Adaptar People We Meet on Vacation nunca foi simples, e o novo filme da Netflix deixa isso claro. A história criada por Emily Henry funciona muito a partir da intimidade: pensamentos não ditos, inseguranças silenciosas e sentimentos que demoram anos para serem encarados. No cinema, essa delicadeza vira um desafio. O resultado é um romance agradável, bonito e fiel ao espírito da história, mas menos profundo do que o livro.
O filme acompanha Poppy e Alex, melhores amigos que mantêm uma tradição de viajar juntos todos os anos, apesar de serem completamente diferentes. Enquanto Poppy é expansiva, inquieta e vive em busca de novidade, Alex é mais fechado, organizado e emocionalmente contido. No presente da narrativa, algo claramente aconteceu entre eles, e a história se constrói a partir desse afastamento, alternando entre viagens do passado e o agora.
Essa estrutura é praticamente a mesma do livro, mas funciona de forma diferente. No papel, os saltos no tempo ajudam a construir tensão emocional e aprofundar o vínculo entre os personagens. No filme, os flashbacks às vezes parecem apenas bonitos visualmente, sem o mesmo peso transformador. Algumas viagens passam rápido demais, quando no livro elas eram essenciais para entender como Poppy e Alex chegaram até ali.
A química entre os protagonistas é um dos pontos positivos da adaptação. Eles funcionam juntos, têm boas trocas e conseguem transmitir a sensação de intimidade construída ao longo dos anos. Ainda assim, quem leu o livro pode sentir falta da camada mais emocional da relação. No texto de Emily Henry, muito do conflito acontece dentro da cabeça de Poppy, suas dúvidas, seus medos e a forma como ela se sente deslocada na própria vida. No filme, isso precisa ser externalizado, e nem sempre funciona com a mesma força.

Alex também perde um pouco de complexidade na adaptação. No livro, ele é mais silencioso, mais difícil de decifrar, e isso faz parte do charme e da frustração da história. No filme, algumas decisões dele parecem rápidas demais, como se certos conflitos fossem resolvidos antes de realmente doerem. A sensação é de que faltou tempo para deixar esses sentimentos amadurecerem.
Outro ponto muito comentado por leitores é o tom. O filme escolhe ser mais leve e seguro, enquanto o livro se permite ser mais melancólico. Emily Henry escreve sobre frustrações adultas, escolhas erradas e o medo de admitir sentimentos tarde demais. O longa suaviza essas questões, optando por um romance mais confortável, daqueles que funcionam bem para uma sessão despretensiosa, mas que evitam riscos emocionais maiores.
Visualmente, a adaptação acerta. Os cenários das viagens são bem escolhidos, a fotografia é bonita e a trilha sonora ajuda a criar um clima acolhedor. Nesse aspecto, o filme entrega exatamente o que promete: uma experiência agradável, com cara de romance de catálogo da Netflix. O problema não está no que ele mostra, mas no que deixa de explorar.
No fim, People We Meet on Vacation funciona melhor como filme do que como adaptação. Para quem nunca leu o livro, é uma história charmosa sobre amizade, tempo e sentimentos guardados. Para quem já conhece a obra de Emily Henry, fica a sensação de que algo se perdeu no caminho, principalmente a profundidade emocional que tornava essa história tão especial.
Nota: 3,5 / 5
Um filme bonito, confortável e bem-intencionado, mas que não alcança o impacto do livro. Vale como romance leve, mas deixa saudade da complexidade emocional que só a escrita da Emily Henry conseguiu entregar.
