CRÍTICAS MÚSICA POP

Troye Sivan apresenta sua nova era com “She’s the Best” e “Party”. 

Troye Sivan está oficialmente entrando em uma nova era. Com “She’s the Best” e “Party”, os dois primeiros singles de seu próximo álbum, o cantor apresenta duas faixas que seguem caminhos diferentes, mas curiosamente compartilham uma característica: Troye canta cada vez mais como se estivesse conversando com quem está ouvindo.

A mudança não é necessariamente radical. Afinal, a proximidade vocal sempre foi uma das marcas do artista. Mas, nas duas novas músicas, essa escolha parece ainda mais evidente. Em vez de apostar o tempo todo em grandes interpretações ou vocais explosivos, Sivan trabalha com uma entrega mais contida, quase falada, deixando a produção criar boa parte da emoção.

O resultado é bastante diferente entre as duas faixas “She’s the Best” é mais atmosférica e contemplativa. “Party”, por outro lado, coloca o corpo em movimento e parece encontrar um território em que Sivan já demonstrou ter bastante domínio: a pista de dança.

“She’s the Best” apresenta uma nova faceta – mas demora a conquistar

“She’s the Best” foi lançada nesta sexta-feira (18), para abrir a nova fase de Sivan e chega acompanhada de um videoclipe dirigido por Gordon von Steiner, com participação de Nicole Kidman.

A música parte de uma proposta mais íntima, voltada para a figura feminina e para pessoas que inspiraram a vida do cantor. Musicalmente, ela prefere construir uma atmosfera a buscar um grande momento pop. É justamente aí que está seu principal desafio.

“She’s the Best” não é uma música ruim. Pelo contrário: existe uma intenção clara na produção e uma identidade própria. O problema é que ela pode se tornar um pouco cansativa ao longo da audição, especialmente porque sua estrutura parece apostar mais na repetição e na ambientação do que em uma progressão capaz de renovar constantemente o interesse.

A interpretação de Sivan contribui para essa sensação. Ele não parece exatamente “cantar” algumas partes da música. Parece falar sobre a produção, deslizando pelas frases com pouca preocupação em transformar cada verso em um grande momento vocal.

É uma escolha artística válida, e, bastante coerente com o pop contemporâneo, mas nem sempre funciona da mesma maneira para o ouvinte. Em “She’s the Best”, essa proximidade pode acabar deixando a faixa mais estática do que envolvente.

“Party” encontra o Troye que conhecemos

Então chega “Party”. E a diferença é imediata. A primeira música lançada ontem (17), também trabalha com repetição e mantém essa interpretação vocal mais conversada, mas existe algo que muda completamente a experiência: o movimento.

Inspirada nas bush doofs, termo australiano usado para descrever raves realizadas em locais afastados dos centros urbanos, “Party” foi pensada para reproduzir a sensação de uma noite que não tem começo ou fim muito definidos.

É uma música sobre passar de um lugar para outro, perder a noção do tempo e simplesmente continuar dançando. E talvez seja justamente por isso que ela pareça tão confortável em seu próprio conceito.

A repetição que pode cansar em “She’s the Best” ganha outra função aqui. A batida cria uma espécie de transe, e a voz de Troye passa a funcionar quase como mais um elemento da produção. Ele não precisa dominar a música. Ele está dentro dela. E isso combina muito com o artista que conhecemos de músicas como “Rush” e “Got Me Started”.

“Party” não tenta reproduzir essas faixas, mas recupera aquela sensação de que Troye Sivan está completamente à vontade quando pode misturar pop, música eletrônica, sensualidade e pista de dança.

As duas músicas têm mais em comum do que parece

Apesar das diferenças, “She’s the Best” e “Party” deixam bastante evidente que existe uma direção vocal compartilhada nessa nova fase. Troye parece cada vez menos interessado em mostrar a voz como protagonista absoluta.

Em vários momentos, ele canta como quem conversa. As frases são entregues de maneira quase casual, sem necessariamente buscar grandes notas ou interpretações dramáticas. Isso aproxima as músicas do ouvinte, mas também coloca uma responsabilidade maior sobre a produção: se o vocal não vai carregar sozinho a faixa, todo o restante precisa sustentar o interesse.

Em “Party”, isso acontece com mais facilidade. A batida, a repetição e a proposta de pista de dança criam um ambiente que favorece essa interpretação.

Já em “She’s the Best”, a ausência de uma movimentação tão evidente faz com que o mesmo recurso fique mais exposto, e, consequentemente, pode deixar a audição mais cansativa. É uma diferença sutil, mas que muda bastante a experiência.

Madonna entra na festa

“Party” ainda ganha uma camada adicional com o sample de “Music”, clássico de Madonna lançado em 2000.

A escolha conversa diretamente com a proposta da música e com a relação histórica entre a música pop e a pista de dança. O sample não está ali apenas como uma referência nostálgica: ele ajuda a estabelecer a ideia de que festa, repetição e música eletrônica podem criar uma experiência quase hipnótica.

A festa como espaço de pertencimento

A ideia também aparece no videoclipe de “Party”, novamente dirigido por Gordon von Steiner. Filmado em um castelo em Berkeley, na Inglaterra, o vídeo transforma a festa em uma espécie de ritual de época, com figurinos, luxo e uma atmosfera de celebração exagerada.

Mas existe um conceito mais profundo por trás da estética. Sivan e von Steiner partiram da ideia de que festejar pode ser algo quase sagrado, especialmente dentro da cultura queer. A vida noturna, historicamente, representou para muitas pessoas LGBTQIA+ um espaço de liberdade e pertencimento, um ambiente em que elas poderiam estar cercadas por pessoas que compartilhavam experiências semelhantes.

A participação de Sir Ian McKellen acrescenta ainda mais significado ao conceito. O ator trabalhou com Sivan quando ele tinha apenas 14 anos, em uma produção de Esperando Godot, na Austrália. Para o cantor, aquele contato aconteceu em um período importante de sua vida, quando estava prestes a se assumir para a mãe. Ver um homem abertamente gay vivendo de maneira livre e bem-sucedida deixou uma impressão marcante.

Anos depois, McKellen empresta sua voz ao videoclipe e cria uma conexão entre diferentes gerações da experiência queer.

O ÁLBUM “SHE’S THE BEST” TEM LANÇAMENTO EM 9 DE OUTUBRO

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