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Atraídos pelo Destino: o que funciona, o que muda e o que vem por aí

Vocês sempre dizem que há uma armadilha bastante comum dos leitores quando um livro querido ganha uma adaptação: comparar cada cena do filme com aquilo que estava na página e transformar toda diferença em um problema. Bem, com Atraídos pelo Destino, primeiro filme baseado na bilogia Enfrentados, de Mercedes Ron, essa comparação é praticamente inevitável – especialmente para quem já conhece Marfil e Sebastián. Mas talvez a melhor maneira de olhar para o longa seja justamente entendendo que ele não tenta colocar dois livros inteiros dentro de 1h44.

Com certeza, os leitores se tornam mais exigentes quando se trata de uma adaptação, porque algo está sendo criado em cima de uma história já existente. Então, às vezes, conhecer a história antes é um problema, sim. Mas, com Atraídos pelo Destino, eu diria que foi uma adaptação que funcionou bastante. Não porque o filme seja impecável. Longe disso. Mas, considerando que estamos falando de uma história que precisa condensar um livro inteiro em cerca de uma hora e pouco e ainda preparar terreno para uma segunda parte, o filme consegue entregar bastante coisa.

Dirigido por Óscar Pedraza e estrelado por Ester Expósito e Hugo Diego García, a trama parte de uma premissa bastante conhecida, uma jovem rica, acostumada a ter liberdade, passa a ser acompanhada 24 horas por dia por um guarda-costas depois de ser sequestrada e libertada sem explicação. O que começa como uma convivência forçada entre duas pessoas – que claramente não têm muita paciência uma para a outra, logo ganha tensão romântica, enquanto o mistério envolvendo a família de Marfil começa a ocupar cada vez mais espaço.

Marfil é muito mais do que a garota rica da história

Quando assistimos ao filme, podemos dizer que Marfil, interpretada por Ester Expósito, poderia ser facilmente reduzida ao estereótipo da garota milionária, impulsiva e acostumada a conseguir tudo o que quer. E, sim, o filme também apresenta essa versão dela. Afinal, ela cresceu em um ambiente em que dinheiro, liberdade e privilégios sempre fizeram parte da sua rotina. Também é impulsiva, teimosa e muitas vezes toma decisões que fazem você pensar que talvez ela pudesse colaborar um pouquinho mais com o próprio segurança. Mas reduzir a personagem a isso é ignorar justamente o que faz dela uma protagonista interessante.

E sabe por que? Não precisa de muito para notar que a Marfil tem personalidade. Ela sabe o que quer, tem seus próprios ideais e, mesmo quando toma decisões questionáveis, não é uma personagem que simplesmente fica esperando as coisas acontecerem. Ela interfere, questiona, enfrenta e, principalmente, defende as pessoas que ama. A cena da festa é um bom exemplo disso, quando vê a amiga em uma situação complicada, ela sai em defesa. Pode agir no impulso, mas não fica indiferente. Existe uma lealdade muito forte nela.

E isso também aparece no livro de outras maneiras. Marfil tem uma relação muito mais complexa com a própria identidade do que a imagem de filha de um homem milionário deixa transparecer. O balé é um dos melhores exemplos disso. A dança não está ali apenas como um hobby ou como uma característica para deixar a personagem mais sofisticada. Ela está diretamente ligada à mãe de Marfil e a uma parte da vida que ela tenta preservar, mesmo diante das imposições do pai. O balé representa um sonho, uma conexão com a mãe e, de certa forma, uma coisa que pertence somente a ela.

Prime Vídeo | Reprodução

É justamente por isso que gosto quando o filme dá espaço para esse lado da personagem. Quando ela fala sobre a dança, existe uma pequena mudança na maneira como enxergamos aquela garota. Existe uma pessoa delicada ali. E, devo dizer, que a Ester consegue trabalhar bem essas diferentes versões da personagem. Ela tem a provocação, a teimosia e aquela segurança de quem está acostumada a ter controle sobre a própria vida, mas também consegue deixar aparecer a vulnerabilidade quando esse controle começa a escapar. E essa é uma das coisas que funcionam na personagem.

O que também vale pontuar, é que a Marfil não quer passar o tempo todo sendo protegida. Ela quer recuperar a própria autonomia. E o fato de pedir para Sebastián ensiná-la a se defender diz muito sobre ela. Em vez de simplesmente aceitar que agora precisa de alguém para cuidar dela, ela tenta aprender a cuidar de si mesma. Isso conversa muito com a Marfil do livro. Ela não é corajosa porque nunca sente medo, mas porque existe nela uma necessidade muito forte de continuar tomando as próprias decisões. Mesmo quando erra, ela quer ser responsável pelos próprios erros.

Sebastian é justamente o personagem que o roteiro mantém fechado

Diferente da Marfil, não conhecemos tanto sobre Sebastian. Ele é apresentado como frio, reservado, extremamente centrado e profissional. Mantém distância de Marfil justamente porque sabe que está ali para protegê-la e que se envolver com ela seria um problema. Mas, visto que ele é um guarda-costas, está trabalhando, então é válido. Afinal, a relação começa dentro de uma situação profissional extremamente específica; ele foi contratado para protegê-la.

Então, não seria necessariamente coerente ele simplesmente sentar com Marfil e falar: “Então, deixa eu contar toda a minha história”, né? Na verdade, o silêncio dele faz parte da própria caracterização. Ele está sempre observando, calculando, protegendo e escondendo informações. Existe uma barreira profissional entre os dois, e faz sentido que Sebastian não seja alguém que simplesmente se abre de uma hora para outra.

Talvez o público tenha sentido justamente essa diferença de não saber tanto sobre o personagem e achar que não foi tão desenvolvido. Mas eu, sinceramente, acho que a forma como o filme escolheu demonstrar isso funciona.

Afinal, faltou desenvolvimento no casal?

Por incrível que pareça, essa foi uma das críticas mais recorrentes ao filme; a falta de desenvolvimento pessoal entre Marfil e Sebastián. É verdade que gostaríamos de conhecer mais sobre ele e ver essa relação se tornar mais aberta, mas vou contar para vocês: isso é proposital.

Ficou claro que teremos uma continuação, certo? Ébano, segundo livro da bilogia, aprofunda justamente os personagens e leva a história para um lugar muito mais intenso. Marfil passa por situações muito mais extremas e, consequentemente, também começa a mudar. Ela já não é exatamente a mesma garota que conhecemos no primeiro filme, e isso interfere diretamente na forma como ela se relaciona com Sebastián.

E é aí que Ébano entra.

Sebastián deixa de ser apenas aquele homem fechado, difícil de decifrar e que parece estar sempre escondendo alguma coisa. Aos poucos, conhecemos mais do seu passado, entendemos melhor algumas de suas escolhas e conseguimos enxergar as motivações por trás daquela postura tão controlada. O relacionamento dos dois também ganha novas camadas, porque já não existe apenas aquela tensão inicial entre a garota protegida e o guarda-costas que precisa manter distância. Existe tudo o que aconteceu entre eles, a confiança que foi construída e quebrada e a necessidade de entender se os dois ainda conseguem encontrar um caminho juntos.

Por isso, existe uma diferença entre algo que foi simplesmente deixado de lado e algo que a narrativa ainda está preparando para desenvolver. E, no caso de Sebastián, eu acho que estamos muito mais diante da segunda opção. O primeiro filme quer que ele permaneça um pouco inacessível. Quer que a gente olhe para aquele homem e pense que existe muito mais ali do que ele está disposto a mostrar. No livro, isso funciona de uma maneira diferente porque temos acesso aos pensamentos dele. No filme, esse recurso não existe, então é natural que algumas pessoas sintam que conhecemos menos o personagem.

Mas, olhando para o caminho que Ébano percorre, talvez essa sensação faça ainda mais sentido. Sebastián não foi construído para entregar tudo de uma vez. Parte do que torna o personagem interessante é justamente descobrir, aos poucos, quem existe por trás daquele silêncio. E, se a continuação seguir esse caminho, teremos muito mais espaço para entender não apenas Sebastián, mas também como Marfil e ele chegam a ser o casal que a história realmente quer apresentar. Vai abalar!

Inclusive, Ester Expósito descreveu Ébano como uma história muito mais sombria, com mais ação e thriller. A atriz também indicou que a segunda parte mergulha em uma abordagem muito mais pesada da violência contra as mulheres. E talvez até os títulos dos livros ajudem a entender essa mudança de atmosfera. Nas minhas pesquisas aqui, Marfil significa “marfim”, algo associado ao branco, à delicadeza e à luminosidade. Já Ébano é uma madeira conhecida por sua cor extremamente escura e por sua densidade. É interessante pensar nessa oposição porque ela combina muito com o caminho que a história percorre; enquanto o primeiro livro ainda está bastante ligado ao universo protegido e sofisticado de Marfil, o segundo mergulha em uma trama muito mais sombria, colocando os personagens diante de situações mais extremas.

Não dá para afirmar que essa seja necessariamente a intenção oficial de Mercedes Ron ao escolher os títulos, mas, olhando para a evolução da história, a oposição entre marfim e ébano acaba sendo uma coincidência simbólica bastante interessante, viu? Sei lá, gosto de criar fanfics na minha mente também.

O filme muda algumas coisas em relação ao livro

E aqui entramos em uma parte que, o filme reorganiza algumas peças importantes da história e, com isso, acaba levando a trama para um caminho um pouco diferente do livro. O pai de Marfil, Alejandro Cortés, talvez seja o melhor exemplo disso. No livro, seu envolvimento com o crime organizado é consideravelmente mais pesado. Ele está ligado ao narcotráfico e ao tráfico de pessoas na América Latina, o que coloca a história de Marfil dentro de uma realidade muito mais sombria. No filme, Alejandro aparece como um empresário espanhol com um passado ligado à máfia russa de Marcus Kozel.

O mesmo acontece com Iván. No livro, sua participação na história está ligada ao conflito que envolve Marfil e às relações de poder que cercam sua vida, especialmente ao casamento de conveniência e à forma como ela é colocada em uma posição que limita suas escolhas. No filme, porém, Iván ganha uma função bem diferente dentro da trama. Ele passa a estar diretamente ligado a Marcus Kozel e ao mistério que envolve o passado de Alejandro.

E talvez a mudança mais significativa esteja justamente em Sebastián. O filme antecipa uma revelação que, nos livros, só aparece em Ébano. Aqui, descobrimos ainda na primeira parte que Sebastián está ligado ao FBI e que sua missão vai muito além de simplesmente trabalhar como guarda-costas. No livro, essa informação é guardada por mais tempo. A verdadeira função de Sebastián como agente infiltrado só é revelada no segundo volume, o que muda bastante a experiência de quem conhece a história original. Afinal, no primeiro livro, boa parte do mistério em torno dele está justamente em tentar entender quem é aquele homem, de onde veio e o que realmente está fazendo ao lado de Marfil.

Para quem não conhece os livros, funciona como uma reviravolta. Para quem conhece, é uma informação que já sabemos que deveria demorar um pouco mais para chegar. E acho interessante que o filme tenha escolhido esse caminho, porque ele perde uma surpresa importante do material original, mas ganha a possibilidade de trabalhar Sebastián de outra maneira desde o primeiro filme.

Afinal, Atraídos pelo Destino funciona?

Funciona. É um romance juvenil com suspense, ação, personagens bonitos, luxo, segredos familiares e uma relação construída em cima daquela velha fórmula do “não deveríamos, mas estamos claramente atraídos”.

A química entre Ester Expósito e Hugo Diego García sustenta boa parte do romance. E, considerando que a história literária se estende por dois livros e que a adaptação foi planejada em duas partes, não me parece justo exigir que o primeiro filme resolva todas as questões emocionais de seus protagonistas em 1h44. Na verdade, acho que esse é um dos casos em que a adaptação entende melhor do que parece o que precisa deixar para depois.

Agora, Ébano terá que provar que tudo aquilo que ficou escondido realmente tinha um motivo para estar escondido. Porque se a primeira parte é sobre descobrir que nada é exatamente o que parece, a segunda terá a tarefa mais difícil: mostrar o que existe por trás dessas máscaras. E aí, sim, vamos descobrir se Sebastián era apenas um personagem misterioso que funcionava bem ao lado de Marfil ou se havia, de fato, uma história muito maior esperando para ser contada.

Eu só sei de uma coisa: ESTAMOS PRONTOS!

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