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“Aperture”: Harry Styles desacelera o pop e aposta na experiência

Em tempos de músicas cada vez mais curtas e pensadas para segundos de atenção, Harry Styles faz o caminho inverso. “Aperture”, com seus 5 minutos e 11 segundos, não tenta fisgar o ouvinte no primeiro refrão, até porque ele mal existe. A faixa se constrói com calma, como quem convida o público a entrar num espaço e ficar ali por um tempo.

Desde o início, fica claro que este não é um single feito para consumo rápido. É uma música que pede fone de ouvido, volume médio e alguma disposição para ouvir algo que cresce aos poucos, em vez de explodir.

Eletrônica suave, groove constante

Sonoramente, “Aperture” se apoia em um groove contínuo, elegante e hipnótico. A batida é discreta, mas firme, funcionando mais como base emocional do que como elemento de impacto. Os synths surgem em camadas, criando uma atmosfera aérea e envolvente, sem exageros.

A estrutura lembra mais a lógica da eletrônica introspectiva do que do pop tradicional. Em vez de versos e refrões bem marcados, a música avança em ciclos, com pequenas variações que mantêm o interesse. É fácil traçar paralelos com faixas como Innerbloom, do RÜFÜS DU SOL, ou com a eletrônica espiritualizada que marcou o pop de Ray of Light, da Madonna.

Voz que se mistura, não que domina

Outro ponto que chama atenção é a forma como a voz de Harry Styles é tratada. Aqui, ela não está no centro absoluto da música, ela se mistura ao arranjo, quase como mais um instrumento. Isso reforça o clima contemplativo da faixa e afasta qualquer tentativa de dramatização excessiva.

O resultado é uma interpretação mais contida, menos performática, que combina com a proposta geral: nada em “Aperture” parece feito para impressionar rapidamente. Tudo soa pensado para sustentar um clima.

Um pop menos óbvio, e mais paciente

“Aperture” provavelmente não vai agradar quem espera um novo “As It Was”. E essa parece ser exatamente a ideia. A música aposta num pop menos imediato, mais atmosférico e, acima de tudo, mais paciente.

É o tipo de faixa que pode causar estranhamento na primeira escuta, mas que ganha força com o tempo, especialmente quando ouvida no contexto certo. Não é música para fundo de vídeo curto; é música para permanecer.

Na engenharia de som, nomes como Brian Rajaratnam e Liam Hebb ajudam a transformar essa ideia em experiência auditiva. E, claro, a presença de Kid Harpoon como produtor executivo e coautor de “Aperture” é um dos pilares mais fortes do som da faixa. 

Conclusão

Como abertura de uma nova fase, “Aperture” funciona mais como declaração de intenção do que como hit certeiro. Harry Styles deixa claro que está interessado em explorar outras texturas, outros tempos e outra relação com o pop, mais madura, mais experimental e menos previsível.

Pode não ser amor à primeira audição para alguns. Mas é exatamente esse tipo de escolha que costuma envelhecer melhor. Ouça abaixo:

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