforma apresenta ao mundo e passa a questioná-la à medida que encontra informações que entram em conflito com esse discurso. O dilema deixa de ser apenas profissional quando ela percebe que conhecer o funcionamento interno da organização também significa ter uma responsabilidade sobre o que fazer com esse conhecimento. A decisão de falar, nesse contexto, não é um gesto isolado de coragem: envolve romper com uma estrutura da qual ela própria fez parte e assumir os riscos de expor informações que a empresa preferiria manter sob controle. A personagem ganha força nesse intervalo entre a descoberta e a ação, quando entender o problema já não é suficiente para continuar trabalhando como se nada tivesse acontecido.
Em paralelo, Sorkin acompanha Mark Zuckerberg (Jeremy Strong) se preparando para depor ao Congresso, cercado por uma consultora de crise e assombrado por um ex-investidor que virou o crítico mais barulhento da empresa. O filme é dividido em capítulos e alterna os dois lados do tabuleiro até eles inevitavelmente se encontrarem. Como toda reconstituição, encurta e reorganiza a cronologia real e cria alguns personagens para dar conta do entorno de Zuckerberg, mas o essencial da investigação, do celular descartável aos encontros clandestinos, está documentado.
O que sustenta essa investigação não é apenas a possibilidade de uma revelação bombástica, mas o trabalho necessário para transformar documentos internos em informação compreensível e verificável. A narrativa coloca em lados opostos duas maneiras de lidar com a informação: de um lado, uma plataforma que disputa continuamente a atenção dos usuários; de outro, jornalistas que precisam desacelerar, conferir documentos, confrontar versões e entender o que cada dado realmente significa antes de publicá-lo. A investigação avança pelo acúmulo de evidências e pela capacidade de conectar informações que, isoladamente, poderiam parecer inofensivas. Diante de uma empresa com recursos e influência imensamente superiores, a redação depende de paciência, rigor e da disposição de assumir os riscos de uma publicação dessa dimensão. É nesse processo, mais do que na simples exposição de um segredo corporativo, que o filme encontra parte de sua tensão.
O texto e a direção
Sorkin é, antes de tudo, roteirista, e isso aparece em cada cena. Os diálogos rápidos, sobrepostos, cheios de réplica pronta, que ele refinou em The West Wing e A Rede Social, estão todos aqui, e na maior parte do tempo servem para traduzir assunto técnico sem que o filme vire aula. A estrutura em capítulos dá ritmo e ajuda a acompanhar uma investigação que, no papel, seria árida: planilhas, relatórios internos, reuniões de pauta.
Há, porém, uma questão que o filme nem sempre consegue desenvolver com a mesma clareza com que apresenta seus documentos: o que exatamente está em jogo quando uma plataforma prioriza o engajamento? A discussão sobre os algoritmos ganha relevância quando deixa de tratar a existência de conteúdos nocivos como um problema isolado e passa a observar as condições que favorecem sua circulação. Não basta perguntar por que há desinformação, assédio ou material extremista em uma rede social; é preciso entender como os sistemas de recomendação, as métricas de desempenho e as decisões de moderação interferem no alcance dessas publicações. Engajamento, por si só, não significa dano, e os algoritmos não explicam sozinhos tudo o que acontece nas redes. O conflito está em questionar o que ocorre quando a busca por atenção e permanência na plataforma entra em choque com a redução de riscos para os usuários. É uma discussão que ultrapassa a figura de Zuckerberg e aponta para as escolhas de produto e as prioridades empresariais que determinam como esses sistemas funcionam.
Como diretor, porém, ele segue sendo mais funcional do que inventivo. Jeff Cronenweth, diretor de fotografia que também assinou A Rede Social, garante a mesma paleta fria e escura de escritório tecnológico, e a trilha de Alexandre Desplat, que substitui a eletrônica tensa de Trent Reznor e Atticus Ross, aposta num suspense mais clássico, de filme de jornalismo dos anos 1970. Funciona, mas é aí que a comparação com David Fincher pesa. Ele foi a primeira pessoa a ler o roteiro e a primeira escolha de Sorkin para dirigir, mas o contrato de exclusividade com a Netflix o tirou do projeto. A ausência se sente: falta à câmera de Sorkin a precisão que transformava cada conversa do primeiro filme em duelo. O resultado é um filme bem montado, ágil e claro, mas que raramente surpreende visualmente.
A comparação com Fincher, no entanto, não precisa significar que a continuação deveria simplesmente repetir a estética do original. Os dois filmes trabalham com matérias dramáticas diferentes. Em A Rede Social, a direção transformava conversas, disputas e silêncios em parte de um retrato sobre ambição e poder. Aqui, o suspense nasce sobretudo da investigação e da possibilidade de tornar públicas informações mantidas dentro de uma grande corporação. Sorkin encontra ritmo no roteiro, mas nem sempre traduz essa tensão em imagens igualmente expressivas. A questão não é que o filme precise reproduzir a linguagem do primeiro, e sim que sua direção poderia explorar com mais personalidade o conflito entre o poder institucional da empresa e a fragilidade de quem tenta expô-la.
As atuações
O centro do filme é a dupla principal, e ela merece o destaque que tem recebido. Mikey Madison, no primeiro papel depois do Oscar por Anora, troca a energia explosiva da stripper do Brooklyn por uma personagem contida, desconfortável em sociedade, que precisa de fichas com tópicos anotados para sobreviver a uma conversa casual e solta o sarcasmo em doses exatas. Sorkin pediu que ela não imitasse a Haugen real, e a liberdade aparece: é uma composição, não uma imitação. Jeremy Allen White, longe da tensão permanente de The Bear, faz um repórter cansado, analógico e bem-humorado, que admite sem vergonha quando não entendeu nada. O atrito entre os dois rende os melhores momentos do filme e uma parceria que flerta com o romance sem nunca precisar dele.
Mas o elenco de apoio é o que impede o filme de depender só dessa dupla. Bill Burr, como o ex-investidor que virou inimigo público da empresa, é o alívio cômico mais eficiente do filme: entra em cena, fala o que todo mundo está pensando com a delicadeza de um comediante de stand-up, e sai deixando a sala mais leve. Betty Gilpin, como a chefe da sucursal do Journal, dá à redação a autoridade seca de quem já viu muita pauta morrer antes de nascer. Wunmi Mosaku, a consultora de crise contratada para treinar Zuckerberg, é a melhor coisa da trama paralela: fria, precisa, sem paciência para vaidade. Billy Magnussen, como o relações-públicas da empresa, tem o sorriso corporativo exato de quem passa o dia apagando incêndio com nota oficial.
O ponto fraco está justamente no personagem mais famoso. O Zuckerberg de Jeremy Strong é rígido, de fala mecânica e postura de estátua, e a escolha divide opiniões: há quem veja ali uma frieza calculada, mas a sensação dominante é de caricatura. As cenas dele parecem pertencer a outro filme, mais distante e menos vivo, e o próprio set confirma a separação: Strong e White não chegaram a se cruzar durante as filmagens. Jesse Eisenberg recusou voltar ao papel, e é difícil não sentir falta da ambiguidade que ele trazia.
A escolha de colocar Zuckerberg em uma posição mais distante também tem consequências para a leitura do personagem. Ao contrário da ambiguidade que Eisenberg explorava no primeiro filme, a composição de Strong parece privilegiar a rigidez e a ausência de reação, reduzindo o espaço para que o espectador procure contradições ou tente compreender as motivações por trás das decisões. Isso pode reforçar a ideia de uma liderança isolada, protegida por uma estrutura corporativa que absorve os impactos de suas escolhas, mas também simplifica um conflito que seria mais interessante se o personagem escapasse da condição de símbolo. Quando o antagonista se torna excessivamente previsível, parte da complexidade que a investigação revela sobre a empresa acaba concentrada nos personagens que tentam enfrentá-la.
O humor no meio da denúncia
Quem entra esperando um thriller tenso sobre big tech vai se surpreender com o quanto o filme é engraçado. Além de Burr, a redação do Journal rende piadas com estagiários no limite da exaustão, e há uma cena de mansplaining que tira risada da sala inteira. O humor não esvazia o assunto; ele torna a investigação humana. São pessoas comuns, mal pagas e mal dormidas, tentando enfrentar uma das empresas mais poderosas do mundo com café e planilha.
Esse humor também ajuda a evitar que a denúncia transforme seus protagonistas em figuras idealizadas. A investigação não depende de personagens infalíveis, capazes de compreender imediatamente todas as implicações dos documentos que recebem. Há dúvidas, limitações e momentos de desconforto, e reconhecer essas dificuldades torna o trabalho mais convincente. O contraste entre a dimensão do que está sendo investigado e a rotina quase banal de uma redação reforça a ironia central do filme: enquanto as consequências das decisões de uma plataforma podem atingir milhões de pessoas, a tentativa de torná-las públicas depende de um grupo relativamente pequeno de profissionais tentando fazer o próprio trabalho direito.
Onde tropeça
Além do Zuckerberg, há outros dois problemas. O primeiro é o didatismo: em alguns momentos, Sorkin coloca na boca dos personagens explicações que parecem escritas para o espectador, não para quem está em cena. O segundo é o tempo. O filme chega cinco anos depois do escândalo, num mundo em que a discussão sobre redes sociais já andou bastante, e parte da crítica internacional apontou que a denúncia soa atrasada. É verdade, mas o filme compensa isso com algo que não envelhece: a mecânica de como uma reportagem desse tamanho é feita.
A distância entre o escândalo original e a chegada do filme aos cinemas levanta uma questão legítima: o que essa história ainda tem a acrescentar a um debate que já ocupou manchetes, audiências públicas e discussões sobre a responsabilidade das plataformas? A resposta depende menos da novidade dos fatos do que da maneira como são organizados para o cinema. A investigação já é conhecida por parte do público, e a dramatização não substitui o trabalho jornalístico que lhe deu origem. Seu interesse está em reconstruir as decisões, os conflitos e os mecanismos institucionais que ajudam a explicar por que informações potencialmente graves podem permanecer restritas ao ambiente corporativo por tanto tempo. Isso não elimina a sensação de atraso, mas oferece ao filme uma razão para existir além da reconstituição de um escândalo.
Há, ainda, uma diferença entre denunciar uma empresa e explicar integralmente o sistema em que ela opera. Ao concentrar a narrativa em personagens, documentos e decisões específicas, o filme torna o conflito acessível, mas corre o risco de fazer parecer que a responsabilização de alguns indivíduos seria suficiente para resolver problemas que também envolvem incentivos econômicos, políticas de moderação e escolhas estruturais de produto. A força da investigação está em tornar essas decisões visíveis; seu limite está em não conseguir transformar todas as questões levantadas em respostas definitivas. A denúncia ganha clareza, mas o debate que ela propõe é maior do que os limites de um único filme.
Lá fora, a recepção ficou dividida e a bilheteria americana decepcionou. O público, por outro lado, tem gostado mais do que a crítica, e não é difícil entender o motivo.
Veredito
O Outro Lado das Redes não tem a precisão de A Rede Social, e nem tenta ter. É outro tipo de filme: menos sobre gênio e traição, mais sobre gente comum tentando fazer o trabalho certo dentro de uma estrutura feita para impedir isso. Sorkin entrega um filme de redação ágil, engraçado e bem atuado, com uma dupla central que funciona, um elenco de apoio que segura cada cena e um único personagem que destoa. Prende do primeiro ao último minuto, e isso, num filme feito basicamente de gente conversando, não é pouco.
Nota: 3,5/5
O Outro Lado das Redes estreia nos cinemas em 22 de outubro, com distribuição da Sony. Na 50ª Mostra, ainda tem sessões nos dias 19 e 21 de outubro.
