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“Esse EP nasceu da pista”: em entrevista, Volkoder fala sobre estreia na Diynamic e nova fase com Picture

A estreia de Volkoder pela Diynamic, selo comandado por Solomun, marca mais do que um novo capítulo em sua discografia. Em entrevista, o produtor brasileiro revela que Picture: Volkoder nasce como um retrato consciente de sua relação com a pista, com o tempo e com o próprio momento de carreira. Dividido em dois EPs, o projeto traduz uma visão madura da música eletrônica, onde groove, repetição e narrativa caminham juntos.

Uma noite nunca é linear: ela é feita de picos, respiros, tensão e repetição, explica Volkoder. Essa percepção é o ponto de partida de Picture, pensado como uma obra fragmentada, que se desenvolve aos poucos, assim como uma noite de clube. A decisão de dividir o lançamento em duas partes reflete não só essa leitura da pista, mas também uma fase menos ansiosa do artista, mais focada em construção do que em impacto imediato.

A primeira parte do EP, lançada na sexta-feira, 23 de janeiro, apresenta as faixas “All Night Long”, “Move Baby” e “Pulled Down”. Entre elas, “All Night Long” se destaca como um dos momentos mais aguardados do projeto. Construída a partir de linhas de baixo oscilantes, kicks precisos e uma tensão constante, a faixa se tornou um ponto de conexão entre diferentes pistas e linguagens, sendo tocada por nomes como Solomun, Vintage Culture, Mau P e CamelPhat.

Durante nossa entrevista, Volkoder conta que percebeu o potencial especial da track ao observar reações semelhantes em contextos completamente distintos. “Quando isso acontece, você entende que a música já não depende só de você“, afirma. Para o artista, esse processo de desapego faz parte do ciclo natural da música eletrônica: quando a faixa começa a circular, ela passa a existir para além do estúdio.

Com grooves hipnóticos, synths luminosos e vocais imersivos, Picture: Volkoder é um projeto que nasce da pista, mas carrega uma preocupação estética e narrativa clara. Cada faixa representa um momento específico da noite, mantendo uma mesma atmosfera e intenção sonora. “Eu vejo meu som mais como uma sensação do que como um estilo”, define o produtor, que construiu sua identidade fugindo de classificações rígidas.

A segunda parte do EP, prevista para 06 de fevereiro, amplia esse conceito. As faixas “So Am I”, “Don’t Stop” e “Afterglow” dialogam com um estado emocional mais contínuo da noite, aquele momento em que o pico já passou, mas a pista ainda segue conectada. “Essas faixas falam de permanência, de seguir em frente, de não quebrar o fluxo.”, explica Volkoder.

Esse discurso se conecta diretamente com sua trajetória atual. Com mais de 200 lançamentos, milhões de streams e apresentações em palcos como Ministry of Sound, Space Miami, Eden Ibiza, além de Green Valley, Warung Beach Club e Tomorrowland Brasil, Volkoder se consolida como um dos artistas brasileiros mais respeitados de sua geração. Sua música carrega uma identidade que dialoga com a cena global sem perder uma relação intuitiva e corporal com o groove, traço frequentemente associado à cena eletrônica brasileira.

Confira a entrevista completa

O projeto foi pensado como um retrato em partes, dividido em dois EPs. Essa escolha dialoga com a forma como você enxerga uma noite de clube, feita de momentos, ou com o seu momento de carreira?

Volkoder
: A ideia dos dois EPs vem muito dessa forma fragmentada como eu enxergo tanto uma noite de clube quanto a minha fase atual. Uma noite nunca é linear: ela é feita de picos, respiros, tensão, repetição. Dividir o projeto foi uma maneira mais honesta de contar essa história em partes, sem a pressa de colocar tudo em um único bloco. Também reflete meu momento de carreira, mais consciente, menos ansioso por “resolver tudo de uma vez”.

Seu som frequentemente escapa de rótulos fáceis. Como você descreveria o “som Volkoder” sem recorrer a gêneros ou classificações?

Volkoder
: Eu vejo o som Volkoder mais como uma sensação do que como um estilo. É sobre groove, espaço, repetição e pequenos detalhes que vão se revelando com o tempo. Gosto quando a música cria uma hipnose, mas sem ser óbvia. Se tem algo que define meu som, é essa busca por identidade sem seguir fórmulas prontas.

Existe alguma influência fora da música eletrônica que hoje impacta diretamente suas escolhas sonoras, cinema, artes visuais ou comportamento?

Volkoder
: Com certeza. Cinema e artes visuais influenciam muito a forma como penso atmosfera e narrativa dentro das faixas. Às vezes é uma cena, uma fotografia ou até o silêncio entre diálogos que acaba se transformando em espaço sonoro no estúdio. O comportamento também muda: hoje presto mais atenção ao tempo das coisas, e isso reflete diretamente na música.

“All Night Long” nasceu no estúdio, mas ganhou outra vida nas pistas do mundo, sendo tocada por artistas com linguagens bem diferentes entre si. Em que momento você percebeu que essa faixa tinha algo especial?

Volkoder
: Foi quando comecei a ver reações muito parecidas em pistas completamente diferentes. Não era só quem tocava, mas como o público reagia, mesmo sem conhecer a faixa. Ali percebi que ela tinha uma linguagem aberta, que funcionava em contextos distintos. Quando isso acontece, você entende que a música já não depende só de você.

Quando uma track começa a circular globalmente e passa a ser reinterpretada por outros DJs, o controle criativo muda de mãos. Como você lida com esse momento em que a música deixa de ser só sua?
Volkoder
: No começo é estranho, porque você perde o controle sobre como ela vai ser apresentada. Mas com o tempo aprendi a ver isso como algo positivo. A música ganha novas leituras, novos significados. No fundo, é um sinal de que ela cumpriu seu papel e passou a existir no mundo, não só no estúdio.

A cena eletrônica brasileira vive hoje um período de grande visibilidade internacional. O que você acredita que diferencia os artistas brasileiros no contexto global, para além dos estereótipos?

Volkoder
: Acho que existe uma mistura muito forte de intuição, ritmo e personalidade. O brasileiro tem uma relação mais corporal com a música, menos intelectualizada. Isso gera artistas que não seguem tanto o que está “funcionando”, mas o que faz sentido para eles. Essa autenticidade acaba chamando atenção lá fora.

Mesmo com uma carreira cada vez mais internacional, você sente que sua identidade como artista brasileiro aparece, ainda que de forma sutil, na sua música?

Volkoder
: Sim, mesmo que não seja algo consciente. Ela aparece no groove, na forma como penso o tempo da música, na repetição. Não é sobre usar elementos óbvios, mas sobre a maneira de sentir a pista. Isso vem de quem eu sou e de onde eu vim.

A segunda parte do EP traz faixas como “So Am I”, “Don’t Stop” e “Afterglow”, que parecem dialogar mais com sentimento, constância e continuidade. Essa etapa representa um outro estado emocional da noite?

Volkoder
: Totalmente. É aquele momento em que a noite já passou do pico, mas ainda não acabou. Existe uma conexão mais profunda, menos explosiva, porém mais intensa emocionalmente. Essas faixas falam de permanência, de seguir em frente, de não quebrar o fluxo.

“Afterglow” fala da energia que permanece depois do pico. Esse conceito tem alguma relação com o seu momento atual de carreira e maturidade artística?

Volkoder
: Sim, faz bastante sentido. Hoje eu me interesso mais pelo que fica depois do impacto imediato. Não é mais sobre provar algo, mas sobre construir algo duradouro. “Afterglow” representa esse estado mais maduro, de entender o valor do tempo e da constância.

Se quiser deixar um recado para os fãs e mais projetos vindo aí, fique à vontade.

Volkoder
: Quero agradecer a todos que acompanham e confiam no meu som ao longo desses anos. Tem muita coisa vindo, em diferentes formatos, sempre mantendo a essência, mas explorando novos caminhos. O mais importante é seguir curioso e verdadeiro com a música. Obrigado por estarem junto nessa jornada.

No final, vemos que Picture: Volkoder surge, assim, como um projeto que valoriza o tempo, a constância e o que permanece após o auge da noite. Não é sobre o impacto imediato, mas sobre aquilo que continua ecoando quando a pista já viveu tudo. Ouça “All Night Long” abaixo:

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