Chuva, lama, milhares de pessoas e alguns dos maiores nomes da música eletrônica mundial. Se existe uma combinação capaz de resumir a experiência do Creamfields, é essa. O festival, que acontece entre os dias 27 e 30 de agosto em Daresbury, no Cheshire, chega a mais uma edição mantendo a tradição de transformar um campo britânico em uma enorme pista de dança, mesmo quando o clima decide dificultar a missão.
Nossa cobertura acompanhou presencialmente a sexta-feira (28) e o sábado (29), dois dos dias mais recheados da programação de 2026. E, entre sets gigantes, diferentes estilos de música eletrônica e uma quantidade considerável de lama, o festival mostrou por que continua sendo um dos grandes encontros da cena eletrônica no Reino Unido.
A chuva veio. E a festa continuou.
Comecemos pelo assunto inevitável: a lama. Não é exatamente uma surpresa para quem conhece o Creamfields. A chuva faz parte da história do festival e, mais uma vez, transformou algumas áreas do evento em um verdadeiro desafio para os pés, e para os sapatos.
Mas existe algo curioso na relação do público com isso. A lama não parece diminuir a energia de quem está ali. Pelo contrário. Botas cobertas de barro, roupas sujas e pessoas tentando atravessar o terreno escorregadio fazem parte da paisagem, mas raramente interrompem a festa.
É claro que o terreno molhado pode dificultar os deslocamentos e tornar a experiência menos confortável. Ainda assim, existe uma espécie de espírito coletivo no público: se começou a chover, coloca a capa; se virou lama, coloca a bota; se o DJ começou o set, dança.
E talvez essa seja uma das características mais interessantes do Creamfields: o público parece estar disposto a abraçar a experiência completa, com tudo o que ela tem de caótico.
Sexta-feira começa em alto nível
A sexta-feira já mostrou por que a programação de 2026 é uma das grandes atrações da edição.
O dia reuniu nomes como Disclosure, FISHER, Eric Prydz, Carl Cox, Chris Stussy, KETTAMA, Ben Nicky, Lilly Palmer, Shy FX e Paul Oakenfold, entre dezenas de outros artistas espalhados pelos diferentes palcos e arenas.
E o interessante é que o Creamfields não tenta transformar todos esses nomes em uma experiência parecida. Pelo contrário: a programação permite que o público passe de um estilo para outro durante a noite.
Disclosure levou seu formato live para o Arc, em uma apresentação que era uma das grandes apostas da sexta-feira. O festival também recebeu FISHER, Eric Prydz e Carl Cox, enquanto outras áreas exploravam techno, trance, drum and bass, house e vertentes mais pesadas da eletrônica.
O resultado é aquela sensação clássica de grandes festivais: sempre existe algum lugar onde você gostaria de estar. E, ao mesmo tempo, isso é parte da diversão.
Um festival que entende a diversidade da eletrônica
Talvez um dos maiores acertos do Creamfields seja justamente não apostar em apenas uma vertente.
É possível encontrar o EDM mais popular, house, techno, trance, drum and bass, hard dance e outras ramificações da música eletrônica convivendo dentro do mesmo evento.
Isso também muda completamente a experiência de quem circula pelo festival. Não existe uma única pista. Existem várias experiências acontecendo simultaneamente.
E, para um público tão diverso, essa variedade funciona como uma das grandes forças da programação. E, claro, notamos que tinha mais tendas de comidas, parece que o festival expandiu um pouco mais. Ah, sem contar o palco Arc, o telão dele é sensacional, muitos festivais deveriam se inspirar.
Sábado: uma sequência de gigantes
Se a sexta-feira já tinha nomes suficientes para sustentar uma grande noite, o sábado elevou ainda mais a expectativa.
A programação colocou Calvin Harris, Martin Garrix e Armin van Buuren entre os principais destaques, além de Alesso, Amelie Lens, Underworld, CamelPhat, Dom Dolla, Eli Brown, Patrick Topping, Rebūke e muitos outros.
É uma programação que praticamente obriga o público a fazer escolhas. No Arc, Calvin Harris comandou um dos grandes momentos do dia. Já o Apex recebeu nomes como Armin van Buuren, Alesso e Martin Garrix em diferentes momentos da programação. O Steel Yard, por sua vez, reforçou a proposta mais voltada para techno e sons mais intensos, com nomes como Amelie Lens, Underworld e CamelPhat.
E é justamente essa variedade que faz o Creamfields parecer maior do que seus próprios palcos.
Calvin Harris e a força de um headliner
Calvin Harris, que se apresenta no Brasil no próximo mês. é aquele tipo de artista que não precisa de muita apresentação.
Quando seu nome aparece na programação, uma parcela enorme do público já sabe exatamente o que esperar: grandes músicas, produção grandiosa e uma pista preparada para cantar e dançar.
No Creamfields, essa fórmula funciona especialmente bem. O público conhece as músicas, responde aos momentos mais populares e transforma o show em uma experiência coletiva. É menos sobre acompanhar um DJ atrás da cabine e mais sobre estar dentro de uma multidão vivendo as mesmas músicas ao mesmo tempo.
Martin Garrix transforma o público em parte do show
Martin Garrix segue uma lógica parecida, mas com uma energia ainda mais explosiva. Seu show combina a linguagem do EDM de grandes arenas com uma produção pensada para milhares de pessoas. E o público do Creamfields responde à altura.
É difícil permanecer parado. Mesmo depois de horas caminhando pelo festival, enfrentando chuva e atravessando a lama, basta começar uma música conhecida para a energia voltar.
Talvez essa seja uma das maiores forças do evento: ele consegue fazer o público esquecer o cansaço.
Armin van Buuren mantém o trance em destaque
A presença de Armin van Buuren também mostra que o Creamfields não está interessado apenas nos nomes mais populares do EDM.
O trance continua tendo espaço importante dentro da programação, e Armin representa justamente essa conexão entre diferentes gerações da música eletrônica.
Seu show funciona como um lembrete de que, apesar das mudanças na cena ao longo dos anos, algumas sonoridades continuam encontrando um público enorme.
E ainda existe o fator surpresa
Com tantos palcos, artistas e estilos, uma das melhores coisas do Creamfields é simplesmente caminhar sem necessariamente ter tudo planejado.
Você pode sair de uma apresentação e acabar encontrando outro artista que não estava originalmente no roteiro.
Isso acontece porque o festival foi construído para funcionar como uma experiência contínua. São tantas atrações simultâneas que montar uma programação perfeita é praticamente impossível.
E talvez seja melhor assim. Porque parte da diversão está justamente em descobrir algo novo no caminho.
O público é protagonista
Se os artistas são responsáveis por manter a música funcionando, o público é responsável por transformar o Creamfields em Creamfields.
A energia é uma das coisas que mais impressionam. Devo dizer que os britânicos têm a mesma energia dos brasileiros nos shows. Mesmo com chuva, lama e longas caminhadas, as pessoas continuam dançando, cantando e celebrando. Existe uma disposição coletiva para aproveitar o momento que combina perfeitamente com a proposta do festival.
No festival, a prioridade é encontrar o próximo palco. Errados não estão, né?
Nem tudo é perfeito
É claro que a experiência também tem seus pontos de atenção. Os jovens perdem o freio da bebida e acabam não só acabando com sua própria experiência, mas também com a do amigo do lado. Beber com moderação é importante, galera.
Outro ponto: A lama pode dificultar a circulação em determinadas áreas e, para quem passa muitas horas no festival, o conforto certamente não é o ponto forte. Entendemos que faz parte, mas tem meios de amenizar a lama para que as pessoas se desloquem com segurança e mais conforto.
O clima também é um fator impossível de ignorar. Durante o fim de semana, o Reino Unido enfrentou condições meteorológicas instáveis, com previsão de chuva forte e tempestades em diferentes regiões. O próprio Creamfields chegou a interromper temporariamente a energia na noite de abertura devido a uma tempestade, por questões de segurança.
Ou seja: o festival não controla o clima, mas precisa lidar com seus efeitos, e isso inevitavelmente influencia a experiência.
Ainda assim, durante nossa cobertura de sexta e sábado, ficou evidente que a chuva não foi capaz de roubar o protagonismo da música.
O veredito
Depois de dois dias acompanhando o Creamfields de perto, fica difícil não entender por que o festival conquistou um público tão fiel.
Ele não oferece necessariamente a experiência mais confortável. Você provavelmente vai andar muito, sujar a roupa, enfrentar lama, disputar espaço em alguns momentos e terminar o dia completamente cansado.
Mas, em compensação, entrega algo que muitos festivais passam anos tentando construir: uma identidade própria.
A combinação de uma programação gigantesca, diferentes vertentes da música eletrônica, grandes produções e um público disposto a dançar independentemente do clima faz do Creamfields uma experiência que vai além dos shows.
Afinal, estamos no meio de milhares de pessoas enquanto Calvin Harris, Martin Garrix, Armin van Buuren, Disclosure, FISHER, Carl Cox e tantos outros transformavam Daresbury em uma gigantesca pista de dança.
Então se você gosta de gente animada, um line up explosivo e uma Eurotour, já adicione o Creamfields na sua agenda do próximo ano.
