Atenção: CONTÉM SPOILERS
Patinando no Amor chega à Netflix como uma aposta certeira para o público jovem: romance, drama esportivo, conflitos familiares e patinação artística embalados em episódios curtos e fáceis de maratonar. A série sabe exatamente qual é o seu público, e faz de tudo para agradá-lo. O problema é que, ao evitar riscos, ela também evita profundidade.
O resultado é uma produção simpática, visualmente bonita e confortável de assistir, mas que raramente sai do lugar comum.
Um enredo que aposta menos na ousadia
A história de Adriana (Madelyn Keys) uma patinadora talentosa que retorna ao gelo para ajudar a família e enfrentar fantasmas do passado, segue uma cartilha bem conhecida do drama YA. Tudo está ali: o esporte como redenção, a pressão emocional, o romance complicado e as decisões difíceis entre amor e futuro.
O roteiro organiza bem esses elementos, mas quase nunca surpreende. A narrativa prefere o caminho mais previsível, apostando na identificação do público em vez de provocar desconforto ou ambiguidade emocional. Funciona como entretenimento leve, mas perde força quando tenta se vender como um drama mais intenso.
A patinação, apesar de central na estética da série, acaba funcionando mais como pano de fundo do que como verdadeiro motor narrativo. Falta tensão real nas competições, aquela sensação de que algo importante pode dar errado.
Atuações com química desigual
O elenco entrega até que performances competentes, especialmente nos momentos familiares e nos conflitos mais contidos. A atriz que interpreta Adriana consegue equilibrar vulnerabilidade e determinação, sustentando bem o arco da protagonista.
No entanto, quando o foco se volta para o romance, a série começa a patinar. A química entre Adriana e Brayden (Cale Ambrozic) é claramente mais forte do que com Freddie (Olly Atkins), e isso não é detalhe pequeno. Nos olhares, nas cenas de treino, nas conversas e até nos conflitos, Adriana e Brayden parecem emocionalmente conectados de forma mais natural e convincente.

Já o relacionamento com Freddie, embora faça sentido no papel, carece de densidade dramática. A conexão existe, mas não pulsa com a mesma intensidade, o que torna difícil para parte do público comprar emocionalmente a escolha final da protagonista.
Quando a técnica quebra a imersão
Visualmente, Patinando no Amor é bem cuidada. As cenas no gelo são elegantes e bem coreografadas. Ainda assim, um detalhe técnico chamou a atenção de parte da audiência: em algumas sequências de dança e competição, o uso de dublês fica evidente.
Os cortes e enquadramentos denunciam a troca justamente nos momentos que deveriam ser mais emocionais. Isso cria uma pequena, mas perceptível, quebra de imersão, especialmente em uma série que usa a patinação como linguagem emocional.
O final que dividiu o público (e não tinha como agradar todo mundo)
Nenhuma discussão sobre Patinando no Amor está completa sem falar do final. Desde o livro que originou a série, muitos fãs torciam para que Adriana terminasse com Brayden. A adaptação da Netflix, ao manter o desfecho original, reacendeu uma frustração que já existia entre leitores.
Parte do público acreditava que a série tinha a chance de “corrigir” essa escolha. Mas mudar o final também significaria enfrentar acusações de desrespeito à obra original. A produção ficou presa em um dilema clássico das adaptações: agradar o fandom da série ou respeitar o livro.
O problema, no entanto, não está apenas em quem Adriana escolhe, mas em como essa escolha é construída. Ao investir mais tempo, química e desenvolvimento emocional na relação com Brayden, o roteiro praticamente convida o público a torcer por ele, e depois pede aceitação para um desfecho que não recebe o mesmo impacto dramático. O resultado é um final fiel, mas emocionalmente desequilibrado.
Vale a pena assistir?
Sim, especialmente se você busca:
- um romance jovem leve;
- uma série fácil de maratonar;
- drama esportivo sem grandes exigências emocionais;
- uma história confortável, que não pede envolvimento profundo.
Mas vá com expectativas ajustadas. Patinando no Amor funciona melhor como entretenimento casual do que como drama memorável. É uma série que desliza bem enquanto está em movimento, encanta no visual e no clima, mas evita manobras mais ousadas.
No fim, fica a sensação de que havia potencial para ir além, emocionalmente, narrativamente e até tecnicamente, mas a produção preferiu não correr o risco de cair no gelo.
