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Crítica de Emily in Paris: a série segue estilosa na 5ª temporada, mas presa ao mesmo arco emocional

A 5ª temporada de Emily in Paris mistura moda, música pop, romances repetitivos e ambição profissional em uma Paris fantasiosa. Nesta crítica, analisamos por que Emily cresce no trabalho, falha no amor, retorna ao Gabriel, se espelha em Sylvie e como a série usa exagero, moda e networking como linguagem narrativa.

A quinta temporada de Emily In Paris chegou nesta quinta-feira, na Netflix, e moda é o primeiro e mais evidente pilar narrativo da série. Na série, roupa nunca é só roupa. É linguagem, status e psicologia aplicada.

Os figurinos exagerados da Emily (Lily Collins) funcionam como uma extensão de sua personalidade: chamativos, ousados, por vezes deslocados. Eles refletem sua tentativa constante de se afirmar em espaços onde ainda se sente estrangeira. Vestir-se de forma chamativa é uma maneira de dizer “estou aqui” em um ambiente competitivo e hierárquico como o da moda, do luxo e do marketing.

À medida que a Emily ganha mais espaço profissional, seus looks também se tornam mais calculados. Isso revela algo importante: ela amadurece mais rápido no trabalho do que na vida emocional. A moda acompanha esse crescimento silencioso, mesmo quando o roteiro insiste em mantê-la emocionalmente estagnada.

Música e cultura pop como marcadores

A trilha sonora da temporada é usada de forma inteligente em momentos-chave. A inserção de “Party in the U.S.A.”, da Miley Cyrus, durante o episódio ambientado no feriado de 4 de julho, não é sutil, e não precisa ser. A música funciona como um marcador cultural imediato, resgatando as raízes americanas da Emily em contraste com sua vida europeia.

Essa cena funciona como um lembrete: por mais integrada que Emily (Lily Collins) esteja ao universo parisiense, ela continua sendo uma americana tentando se encontrar fora de casa. O contato com um personagem ligado ao consulado americano reforça essa tensão entre raízes e deslocamento.

Da mesma forma, a presença de uma música em português logo no início da temporada sinaliza o desejo da série de dialogar com um público global, usando a música como ferramenta de ambientação cultural e identificação imediata.

Paris como fantasia aspiracional, e por que o exagero é intencional

A Paris de Emily in Paris não busca realismo. Ela é construída como fantasia, quase um cenário de editorial de moda. Campanhas dão certo rápido demais, coincidências são frequentes e conflitos se resolvem com facilidade. Isso não é falha de roteiro, é escolha estética.

A série trabalha com a ideia de Paris como:

  • capital da moda
  • cidade do amor
  • epicentro do glamour criativo

Nesse universo, tudo é relação. Jantares viram reuniões, festas viram oportunidades de negócio, romances se confundem com parcerias profissionais. Emily não cria esse caos, ela é absorvida por ele. A mistura entre trabalho e vida pessoal não é um erro isolado da personagem, mas uma característica estrutural desse meio social light, que a série explora de forma deliberadamente exagerada. No fim, Emily aprende a jogar dentro dele desse sistema.

O grande problema da 5ª temporada: repetição!

Narrativamente, o maior desgaste da temporada está na repetição dos mesmos conflitos românticos. A estrutura permanece inalterada desde o início da série: Emily conhece um homem, se envolve emocionalmente, mistura trabalho e prazer, entra em conflito, recua emocionalmente, termina e segue para outro relacionamento. O ciclo se repete quase sem variações, como se a protagonista estivesse presa a um roteiro interno do qual não consegue escapar.

O problema não é a quantidade de romances, mas a ausência de transformação emocional real. Emily raramente aprende com os próprios erros porque, na prática, ela evita enfrentá-los. Os homens entram e saem da narrativa, mas o padrão permanece, criando uma sensação clara de estagnação que pesa ainda mais nesta quinta temporada, quando o público já espera algum tipo de amadurecimento mais consistente.

É justamente nesse ponto que Mindy (Ashley Park) assume um papel fundamental ao funcionar como espelho emocional da protagonista. Em uma das conversas mais honestas da temporada, ela aponta que Emily tem o hábito de fugir sempre que “o calo aperta”, evitando conflitos profundos e se fechando emocionalmente quando é desafiada a falar sobre o que realmente sente. A crítica não vem como ataque, mas como um alerta: Emily se joga em relações intensas, mas recua no momento em que precisa se vulnerabilizar.

Esse “chacoalhão” expõe o cerne do problema da personagem. Emily não fracassa no amor por falta de opções ou por azar romântico, mas porque não sustenta emocionalmente as próprias escolhas. Ela se conecta rápido, mas não se permite aprofundar. Prefere a movimentação constante ao enfrentamento do desconforto, e isso explica por que, apesar de tantas relações, nenhuma consegue evoluir de fato.

Netflix | Divulgação

Marcello, Gabriel e o apego ao ponto de origem

O Marcello surge como uma possibilidade mais madura. Ele desafia a Emily, tem vida própria e não a idealiza. Representa o presente e o crescimento. Já o Gabriel (Lucas Bravo) ocupa outro lugar simbólico. Ele é o primeiro vínculo emocional da Emily em Paris. Psicologicamente, ele representa segurança, nostalgia e pertencimento. Não é apenas um ex, é o início de tudo.

Sempre que Emily se perde, ela retorna ao Gabriel. Não porque ele seja necessariamente a melhor escolha, mas porque ele é o lugar emocionalmente mais familiar. O episódio 9 entrega o momento mais maduro entre os dois, com uma conversa honesta e sem jogos. Ainda assim, com a cena final, onde rola o convite para a Grécia, sinaliza que a série continua presa à própria origem, relutante em romper esse ciclo entre dois. Será que realmente teremos esse Endgame?

Por que a Emily se envolve tanto, e nunca sustenta relações?

Do nosso ponto de vista, Emily utiliza os relacionamentos como forma de: validação emocional, pertencimento social e compensação do deslocamento cultural. Mas sua identidade central é o trabalho. Quando o amor ameaça competir com a carreira, ela se sabota. Não por imaturidade, mas porque o sucesso profissional é sua principal fonte de segurança emocional.

Na verdade, desde o começo, sua verdadeira prioridade sempre foi a carreira. É por isso que ela aceita perder relações amorosas, mas nunca aceita perder espaço no trabalho.

Sylvie: o verdadeiro modelo

A relação entre Emily e Sylvie (Philippine Leroy-Beaulieu) se consolida como o eixo mais consistente e interessante da série e, nesta quinta temporada, ganha ainda mais força narrativa. Sylvie não é apenas a chefe exigente ou a contraparte europeia da protagonista; ela representa um modelo de mulher que já atravessou escolhas difíceis e aprendeu a sustentar o poder que conquistou.

Diferente de Emily, Sylvie não romantiza o trabalho nem confunde sucesso profissional com validação emocional. Sua postura firme, por vezes autoritária, nasce justamente da experiência: Sylvie entende que, em um mercado movido por imagem, influência e jogos de poder, estabelecer limites não é frieza, mas estratégia de sobrevivência. Ela aprendeu a separar desejo, afeto e carreira, e é isso que a torna segura no espaço que ocupa.

Essa rigidez, muitas vezes interpretada como dureza, é resultado de um percurso em que Sylvie precisou abrir mão de ilusões para se manter relevante. Ela escolheu a carreira sem culpa e sem pedir permissão, compreendendo que, para mulheres em posições de liderança, o poder raramente vem acompanhado de conforto emocional. É justamente por isso que a lealdade de Emily a Sylvie carrega tanto peso simbólico. Ao permanecer ao lado da chefe em momentos críticos, Emily está, na verdade, fazendo uma escolha consciente sobre o tipo de futuro que deseja construir. Sylvie é a personificação desse futuro: uma mulher bem-sucedida, respeitada e plenamente consciente do preço que suas escolhas exigiram.

A admiração silenciosa de Emily por Sylvie revela mais sobre seus desejos do que qualquer envolvimento amoroso. Enquanto os romances entram e saem de sua vida, a figura de Sylvie permanece como referência de estabilidade, ambição e autonomia. Ao escolhê-la, Emily escolhe a si mesma em uma versão mais madura.

Divulgação | Neflix

Mindy e Alfie: estranheza que encontra equilíbrio

A relação entre Mindy e Alfie soa estranha à primeira vista, especialmente pelo histórico dele com Emily. No entanto, funciona justamente por não carregar peso simbólico. Eles compartilham leveza, espírito festivo e entendimento mútuo. É uma relação menos idealizada e, por isso, mais funcional dentro da lógica da série.

Conclusão: Emily in Paris é sobre performance, não sobre amor

A quinta temporada deixa claro que Emily in Paris não é sobre encontrar o par perfeito. É sobre performar sucesso, identidade e pertencimento em um mundo guiado por imagem, contatos e status. Moda, música, Paris e romances são ferramentas narrativas. O verdadeiro enredo é a tentativa constante de Emily de se tornar alguém relevante sem perder completamente quem ela é.

Como toda ficção glamurizada, a série exagera, e exagerar faz parte do charme. Emily in Paris é sobre ambição feminina em um mundo onde tudo é espetáculo. E talvez seja exatamente por isso que, mesmo repetitiva, ela continue dando assunto. Mas me conta aqui, o que vocês acharam dessa temporada?

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